
Os chistes e sua relao com o inconsciente















VOLUME VIII
(1905)

















Dr. Sigmund Freud




         PREFCIO DO EDITOR
         
         DER WITZ UND SEINE BEZIEHUNG ZUM UNBEWUSSTEN
         (a) EDIES ALEMS:
         1905        Leipzig e Viena: Deuticke, Pp. ii + 206.
         1912        2 ed. Mesmos editores. (Com alguns pequenos acrscimos.) Pp. iv + 207.
         1921        3 ed. Mesmos editores. (Inalterada.) Pp. iv + 207.
         1925        4 ed. Mesmos editores. (Inalterada.) Pp. iv + 207.
         1925        G.S., 9, 1-269. (Inalterada.)
         1940        G.W., 6, 1-285. (Inalterada.)
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         Wit and its relation to the Unconscious
         1916        New York: Moffat, Yard. Pp. ix + 388. (tr. A. A. Brill.) (1917, 2 ed.)
         1917        London: T. Fisher Unwin. Pp. ix + 388. (Como acima.)
         1922        London: Kegan Paul. (Reimpresso da anterior.)
         1938        In The Basic Writings of Sigmund Freud. Pp. 633-803.
         New York: Random House. (Mesma traduo.)
         
         A presente traduo, inteiramente nova, com o ttulo Jokes and their Relation to the Unconscious (Os Chistes e sua Relao com o Inconsciente),  de James 
Strachey.
         
         No curso da discusso da relao entre os chistes e os sonhos, Freud menciona sua prpria 'razo subjetiva para dedicar-se ao problema dos chistes' (Ver 
em [1].) Era esta, em poucas palavras, o fato de que Wilhelm Fliess se queixara de que os sonhos estavam por demais cheios de chistes, ao ler as provas de A Interpretao 
de Sonhos no outono de 1899. O episdio j fora narrado em uma nota de rodap  1 edio da prpria A Interpretao de Sonhos (1900a) (ver em [1] e [2]); podemos, 
agora, dat-lo exatamente, pois dispomos da carta em que Freud replicava  queixa de Fliess. Foi escrita a 11 de setembro de 1899, de Berchtesgaten, onde foram dados 
os toques finais ao livro, e anuncia que Freud pretende inserir nele uma explicao de fato curioso: a presena nos sonhos de algo que se aparece aos chistes (Freud, 
1950a, Carta 118).
         
         Sem dvida o episdio atuou como fator precipitante e fez com que Freud devotasse maior ateno ao assunto, mas no h de ter sido, possivelmente, a origem 
de seu interesse. Existe ampla evidncia de que ele j tinha o assunto em mente vrios anos antes. O simples fato de que dispusesse de uma resposta imediata  crtica 
de Fliess demonstra a probabilidade dessa suposio; outra confirmao  dada pela referncia ao mecanismo dos efeitos 'cmicos', que aparece em uma pgina posterior 
de A Interpretao de Sonhos (ver em [1]) e que prenuncia um dos pontos principais do captulo final do presente trabalho. Mas era inevitvel que to logo Freud 
iniciasse sua detalhada investigao dos sonhos, ficasse surpreendido pela freqncia com que ocorriam nos prprios sonhos, ou em suas associaes, estruturas semelhantes 
a chistes. A Interpretao de Sonhos est cheio de exemplos dessa espcie, sendo talvez o registro mais antigo o do trocadilhesco sonho de Frau Ccilie M., relatado 
em uma nota de rodap ao final da histria clnica de Frulein Elizabeth von R. em Estudos sobre a Histeria (1895d), (ver em [1]).
         Mas, bem distante dos sonhos, h evidncia do precoce interesse terico de Freud pelos chistes. Em carta a Fliess, de 12 de junho de 1897 (Freud, 1950a, 
Carta 95), aps citar um chiste sobre dois Schnorrer, Freud escreveu: 'Devo confessar que desde h algum tempo estou reunindo uma coleo de anedotas de judeus, 
de profunda importncia'. Alguns meses depois, a 21 de setembro de 1897, cita uma outra histria de judeu, como pertencente 'a minha coleo' (ibid., Carta 69), 
e inmeras outras aparecem tanto na correspondncia com Fliess como em A Interpretao de Sonhos. (Ver, particularmente, um comentrio sobre essas histrias no Captulo 
V, Seo B, a partir de [1].) Desta coleo, naturalmente, derivaram os muitos exemplos de tais anedotas sobre as quais to amplamente se baseia sua teoria.
         Uma outra influncia, algo importante para Freud por volta daquela poca, foi a de Theodor Lipps. Lipps (1851-1914) era um professor de Munique que escrevia 
sobre psicologia e esttica, e ao qual se atribui a introduo do termo 'Einfhlung' (empatia). O interesse de Freud por ele foi, talvez, inicialmente despertado 
por um artigo sobre o inconsciente, lido em um congresso de psicologia de 1897, fundamento de uma longa discusso no ltimo captulo de A Interpretao de Sonhos 
(ver em [1].). Sabemos pelas cartas a Fliess que em agosto e setembro de 1898 Freud estava lendo um livro anterior de Lipps sobre The Basic Facts of Mental Life 
(1893), novamente impressionado pelos comentrios deste sobre o inconsciente (Freud, 1950a, Cartas 94, 95 e 97). Mas j em 1898 aparecia um outro trabalho de Lipps 
sobre assunto mais especfico - Komik und Humor. Foi este trabalho, como diz Freud logo ao incio do presente estudo, que o encorajou a embarcar nele.
         Foi em terreno assim preparado que caiu a semente do comentrio crtico de Fliess, decorrendo entretanto muito anos at que frutificasse.
         Freud publicou trs importantes trabalhos em 1905: a histria clnica de 'Dora', que apareceu no outono, embora, em sua maior parte, estivesse escrito quatro 
anos antes, Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade e Os Chistes e sua Relao com o Inconsciente. Trabalhou nesses dois ltimos livros simultaneamente: Ernest 
Jones (1955, 13) diz que Freud mantinha os dois manuscritos em mesas adjacentes e fazia acrscimos a um ou a outro de acordo com a disposio do momento. Os livros 
foram publicados quase simultaneamente e no est inteiramente estabelecido qual dos dois foi o primeiro. A numerao atribuda pelo editor em Trs Ensaios  de 
1124 e em Os Chistes, 1128; mas Jones (ibid., 375n.) relata que este ltimo nmero estava 'errado', o que podia implicar na reverso dessa ordem. Na mesma passagem, 
entretanto, Jones afirma definitivamente que Os Chistes 'apareceu logo aps o outro livro'. A data real da publicao deve ter antecedido o incio de junho, pois 
uma longa e favorvel recenso apareceu no jornal dirio de Viena Die Zeit a 4 de junho.
         A histria posterior deste livro difere muito dos outros principais trabalhos de Freud no perodo. A Interpretao de Sonhos, A Psicopatologia da Vida Cotidiana 
e Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade foram todos eles expandidos e modificados, de modo a se tornarem quase irreconhecveis em suas edies posteriores. 
Meia dzia de pequenos acrscimos foram feitos em Os Chistes quando este livro atingiu sua 2 edio em 1912, mas depois nenhuma outra mudana foi efetivada.
         Parece possvel que tal circunstncia se relacione ao fato de que o livro se mantenha  parte dos demais escritos de Freud. Ele prprio pensava assim. Suas 
referncias a ele em outros trabalhos so comparativamente escassas, em Conferncias Introdutrias (1916-17, Conferncia XV) refere-se a que ele o tenha temporariamente 
desviado de seu caminho; em Um Estudo Autobiogrfico (1925d), ver em [1] e [2], h mesmo o que parece ser uma referncia levemente depreciativa. Ento, inesperadamente, 
aps um intervalo de mais de vinte anos, Freud retoma o fio da meada, em seu breve artigo sobre 'Humour' (1927d), no qual utilizava sua concepo estrutural da mente, 
recentemente proposta, para lanar nova luz sobre um obscuro problema.
         Ernest Jones descreve o presente como o menos conhecido dos trabalhos de Freud, e isto  decerto verdade, o que no  de surpreender, quanto aos leitores 
no alemes.
         'Traduttore - Traditore!' Tais palavras - dos chistes discutidos adiante por Freud (em [1]) - podiam ser convenientemente inscritas na pgina de rosto do 
presente trabalho. Muitos dos trabalhos de Freud suscitam agudas dificuldades para o tradutor, mas este apresenta um caso especial. Aqui, como em A Interpretao 
de Sonhos e A Psicopatologia da Vida Cotidiana, e talvez em maior extenso, somos confrontados por um grande nmero de problemas envolvendo algum jogo de palavras 
intraduzvel. E aqui, como nesses outros casos, no podemos fazer mais que explicar a bem descomprometedora poltica adotada nessa edio. Dispomos de dois mtodos, 
um ou outro dos quais tem sido usualmente adotado no tratamento de tais exemplos intraduzveis - ou abandon-los de todo ou substitu-los por exemplos do prprio 
tradutor. Nenhum desses mtodos parece adequado a uma edio que pretende apresentar to acuradamente quanto possvel as idias de Freud aos leitores ingleses. Aqui, 
entretanto, devemos nos satisfazer em fornecer as palavras crticas no alemo original, explicando-as to brevemente quanto possvel nos colchetes ou notas de rodap. 
Inevitavelmente,  claro, o chiste desaparece nesse processo. Devemos lembrar-nos, contudo, que pela utilizao de qualquer dos mtodos alternativos, desaparecem 
pores, e s vezes as pores mais interessantes, dos argumentos de Freud. Presumivelmente o leitor tem estes em vista, mais que um momento de diverso.
         H, entretanto, uma dificuldade muito mais sria na traduo deste trabalho particular - uma dificuldade terminolgica que o atravessa em sua totalidade. 
Por uma estranha fatalidade (cujas causas seria do maior interesse investigar) os termos alemes e ingleses cobrindo os mesmos fenmenos parecem nunca coincidir; 
so sempre aparentemente ou amplos ou estreitos demais - deixando lacunas entre si, ou superpondo-se. O prprio ttulo do livro, 'Der Witz' j se nos depara um importante 
problema. Traduzi-lo como 'wit' abre as portas para mal-afortunadas incompreenses. No uso ingls normal 'wit' e 'witty' tm um sentido altamente restrito e aplicam-se 
apenas a uma espcie de chistes mais refinados ou intelectuais. O mais sumrio exame dos exemplos nestas pginas mostrar que 'Witz' e 'witzig' possuem conotao 
muito mais ampla. 'Joke' (chiste) por outro lado parece ser ampla demais e cobrir igualmente a alem Scherz. A nica soluo para este, e para dilemas similares, 
parece ser a adoo de uma palavra inglesa para alguma correspondente alem, mant-la consistente e invariavelmente mesmo se parece errada em um determinado contexto. 
Deste modo o leitor ao menos poder tirar sua prpria concluso quanto ao sentido em que Freud est usando tal palavra. Assim, atravs de todo o livro 'Witz' foi 
traduzido como 'joke' (chiste) e 'Scherz' como 'jest' (gracejo). H grande dificuldade com o adjetivo witzig, usado aqui na maioria dos casos como adjetivo qualificante 
de Witz. O Concise Oxford Dictionary apresenta, de fato, sem comentrios, o adjetivo 'joky' (chistoso). Tal palavra teria poupado ao tradutor inmeras desajeitadas 
perfrases mas ele confessa que no teve disposio para us-la. As nicas vezes em que 'Witz' foi traduzida como 'wit' so dois ou trs lugares (p. ex., em [1]) 
em que se utiliza a palavra alem (como explicado na ltima nota de rodap) para denotar a funo mental e no o seu produto, parecendo no haver, ento, alternativa 
possvel em ingls.
         H outras dificuldades, embora menos graves, quanto s palavras alems 'das Komische' e 'die Komik'. Uma tentativa de diferenciar entre elas, usando 'the 
comic' (o cmico) para a primeira e 'comicality' (comicidade) para a segunda foi abandonada em vista da passagem ao fim do pargrafo em [1], onde as duas palavras 
diferentes so usadas em sentenas sucessivas, muito claramente com o mesmo sentido, atendendo meramente ao objetivo de 'variao elegante'. De modo que a muito 
empolada palavra inglesa 'the comic' foi adotada sistematicamente para ambas as palavras alems.
         Finalmente, pode-se notar que a palavras inglesa 'humour', naturalmente usada para a alem 'Humour', soa decididamente artificial a ouvidos ingleses em 
alguns contextos. O fato  que hoje raramente a palavra parece ser usada isoladamente. Dificilmente ocorre exceto na expresso 'sense of humour'. Mas aqui, outra 
vez, o leitor estar em posio de decidir por si mesmo sobre o sentido que Freud conecta  palavra.
         Espera-se ardentemente que essas dificuldades, afinal, todas elas superficiais, no detenham os leitores no incio. O livro est cheio de um material fascinador, 
grande parte do qual no reaparece em nenhum outro escrito de Freud. As detalhadas abordagens a contidas dos complicados processos psicolgicos no tm rivais fora 
de A Interpretao de Sonhos, e so, em verdade, um produto da mesma fagulha de gnio que nos deu aquele grande trabalho.
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       A. PARTE ANALTICA
         
         I - INTRODUO
         
         Qualquer pessoa que tenha tido, em alguma poca, a oportunidade de investigar na literatura da esttica e da psicologia a luz que estas podem lanar sobre 
a natureza dos chistes, e sobre a posio por eles ocupada, dever provavelmente admitir que os chistes no vm recebendo tanta ateno filosfica quanto merecem, 
em vista do papel que desempenham na nossa vida mental. Pode-se nomear somente um pequeno nmero de pensadores que de fato se aprofundaram nos problemas dos chistes. 
Entre aqueles que discutiram o chiste esto, entretanto, nomes famosos, tais como os do novelista Jean Paul (Richter) e dos filsofos Theodor Vischer, Kuno Fischer 
e Theodor Lipps. Mas mesmo nesses escritores o tema dos chistes fica  retaguarda, estando o interesse principal da investigao voltado para o problema, mais amplo 
e mais atraente, da comicidade.
         A primeira impresso derivada da literatura  que  bem impraticvel tratar os chistes, a no ser em conexo com o cmico.
         De acordo com Lipps (1898), um chiste  'algo cmico de um ponto de vista inteiramente subjetivo', isto , 'algo que ns produzimos, que se liga a nossa 
atitude como tal, e diante de que mantemos sempre uma relao de sujeito, nunca de objeto, nem mesmo objeto voluntrio (ibid., 80). Segue-se melhor explicao por 
um comentrio de que o efeito daquilo, que, em geral, chamamos um chiste,  qualquer evocao consciente e bem-sucedida do que seja cmico, seja a comicidade devida 
 observao ou  situao' (ibid. 78).
         Fischer (1889) ilustra a relao dos chistes com o cmico lanando mo da caricatura, que, em sua abordagem, ele situa entre ambos. A comicidade interessa-se 
pelo feio, em qualquer uma de suas manifestaes: 'Se [o que  feito] for ocultado, deve ser descoberto  luz da maneira cmica de olhar as coisas; se  pouco notado, 
escassamente notado afinal, deve ser apresentado e tornado bvio, de modo que permanea claro, aberto  luz do dia... Desta maneira, nasce a caricatura'. (Ibid., 
45.) 'Todo nosso universo espiritual, o reino intelectual de nossos pensamentos e idias, no se desdobra ante a mirada da observao externa, nem pode ser diretamente 
imaginado de maneira vvida e visvel. Alm do mais, contm suas inibies, fraquezas e deformidades - uma riqueza de contrastes ridculos e cmicos. A fim de enfatizar 
estes e torn-los acessveis  considerao esttica,  necessrio uma fora capaz no simplesmente de imaginar os objetos diretamente mas antes de lanar luz sobre 
essas imagens, clarificando-as: uma fora que possa iluminar pensamentos. A nica fora dessa ordem  o juzo. Um chiste  um juzo que produz contraste cmico; 
participa j, tacitamente, da caricatura, mas apenas no juzo assume sua forma peculiar e a livre esfera de seu desdobramento.' (Ibid., 49-50.)
         Veremos que a caracterstica distintiva do chiste na classe do cmico , segundo Lipps, a ao, o comportamento ativo do sujeito, embora, para Fischer, 
consista na relao do chiste com seu objeto ou seja, a ocultada fealdade do universo dos pensamentos.  impossvel testar a validade dessas definies do chiste 
- na verdade, dificilmente elas so inteligveis -, a no ser que as consideremos no contexto de onde foram extradas. Seria, portanto, necessrio percorrer as abordagens 
do cmico feitas por esses autores antes que possamos aprender com eles sobre o chiste. Outras passagens, entretanto, mostram-nos que estes mesmos autores so capazes 
de descrever as caractersticas essenciais, e geralmente vlidas, do chiste sem considerar qualquer conexo sua com o cmico.
         A caracterizao que mais parece satisfazer ao prprio Fischer  a seguinte: 'Um chiste  um juzo ldico'.(Ibid., 51.) Por meio de uma ilustrao desse 
princpio, proporcionou uma analogia: 'exatamente como a liberdade esttica consiste na contemplao ldica das coisas' (ibid., 50). Em outra parte (ibid., 20) a 
atitude esttica  caracterizada pela condio de que nada solicitamos ao objeto; em especial, no lhe pedimos nenhuma satisfao de nossas necessidades srias, 
contentando-nos, antes, com o prazer de contempl-las. A atitude esttica  ldica, em contraste com o trabalho. 'Seria possvel que da liberdade esttica brotasse 
uma espcie de juzo liberado de suas usuais regras e regulaes, ao qual, devido a sua origem, eu chamarei juzo ldico', e est contido nesse conceito o principal 
determinante, seno a frmula total, que resolver nosso problema. 'A liberdade produz chistes e os chistes produzem liberdade', escreveu Jean Paul. 'Fazer chistes 
 simplesmente jogar com as idias'. (Ibid., 24.)
         Uma apreciada definio do chiste considera-o a habilidade de encontrar similaridades entre coisas dessemelhantes, isto , descobrir similaridades escondidas. 
Jean Paul expressou esse prprio pensamento em forma de chiste: 'O chiste  o padre disfarado que casa a todo casal'. Fischer [1846-57, 1, 422] avana esta definio: 
Ele (o padre) d preferncia ao matrimnio de casais cuja unio os parentes abominam'. Fischer objeta, entretanto, que h chistes em que no se cogita de comparar, 
em que, portanto, no se cogita de encontrar similaridades. Divergindo ligeiramente de Jean Paul, define o chiste como a habilidade de fundir, com surpreendente 
rapidez, vrias idias, de fato diversas umas das outras tanto em seu contedo interno, como no nexo com aquilo a que pertencem. Fischer, novamente, acentua o fato 
de que em largo nmero de juzos chistosos encontram-se diferenas, antes que similaridades, e Lipps indica que estas definies se relacionam  habilidade prpria 
do piadista e no aos chistes que ele faz.
         Outras idias, mais ou menos inter-relacionadas, que tm emergido para a definio ou a descrio dos chistes, so as seguintes: 'um contraste de idias', 
'sentido no nonsense', 'desconcerto e esclarecimento'.
         Definies como a de Kraepelin enfatizam como fator principal o contraste de idias. Um chiste  'a conexo ou a ligao arbitrria, atravs de uma associao 
verbal, de duas idias, que de algum modo contrastam entre si'. Um crtico como Lipps no tem dificuldades em demonstrar a total impropriedade dessa frmula; mas 
ele prprio no exclui o fator de contraste, deslocando-o simplesmente para uma outra parte. 'O contraste persiste, mas no o contraste entre as idias relacionadas 
s palavras, mas um contraste ou contradio entre o sentido e a falta de sentido das palavras.' (Lipps, 1898, 87.) Atravs de exemplos demonstra como se deve entender 
isso. 'Um contraste s assoma porque... atribumos s palavras um significado que, entretanto, no podemos garantir-lhes.' (Ibid., 90.)
         Se esse ponto for mais desenvolvido, o contraste entre 'sentido e nonsense' torna-se significante. 'Aquilo que, em certo momento, pareceu-nos ter um significado, 
verificamos agora que  completamente destitudo de sentido. Eis o que, nesse caso, constitui o processo cmico... Um comentrio aparece-nos como um chiste se lhe 
atribumos uma significncia dotada de necessidade psicolgica, e to logo tenhamos feito isso, de novo o refutamos. Essa "significncia" pode querer dizer vrias 
coisas. Atribumos sentido a um comentrio e sabemos que logicamente ele no pode ter nenhum. Descobrimos nele uma verdade, fato impossvel de acordo com as leis 
da experincia ou com nossos hbitos gerais de pensamento. Concedemos-lhe conseqncias lgicas ou psicolgicas, que ultrapassam seu verdadeiro contedo, apenas 
para negar tais conseqncias to logo tenhamos reconhecido claramente a natureza do comentrio. Em todos os casos, o processo psicolgico que o comentrio chistoso 
nos provoca, e sobre o qual repousa o processo cmico, consiste na imediata transio dessa atribuio de sentido, dessa descoberta da verdade, dessa concesso de 
conseqncias,  conscincia ou impresso de relativa nulidade.' (Ibid, 85)
         Por mais penetrante que essa anlise possa parecer, pode-se levantar aqui a questo de saber se o contraste entre o significativo e a falta de sentido, 
contraste sobre o qual se diz que o sentimento do cmico repousa, tambm contribui para a definio do conceito de chiste na medida em que este difira do conceito 
de cmico.
         O fator de 'desconcerto e esclarecimento' leva-nos tambm a aprofundar o problema da relao entre o chiste e o cmico. Kant fala-nos que o cmico em geral 
tem a notvel caracterstica de ser capaz de enganar-nos apenas por um instante. Heymans (1896) explica como  que o efeito de um chiste se manifesta, o desconcerto 
sendo sucedido pelo esclarecimento. Ilustra sua teoria atravs de um brilhante chiste de Heine, que faz um de seus personagens, Hirsch-Hyacinth, o pobre agente de 
loteria, vangloriar-se de que o grande Baro Rothschild o tenha tratado bem como a um seu igual: bastante 'familionariamente'. Aqui a palavra veculo desse chiste 
parece, a princpio, estar erradamente construda, ser algo ininteligvel, incompreensvel, enigmtico. Em decorrncia, desconcerta. O efeito cmico  produzido 
pela soluo desse desconcerto atravs da compreenso da palavra. Lipps (1898, 45) acrescenta que o primeiro estgio do esclarecimento - que a palavra desconcertante 
signifique isto ou aquilo -  seguido de um segundo estgio, no qual percebemos que a palavra sem sentido que nos havia 'confundido', nos mostra ento o sentido 
verdadeiro.  apenas esse segundo esclarecimento, essa descoberta de que uma palavra sem sentido, conforme o uso lingstico normal,  a responsvel por todo o processo 
- essa soluo do problema no nada -,  apenas esse segundo esclarecimento que produz o efeito cmico.
         Se alguma dessas duas concepes nos parece lanar um pouco mais de luz sobre a questo, a discusso do desconcerto e esclarecimento leva-nos para mais 
perto de uma descoberta particular. Pois se o efeito cmico do 'familionariamente' de Heine depende da interpretao dessa palavra aparentemente sem sentido, o chiste 
deve, sem dvida, ser atribudo  formao da palavra e s caractersticas da palavra assim formada.
         Uma outra peculiaridade dos chistes, pouco ou nada relacionada com o que at aqui j consideramos,  reconhecida por todas as autoridades sobre o assunto. 
A 'brevidade  o corpo e a alma do chiste, sua prpria essncia', diz Jean Paul (1804, parte II, pargrafo 42), modificando simplesmente o que o velho tagarela Polonius 
diz no Hamlet (II, 2), de Shakespeare:
         
         'Therefore, since brevity is the soul of wit '
          And tediousness the limbs and outward flourisher '
         I will be brief.'
         
         Nessa conexo, a abordagem por Lipps (1898, 90) da brevidade dos chistes  significativa: 'Um chiste diz o que tem a dizer, nem sempre em poucas palavras, 
mas sempre em palavras poucas demais, isto , em palavras que so insuficientes do ponto de vista da estrita lgica ou dos modos usuais de pensamento e de expresso. 
Pode-se mesmo dizer tudo o que se tem a dizer nada dizendo'.
         J sabemos, pela conexo dos chistes com a caricatura, que eles 'devem apresentar alguma coisa ocultada ou escondida' (Fischer, 1889, 51). Uma vez mais 
enfatizo esse determinante, porque ele tem tambm mais a ver com a natureza dos chistes do que com a parte cmica destes.
         
         Estou bem alerta para o fato de que os fragmentrios segmentos extrados dos trabalhos desses escritores sobre os chistes no lhes podem fazer justia. 
Devido s dificuldades ante uma exposio inequivocamente correta de cursos de pensamento to complicados e sutis, no posso poupar aos investigadores curiosos a 
tarefa de obter das fontes originais a informao que desejarem. No estou, entretanto, certo de que possam ficar inteiramente satisfeitos. Os critrios e as caractersticas 
dos chistes apresentados por esses autores, e acima coligidos - a atividade, a relao com o contedo de nossos pensamentos, a caracterstica do juzo ldico, a 
conjugao de coisas dissimilares, as idias contrastantes, o 'sentido no nonsense', a sucesso de desconcerto e esclarecimento, a revelao do que estava escondido, 
e a peculiar brevidade de chiste -, tudo isso,  verdade, parece-nos  primeira vista to estritamente adequado e to facilmente confirmvel pelos exemplos, que 
no podemos correr qualquer risco de subestimar tais concepes. Mas elas so disjecta membra que gostaramos de ver combinados em um todo orgnico. Uma vez que 
todos sejam expressos, no contribuem para nosso conhecimento dos chistes mais que um conjunto de anedotas para a descrio da personalidade de algum cuja biografia 
temos o direito de solicitar. No penetramos absolutamente nas conexes presumivelmente existentes entre os determinantes separados: o que teria, por exemplo, a 
brevidade do chiste a ver com sua caracterstica de ser um juzo ldico. Necessitamos que, alm disso, nos digam se um chiste deve satisfazer a todos esses determinantes 
para que seja propriamente um chiste, ou se precisa satisfazer apenas a alguns, nesse caso sendo necessrio especificar quais podem ser substitudos por outros e 
quais so indispensveis. Desejaramos tambm agrupar e classificar os chistes de acordo com suas caractersticas consideradas essenciais. A classificao que encontramos 
na literatura descansa, por um lado, nos recursos tcnicos empregados (trocadilhos ou jogos de palavras) e, por outro lado, no uso que se faz deles no discurso (e.g. 
chistes usados com o objetivo de caricatura, de caracterizao, ou de afronta).
         No devemos, pois, achar dificuldades em indicar os objetivos de qualquer nova tentativa de lanar luz sobre os chistes. Para poder contar com algum xito, 
teremos, ou que abordar o trabalho a partir de novos ngulos, ou esforar-nos por penetr-lo ainda mais atravs de aumentada ateno e aprofundado interesse. Podemos 
pelo menos decidir que no fracassaremos quanto ao ltimo aspecto.  impressionante que as autoridades se dem por satisfeitas com os propsitos de suas investigaes, 
considerando um nmero to pequeno de chistes reconhecidos como tais, utilizando alm do mais os mesmos exemplos analisados por seus predecessores. No devemos esquivar-nos 
ao dever de analisar os mesmos casos que j serviram s clssicas investigaes sobre os chistes. Mas temos, alm disso, a inteno de voltar-nos sobre novo material, 
visando a uma fundamentao mais ampla para nossas concluses. , pois, natural que escolhamos como assunto de nossa investigao exemplos de chistes que nos tenham 
impressionado mais no curso de nossas vidas e que nos tenham feito rir mais intensamente.
         Valer tanto trabalho o tema dos chistes? Pode haver, creio eu, dvida quanto a isso. Deixando de lado os motivos pessoais que me fazem desejar conseguir 
uma penetrao dos problemas dos chistes, os quais viro  luz no curso destes estudos, posso apelar para o fato de que h ntima conexo entre todos os eventos 
mentais, fato este que garante que uma descoberta psicolgica, mesmo em campo remoto, repercutir impredizivelmente em outros campos. Podemos ter tambm em mente 
o encanto peculiar e fascinador exercido pelos chistes em nossa sociedade. Um novo chiste age quase como um acontecimento de interesse universal: passa de uma a 
outra pessoa como se fora a notcia da vitria mais recente. Mesmo homens eminentes que acreditam valer a pena contar a histria de suas origens, das cidades e pases 
que visitaram, das pessoas importantes com quem conviveram, no se envergonham de inserir em suas autobiografias o relato de algum excelente chiste que acaso ouviram.
         
         II - A TCNICA DOS CHISTES
         
         Vamos tomar agora um caminho, apresentado ao acaso, considerando o primeiro exemplo de chiste com que deparamos no captulo anterior.
         Na parte de seu Reisebilder intitulada 'die Bder von Lucca [Os Banhos de Lucca]' Heine introduz a deliciosa figura do agente de loteria e calista hamburgus, 
Hirsch-Hyacinth, que se jacta ao poeta de suas relaes com o rico Baro Rothschild, dizendo finalmente: 'E to certo como Deus h de me prover todas as coisas boas, 
doutor, sentei-me ao lado de Salomon Rothschild e ele me tratou como um seu igual - bastante familionariamente'.
         Heymans e Lipps utilizaram esse chiste (que , indiscutidamente, um chiste excelente e muito divertido) para ilustrar sua concepo de que o efeito cmico 
dos chistes deriva de 'desconcerto e esclarecimento' (ver antes [1]). Deixaremos, entretanto, de lado essa questo e formularemos outra: 'O que converte o comentrio 
de Hirsch-Hyacinth em um chiste?'. S pode haver duas respostas possveis: ou o pensamento expresso na sentena possui em si mesmo o carter de um chiste, ou o chiste 
reside na expresso que o pensamento encontrou na sentena. Qualquer que seja a direo em que consista o carter do chiste, ns o perseguiremos alm e tentaremos 
capt-lo.
         Um pensamento pode, em geral, ser expresso por vrias formas lingsticas - ou seja, por vrias palavras - que podem represent-lo com igual aptido. O 
comentrio de Hirsch-Hyacinth apresenta seu prprio pensamento numa forma particular de expresso e, conforme nos parece, numa forma especialmente estranha, no 
aquela que seria mais facilmente inteligvel. Tentemos exprimir o mesmo pensamento com a maior preciso possvel em outras palavras. Lipps executou essa tarefa de 
modo a explicar em alguma medida a inteno do poeta. Escreve ele (1898, 87): 'Heine, como o entendo, pretende significar que ele [Hyacinth] fora recebido com uma 
familiaridade - de espcie no rara, e que em regra no  favorecida por ter um tempero de milionria riqueza'. No teremos alterado o sentido dessa parfrase, se 
lhe dermos uma outra forma mais adequada  fala de Hirsch-Hyacinth: 'Rothschild tratou-me como um igual, muito familiarmente, isto , na medida em que isso  possvel 
a um milionrio'. 'A condescendncia de um homem rico', acrescentaramos, 'sempre envolve alguma coisa pouco agradvel para quem a experimente.'
         Quer nos decidamos a escolher qualquer das duas, igualmente vlidas, verses do pensamento, verificamos que a questo que nos pusramos, fica resolvida. 
Nesse exemplo o carter do chiste no reside no pensamento. O que Heine ps na boca de Hirsch-Hyacinth  uma observao correta e aguda, uma observao de inequvoca 
amargura, compreensvel num pobre homem defrontado por to grande riqueza; no nos aventuraramos, entretanto, a descrev-la como chistosa. Se algum  incapaz, 
ao considerar a traduo do chiste, de livrar-se da lembrana da forma dada pelo poeta ao pensamento, sentindo assim que, no obstante, o pensamento  ele prprio 
chistoso, podemos apontar, como critrio seguro, para o fato de que o carter chistoso se tenha perdido na traduo. O comentrio de Hirsch-Hyacinth faz-nos rir 
a bom rir, enquanto sua acurada traduo por Lipps, ou a nossa prpria verso desta, ainda que possa agradar-nos e fazer-nos pensar, dificilmente poder suscitar 
riso.
         Mas, se o que faz de nosso exemplo um chiste no  nada que resida no pensamento, devemos procur-lo na forma, na verbalizao que o exprime. Temos apenas 
que estudar a peculiaridade de sua forma de expresso para captar o que se pode denominar tcnica verbal ou expressiva desse chiste, algo que deve estabelecer ntima 
relao com a essncia do chiste, j que, substituda por qualquer outra coisa, o carter e o efeito do chiste desaparecem. Alm do mais, ao atribuir tanta importncia 
 forma verbal dos chistes estamos em perfeita concordncia com as autoridades. Assim, Fischer (1889, 72) escreve: ', em primeiro lugar, a simples forma que transforma 
em chiste um juzo; recordamos um dito de Jean Paul que, em nico aforismo, explica e exemplifica essa precisa caracterstica dos chistes: "Tal  simplesmente o 
poder da posio, seja entre guerreiros seja entre palavras'''.
         Em que consiste, pois, a 'tcnica' desse chiste? O que acontece ao pensamento, como expresso, por exemplo, em nossa verso, de modo a torn-lo um chiste 
que nos faz rir entusiasticamente? Ocorrem duas coisas, tal como podemos verificar pela comparao de nossa verso com o texto do poeta. Primeiro, ocorre uma considervel 
abreviao. A fim de expressar completamente o pensamento contido no chiste, fomos obrigados a acrescentar s palavras 'R. tratou-me quase como seu igual, muito 
familiarmente', um post-scriptum que, reduzido  sua forma mais condensada, se exprime, 'isto , na medida em que isso  possvel a um milionrio'. E, ainda assim, 
sentimos necessidade de uma ulterior sentena explicativa. O poeta o exprime de maneira muito mais sinttica: 'R. tratou-me como um seu igual - bastante familionariamente'. 
No chiste desaparece toda a restrio acrescentada pela segunda sentena  primeira, que relata o tratamento familiar.
         Mas no desaparece a ponto de no deixar um substituto a partir do qual possamos reconstru-la. A palavra 'familir [familiarmente]', na expresso no chistosa 
do pensamento, transformou-se no texto do chiste em 'famillionr [familionariamente]'; e no pode haver dvida de que  precisamente dessa estrutura verbal que dependem 
o carter do chiste como chiste e o seu poder de causar riso. A palavra ora construda coincide, em sua posio anterior, com o 'familir' da primeira sentena, 
e nas slabas finais com o 'Millionr' [milionariamente] da segunda. A palavra representa, portanto, a posio 'Millionr' da segunda sentena e, mesmo, toda a segunda 
sentena, o que nos pe em condies de inferir que a segunda sentena tenha sido omitida do texto do chiste. Pode ser descrita como uma 'estrutura composta', constituda 
pelos dois componentes 'familir' e 'Millionr', e  tentador fornecer um quadro diagramtico da maneira pela qual se fez a derivao a partir daquelas duas palavras:
         
         f a m i l i        r
              m i l i o n  r
         ------------
         f a m i l i o n  r
         
         O processo de converso do pensamento em um chiste pode ser representado da seguinte maneira, fantstica  primeira vista, mas produzindo precisamente o 
resultado que realmente se nos depara:
         
         'R. tratou-me bastante familir,
         isto , tanto quanto  possvel para um Millionr.'
         
         Imaginemos agora que uma fora compressora  levada a atuar sobre essas sentenas, e que, por alguma razo, a segunda  a menos resistente. Opera-se, pois, 
o seu desaparecimento, enquanto seu constituinte mais importante, a palavra 'Millionr', que tem xito ao rebelar-se contra sua supresso, , por assim dizer, reintegrada 
 primeira sentena, e fundida com o elemento de tal sentena que lhe  mais semelhante: 'familir'. E a possibilidade casual, que assim emerge, de salvar a parte 
essencial da segunda sentena efetivamente favorece a dissoluo dos outros constituintes menos importantes. Assim, pois,  gerado o chiste:
         
         'R. tratou-me bastante famili on r.'
                                                 (mili)   (r)
         
         Se exclumos da abordagem tal fora compressora que, na verdade, desconhecemos, o processo pelo qual se forma o chiste - ou seja, a tcnica do chiste - 
pode ser descrito, nesse caso, como uma 'condensao acompanhada pela formao de um substituto'; e no exemplo em pauta, a formao do substituto consiste na produo 
de uma 'palavra composta'. Essa palavra composta 'famillionr', que , em si mesma, incompreensvel, mas imediatamente compreendida em seu contexto e reconhecida 
como plena de sentido,  o veculo do efeito compelidor do riso no chiste - mecanismo que no fica, em absoluto, mais bem esclarecido por nossa descoberta da tcnica 
do chiste. De que modo um processo lingstico de condensao, acompanhado pela formao de um substituto atravs de palavra composta, pode proporcionar-nos prazer 
e fazer-nos rir? Esse, evidentemente,  um problema diferente, cujo tratamento podemos adiar at que tenhamos encontrado uma maneira de abord-lo. Por enquanto, 
nos restringiremos  tcnica dos chistes.
         Nossa expectativa de que a tcnica dos chistes no seja indiferente  perspectiva de descoberta da essncia destes, leva-nos imediatamente a inquirir se 
existem outros exemplos de chistes, construdos  maneira do 'famillionr' de Heine. No existindo muitos, so, entretanto, numerosos o bastante para constiturem 
um pequeno grupo caracterizado pela formao de palavras compostas. O prprio Heine derivou um segundo chiste da palavra 'Millionr', copiando-se a si mesmo. No 
Captulo 19 de seu 'Ideen', ele fala de um 'Millionar', bvia combinao de 'Millionr' e 'Narr', que, exatamente como no primeiro exemplo, libera um pensamento 
subsidirio suprimido.
         Eis alguns outros exemplos que encontrei. H uma certa fonte [Brunnen] em Berlim, cuja construo custou ao Burgomestre Forckenbecke muita impopularidade. 
Os berlinenses a chamaram 'Forckenbecken', e essa descrio encerra certamente um chiste, ainda que para isso fosse necessrio substituir a palavra 'Brunnen' por 
seu obsoleto equivalente 'Becken' a fim de combin-la em uma totalidade com o nome do Burgomestre. A opinio pblica europia foi responsvel tambm por um chiste 
cruel ao trocar o nome de um potentado de Leopold para Cleopold, devido s relaes que ele mantivera certa vez com uma senhora cujo primeiro nome era Cleo. Esse 
indiscutvel produto de uma condensao mantm viva uma perturbadora aluso  custa de uma nica letra. Os nomes prprios em geral so fceis vtimas desse tipo 
de tratamento pela tcnica do chiste. Havia em Viena dois irmos chamados Salinger, um dos quais era um Brsensensal [corretor da Bolsa; Sensal = corretor]. Tal 
fato forneceu um meio para cham-lo 'Sensalinger', enquanto seu irmo, para distingui-lo, era chamado pelo nada lisonjeiro nome de 'Scheusalinger'. A denominao 
era engenhosa e, sem dvida, constitua um chiste; no posso dizer se justificvel. Mas os chistes, em regra, pouco indagam quanto a isso.
         Contaram-me certa vez o seguinte chiste de condensao. Um jovem que vinha levando uma vida bomia no estrangeiro retribuiu, aps longa ausncia, uma visita 
a um amigo que morava aqui. O ltimo surpreendeu-se ao ver uma Ehering [aliana de casamento] na mo do visitante. 'Como?' exclamou ele, 'voc casou-se?' 'Sim', 
foi a resposta, 'Trauring, mas verdadeiro'. O chiste  excelente. A palavra 'Trauring' combina ambos os componentes: 'Ehering' transformado em 'Trauring' e a sentena 
'trauring, aber wahr [triste, mas verdadeiro]'. O efeito do chiste no sofre interferncia do fato de que a palavra composta aqui no seja, como 'famillionr', uma 
estrutura ininteligvel e, de outra maneira, inexistente, sendo antes uma palavra que coincide inteiramente com um dos dois elementos representados.
         No curso da investigao eu prprio forneci certa vez, no intencionalmente, matria para um chiste, uma vez mais bastante anlogo a 'famillionr'. Relatava 
eu a uma dama os grandes servios prestados por um homem de cincia, que considerava injustamente negligenciado. 'Mas como', disse ela, 'o homem merece um monumento.' 
'Talvez ele o tenha um dia', repliquei, 'mas momentan [no momento] tem muito pouco sucesso.' 'Monument' e 'momentan' so antnimos. A senhora prosseguiu reunindo-os: 
'Bem, desejemos-lhe ento um sucesso monumentan.
         Devo alguns exemplos em lnguas estrangeiras, que apresentam o mesmo mecanismo condensador de nosso 'famillionr', a uma excelente discusso do mesmo assunto 
em ingls, por A. A. Brill (1911). Relata Brill que o autor ingls De Quincey comentou em algum lugar que as pessoas idosas inclinam-se por cair no 'anecdotage'. 
Esta palavra  uma fuso das palavras parcialmente coincidentes.
         
           ANECDOTE
         e      RADOTAGE
         
         Em uma outra histria annima, Brill encontrou certa vez a poca do Natal descrita como 'the alcoholidays', fuso similar de
         
           ALCOHOL
         e      HOLIDAYS.
         
         Depois que Flaubert publicou sua celebrada novela Salammb, Sainte-Beuve qualificou ironicamente a cena que se passava na antiga Cartago, a despeito de 
sua detalhada elaborao, como sendo 'Carthaginoiserie';
         
           CARTHAGINOIS
         e      CHINOISERIE
         
         Mas o melhor exemplo de um chiste desse grupo deve-se a um dos homens de proa da ustria, o qual, aps importante trabalho pblico e cientfico, ocupa agora 
um dos mais altos postos do Estado. Aventurei-me a utilizar chistes a ele atribudos, que levam todos alis o mesmo selo inconfundvel, como material para estas 
pesquisas, principalmente porque seria difcil encontr-lo melhor.
         A ateno de Herr N. foi um dia despertada pela figura de um escritor, que se tornou afamado devido a uma srie de ensaios inegavelmente tediosos, escritos 
em contribuio a um jornal dirio de Viena. Todos esse ensaios tratavam de pequenos episdios sobre as relaes de Napoleo I com a ustria. O autor tinha cabelos 
vermelhos. To logo ouviu a meno de seu nome, Herr N. indagou: 'Esse no  aquele roter Fadian que se estende pela histria dos Napolenidas?'.
         Para descobrir a tcnica desse chiste devemos submet-lo ao processo de reduo que elimina o chiste pela mudana do modo de expresso, apresentando, ao 
invs, o sentido original completo que decerto pode ser inferido de um bom chiste. O chiste de Herr N. sobre o 'roter Fadian' deriva de dois componentes: um julgamento 
depreciativo do escritor e uma evocao do famoso smile com que Goethe introduz os excertos 'Do dirio de Ottilie' no Wahlverwandtschaften. A destemperada crtica 
pode assim ser entendida: 'Trata-se ento dessa pessoa que incessantemente escreve apenas histrias tediosas sobre Napoleo na ustria!'. Ora este comentrio por 
nada  um chiste. Nem  um chiste a bela analogia de Goethe, que decerto no foi calculada com o objetivo de fazer-nos rir. Exclusivamente quando esses dois fatos 
so postos em conexo entre si, submetidos ao peculiar processo de condensao e fuso, o chiste emerge - e um chiste da primeira ordem.
         A conexo do julgamento depreciativo sobre o tedioso escritor com a bela analogia em Wahlverwandtschaften deve ter ocorrido (por razes que ainda no tornei 
inteligveis) de uma maneira menos simples que em muitos outros casos similares. Tentarei representar o provvel curso dos eventos pela seguinte construo. Primeiramente, 
o elemento de constante recorrncia temtica nas histrias pode ter despertado em Herr N. a leve recordao de uma conhecida passagem de Wahlverwandtschaften, em 
geral citada erradamente: 'estende-se como se fora um roter Faden [fio escarlate]'. O roter Faden da analogia exerceu ento uma influncia modificadora da expresso 
da primeira sentena, em conseqncia da circunstncia eventual de que a pessoa insultada fosse tambm rot [vermelha], isto , tivesse cabelos vermelhos. Poder-se-ia 
ento traduzir: ' ento aquela pessoa vermelha (ruiva) que escreve entediantes histrias sobre Napoleo!'. Inicia-se ento o processo, efetuando a condensao dos 
dois pedaos. Sob a presso deste, que encontra seu primeiro fulcro na identidade do elemento 'rot', o 'tedioso'  assimilado a 'Faden' (fio) e depois modificado 
para 'fad [estpido]'; aps isso, os dois componentes puderam fundir-se no efetivo texto do chiste, desempenhando a citao, nesse caso, um papel to importante 
quanto o elemento julgamento depreciativo, que estava inegavelmente isolado no incio do processo. 'Ento,  aquele sujeito vermelho que escreve esta fad matria 
sobre N[apoleon].'
         'O  vermelho  Faden que se estende por tudo.'
         
         'No  aquele red Fadian que se estende pela estria dos N[apolenidas]?'
         Em captulo posterior (ver em [1]) acrescentarei uma justificao, tanto quanto uma correo, a essa abordagem, quando vier a analisar esse chiste a partir 
de pontos de vista no meramente formais. Mas seja o que for que restar pendente de dvida,  inegvel que uma condensao se tenha processado. O resultado da condensao 
, novamente, por um lado, uma abreviao considervel; mas, por outro lado, em vez da formao de alguma surpreendente palavra composta, o que se d  a interpenetrao 
dos constituintes dos dois componentes.  verdade que 'roter Fadian' poderia existir como uma simples denominao ofensiva, mas, em nosso caso,  seguramente o resultado 
de uma condensao.
         
         Se, nesse ponto, um leitor vier a indignar-se diante de um mtodo de abordagem que ameaa arruinar sua apreciao dos chistes sem ser capaz de lanar luz 
sobre a fonte de tal deleite solicito-lhe pacincia, por enquanto. No momento estamos tratando apenas da tcnica dos chistes e essa investigao  mesmo promissora 
se a fizermos avanar suficientemente.
         A anlise do ltimo exemplo preparou-nos para descobrir que, se nos depararmos com o processo de condensao em mais alguns exemplos, o substituto daquilo 
que  suprimido pode ser, no uma estrutura composta, mas alguma outra alterao da forma de expresso. Podemos inteirar-nos do que possa ser essa outra forma substituta, 
considerando um outro chiste de Herr N.
         'Viajei com ele tte-a-bte'. Nada mais fcil que a reduo desse chiste que, claramente, significa: 'Viajei com X tte--tte, e X  uma besta'.
         Nenhuma dessas duas ltimas sentenas  um chiste. Elas podiam ser reunidas em 'Viajei com aquela besta do X tte--tte' e, ainda assim, no comporiam 
um chiste. O chiste apenas emerge se se omite 'besta', e, em sua substituio, o 't' de uma das 'tte' converte-se em 'b'. Com essa leve modificao, e no obstante 
ela, a palavra 'besta' suprimida encontra expresso novamente. A tcnica desse grupo de chistes pode ser descrita como 'condensao acompanhada de leve modificao', 
podendo-se insinuar que quanto mais leve for a modificao melhor ser o chiste.
          similar a tcnica de um outro chiste, embora um pouco mais complicada. No curso de uma conversa, falando-se sobre uma pessoa da qual tanto se havia para 
louvar como para criticar, Herr N. comentou: 'Bem, a vaidade  um de seus quatro calcanhares de Aquiles'. Nesse caso a leve modificao consiste em que, ao invs 
de um calcanhar de Aquiles, que o heri deve ter efetivamente possudo, temos em questo quatro calcanhares. Quatro calcanhares - ora, apenas um animal tem quatro 
calcanhares. Assim, os dois pensamentos condensados no chiste exprimem-se: ' parte sua vaidade, Y  um homem eminente; apesar disso, no gosto dele -  antes um 
animal que um homem'.
         
         Certa vez, ouvi outro chiste, similar mas mais simples, um chiste em statu nascendi num crculo familiar. Estando dois irmos em um colgio, um deles era 
um excelente estudante e o outro um estudante medocre. Aconteceu ento que o aluno exemplar teve tambm um fracasso na escola e sua me referiu-se a esse incidente 
exprimindo sua preocupao com o que poderia significar o comeo de uma ulterior deteriorao. O menino que at ento tinha sido ofuscado por seu irmo, agarrou 
essa oportunidade. ' verdade, Karl est recuando nas quatro.'
         A modificao aqui consiste em um breve acrscimo  convico de que ele tambm participava da opinio de que seu irmo estava regredindo. Mas tal modificao 
representava e substitua uma apaixonada alegao em causa prpria: 'Voc no deve achar que ele  muito mais inteligente que eu simplesmente porque tem mais sucesso 
na escola. Afinal,  apenas um estpido animal - vale dizer, muito mais estpido que eu'.
         Um outro bem conhecido chiste de Herr N. oferece um ntido exemplo de condensao com leve modificao, em comentrio sobre um personagem da vida pblica: 
'Tem um grande futuro por trs dele'. O homem a quem esse chiste se referia era bem mais jovem e parecia destinado, por seu nascimento, educao e qualidades pessoais, 
a conseguir no futuro a liderana de um grande partido poltico e a entrar no governo como chefe deste. Mas os tempos mudaram; o partido tornou-se to inadmissvel 
como o governo e podia-se prever que o homem predestinado  liderana acabaria no chegando a parte alguma. A verso mais sinttica a que se poderia reduzir o chiste 
seria: 'O homem teve um grande futuro  sua frente, mas no tem mais'. Em vez do 'teve' e da segunda orao, fez-se simplesmente uma pequena modificao na orao 
principal substituindo-se ' sua frente' pelo antnimo 'por trs dele'.
         Herr N. utilizou quase exatamente a mesma modificao no caso de um cavalheiro que se tornou Ministro da Agricultura pela nica qualificao de ser um fazendeiro. 
A opinio pblica teve ocasio de reconhecer que se tratava do menos dotado entre os ocupantes do cargo em todos os tempos. Quando abandonou o posto e retirou-se 
a seus interesses rurais particulares, Herr N. disse dele: 'Como Cincinnatus, voltou a seu lugar  frente de um arado'.
         
         O romano, entretanto, que fora convocado a um cargo pblico, deixando o arado, retornou a seu lugar atrs deste. O que vem  frente de um arado, naquele 
ento e sempre,  apenas um boi.
         Karl Kraus foi responsvel por uma outra feliz condensao com leve modificao. Escreveu a respeito de certo jornalista da imprensa marrom que este viajara 
a um dos pases dois Balcs pelo 'Orienter presszug'.Sem dvida essa palavra combina duas outras: Orientexpresszug [Expresso Oriente]' e 'Erpressung [chantagem]'. 
Devido ao contexto, o elemento 'Erpressung' emerge apenas como uma modificao de 'Orientexpresszug' - uma palavra requerida pelo verbo ['viajara']. Esse chiste 
que se apresenta  guisa de um erro de imprensa, suscita por uma outra razo nosso interesse.
         Essa srie de exemplos poderia ser facilmente expandida mas no creio que necessitemos de novos casos para capacitar-nos a captar nitidamente as caractersticas 
da tcnica desse segundo grupo - condensao com modificao. Se compararmos o segundo grupo com o primeiro, cuja tcnica consistia na condensao com formao de 
palavra composta, verificaremos facilmente que a diferena entre eles no  de carter essencial e que as transies ocorrem fluentemente. Tanto a formao de palavras 
compostas como a modificao podem ser subsumidas sob o conceito de formao de substitutos; e, se o desejarmos, poderemos tambm descrever a formao de uma palavra 
composta como a modificao de uma palavra bsica por um segundo elemento.
         
         Aqui, porm, devemos fazer uma primeira pausa e perguntar-nos com que fator conhecido na literatura sobre o assunto coincide parcial ou inteiramente essa 
nossa primeira descoberta. Evidentemente coincide com o fator da brevidade, descrito por Jean Paul como 'a alma do chiste' (ver em [1]). Mas a brevidade no  por 
si mesma chistosa, caso em que todo comentrio lacnico viria a s-lo. A brevidade do chiste deve ser de uma espcie particular. Lembremo-nos de que Lipps tentou 
descrever mais precisamente essa particular brevidade dos chistes (ver em [2]). Para isso nossa investigao contribui de algum modo, demonstrando que a brevidade 
dos chistes  freqentemente o resultado de um processo particular que deixa um segundo vestgio na verbalizao do chiste - a formao de um substituto. Pela utilizao 
do procedimento de reduo, que procura desfazer esse peculiar processo de condensao, verificamos tambm que o chiste depende inteiramente de sua expresso verbal 
tal como estabelecida pelo processo de condensao. Todo nosso interesse volta-se, naturalmente, para esse estranho processo que foi at aqui escassamente examinado. 
Nem ao menos podemos compreender como  que tudo o que h de mais valioso no chiste, a produo de prazer que este nos traz, pode originar-se desse processo.
         Sero conhecidos, em algum outro domnio de eventos mentais, processos similares aos que aqui descrevemos como tcnica do chiste? H processos semelhantes 
em um nico campo, aparentemente muito remoto. Em 1900 publiquei um livro que, como indica seu ttulo (A Interpretao de Sonhos), tentava lanar luz sobre o que 
havia de enigmtico nos sonhos, estabelecendo-os como derivativos de nosso funcionamento mental normal. Nessa obra encontrei ocasio de contrastar o manifesto, e 
freqentemente estranho, contedo do sonho com os pensamentos onricos latentes, que so perfeitamente lgicos e dos quais o sonho  derivado; meti-me na investigao 
dos processos que fazem surgir o sonho a partir dos pensamentos onricos latentes, tanto quanto das foras psquicas envolvidas nessa transformao. Dei o nome de 
'elaborao onrica'  totalidade desses processos transformadores e descrevi como integrante dessa elaborao onrica um processo de condensao que mostra a maior 
similaridade com aquele constatado na tcnica dos chistes - que, da mesma forma, leva  abreviao, e cria formaes de substitutos da mesma natureza. Todos esto 
acostumados, pela recordao de seus prprios sonhos, com as estruturas compostas, tanto de pessoas como de coisas, que emergem nos sonhos. Na verdade, os sonhos 
constroem-nas mesmo com palavras, sendo possvel ento dissec-las na anlise. (Por exemplo, 'Autodidasker', = 'Autodidakt' + 'Lasker'.) Em outras ocasies - de 
fato, muito mais freqentes - o trabalho de condensao nos sonhos produz, no estruturas compostas, mas quadros que nos recordam com exatido uma coisa ou uma pessoa, 
exceto por um acrscimo ou uma alterao derivada de alguma outra fonte: modificao precisamente do mesmo tipo encontrado nos chistes de Herr N. No podemos pr 
em dvida que em ambos os casos somos confrontados pelo mesmo processo psquico, ao qual podemos reconhecer devido a seus resultados idnticos. Uma analogia to 
abrangente entre a tcnica dos chistes e a elaborao onrica sem dvida aumentar nosso interesse na primeira e suscitar em ns uma expectativa de que uma comparao 
dos chistes com os sonhos ajudar a lanar luz sobre os chistes. Contudo, no daremos ainda incio a essa tarefa, j que devemos considerar que at agora s foi 
investigada a tcnica de um nmero muito pequeno de chistes, de modo a no podermos dizer que a analogia que propomos para guiar-nos mantm-se de fato estabelecida. 
Ns nos afastaremos, portanto, da comparao com os sonhos e voltaremos  tcnica dos chistes, deixando nesse ponto de nossa investigao um cabo solto que possamos 
talvez retomar em um estgio ulterior.
         
         A primeira coisa que queremos saber  se o processo de condensao com formao de substituto h de ser encontrado em todo chiste, devendo, portanto, ser 
considerado como uma caracterstica universal da tcnica dos chistes.
         Lembro-me aqui de um chiste que persistiu em minha memria devido s circunstncias especiais em que o ouvi. Um dos grandes professores  poca de minha 
juventude, pessoa que sempre consideramos incapaz de apreciar um chiste e de quem nunca ouvimos igualmente um, chegou um dia ao Instituto rindo-se, e, mais prontamente 
que de costume, explicou-nos a razo de seu bom humor. 'Acabei de ler um excelente chiste', disse ele. 'Um jovem, parente do grande Jean-Jacques Rousseau, de quem 
ele trazia o nome, foi apresentado em um salon de Paris. Tinha, alm do mais, os cabelos vermelhos. Comportou-se entretanto de maneira to desajeitada que a anfitri 
comentou criticamente para o cavalheiro que o apresentou: "Vou m'avez fait connitre un jeune homme roux et sot, mais non pas un Rousseau''.' E o professor riu-se 
novamente.
         De acordo com a nomenclatura das autoridades esse chiste seria classificado como um 'Klangwitz' e, ainda, de tipo inferior, constituindo-se em um jogo com 
um nome prprio - em nada dessemelhante, por exemplo, ao chiste do sermo do monge capuchinho em Wallensteins Lager, que, como se sabe, tem por modelo o estilo de 
Abraham de Santa Clara:
         
         Lasst sich nennen den Wallenstein,
         ja freilich ist er uns allen ein Stein
         des Anstosses und rgernisses.
         
         Mas qual ser a tcnica desse chiste? Verificamos imediatamente que a caracterstica que esperaramos demonstrar como universal est ausente no primeiro 
novo exemplo examinado. No h omisso aqui, e dificilmente poder-se-ia encontrar uma abreviao. A prpria dama manifesta diretamente no chiste quase tudo que poderamos 
atribuir a seus pensamentos. 'Voc despertara minhas expectativas quanto a um parente de Jean-Jacques Rousseau - talvez, um parentesco espiritual - e eis o que temos: 
um jovem ruivo e idiota: um roux e sot.'  verdade que pude fazer uma interpolao, mas essa tentativa de reduo no desfaz o chiste, o qual permanece relacionado 
 identidade fnica das palavras . Fica, pois, demonstrado que a condensao com formao de substituto no tem lugar na produo desse chiste.
         Que mais se pode dizer alm disso? Novas tentativas de reduo provam-me que o chiste persiste at que o nome 'Rousseau' seja substitudo por um outro. 
Se eu pusesse, por exemplo, 'Racine' em seu lugar, a crtica da dama, que perduraria to possvel quanto antes, perderia entretanto qualquer vestgio de chiste. 
Sei agora onde procurar a tcnica desse chiste, embora ainda hesite em formul-lo. Tentativamente: a tcnica desse chiste consiste no fato de que uma e mesma palavra 
- o nome - aparece usada de duas maneiras, uma vez como um todo, e outra vez segmentada em slabas separadas qual uma charada.
         Posso apresentar alguns exemplos, de tcnica idntica.
         Uma dama italiana dizia ter-se vingado de um comentrio sem tato do primeiro Napoleo com um chiste que utilizava a mesma tcnica de duplo uso de uma palavra. 
Em um baile da corte, ele lhe disse, apontando para o par e conterrneo dela: 'Tutti gli Italiani danzano si male'. Diante do que ela desferiu rpido contragolpe: 
'Non tutti, ma buona parte'. (Brill, 1911.)
         Certa vez, quando a Antigone [de Sfocles] foi encenada em Berlim, a crtica lamentou que faltasse  encenao o adequado carter de antigidade. O esprito 
berlinense transformou a crtica nas seguintes palavras: 'Antik? Oh, nee'. (Vischer, 1846-57, 1, 429 e Fischer, 1889 [75].)
         Um anlogo chiste de segmentao de palavras  corrente em crculos mdicos. Se se indaga a um jovem paciente se j teve alguma experincia masturbatria, 
a resposta seguramente h de ser: 'O na, nie!'.
         Em todos os trs exemplos, que nos so bastantes no que toca a essa espcie de chistes, observamos a mesma tcnica: em cada um, o mesmo nome  usado duas 
vezes, uma vez como um todo e a outra vez segmentado em slabas separadas, as quais tm, assim separadas, um outro sentido.
         
         O uso mltiplo da mesma palavra, uma vez como um todo e outra nas slabas em que se divide,  o primeiro caso em que deparamos com uma tcnica diferente 
da condensao. Mas a profuso de exemplos que encontramos deve convencer-nos, aps curta reflexo, que a nova tcnica descoberta dificilmente dever limitar-se 
a esse mtodo. H inmeros outros modos possveis - quantos,  praticamente impossvel diz-lo - pelos quais a mesma palavra ou o mesmo material verbal pode prestar-se 
a mltiplos usos em uma sentena. Todas essas possibilidades devero ser consideradas como mtodos tcnicos de elaborar chistes? Ao que parece, sim, e os exemplos 
que seguem provaro isso.
         Em primeiro lugar, pode-se tomar o mesmo material verbal e fazer simplesmente alguma alterao em seu arranjo (ordem das palavras). Quanto mais leve a alterao 
- maior a impresso de que algo diferente est sendo dito pelas mesmas palavras -, melhor ser o chiste tecnicamente.
         'O Sr. e a Sra. X vivem em grande estilo. Alguns pensam que o esposo ganhou muito dinheiro e tem, portanto, economizado um pouco (dando pouco) [sich etwas 
zurckgelegt]; outros, porm, pensam que a esposa tem tem dado um pouco [sich etwas zurckgelegt] ganhando portanto muito dinheiro.'
         Um chiste realmente diabolicamente engenhoso! E produzido com extraordinria economia de meios! 'Ganhou muito dinheiro - deu pouco [sich etwas zurckgelegt]; 
deu um pouco [sich etwas zurckgelegt] - ganhou muito dinheiro.'  meramente a inverso dessas duas expresses que distingue o que se diz do esposo daquilo que se 
insinua da esposa. A propsito, essa no , uma vez mais, toda a tcnica do chiste. (Ver em [1] e [2].)
         Um amplo campo de jogo descortina-se a essa tcnica de chistes se estendemos o 'uso mltiplo do mesmo material' de modo a cobrir os casos em que a palavra 
(ou palavras) em que reside o chiste ocorre, uma vez, inalterada, mas na segunda vez, com leve modificao. Eis por exemplo um outro dos chistes de Herr N.:
         Este ouvira de um cavalheiro, nascido judeu, um comentrio malvolo sobre o carter judeu. 'Herr Hofrat', disse ele, 'seu ante-semitismo me  bem conhecido; 
o que  novo para mim  seu anti-semitismo'.
         Apenas uma nica letra foi alterada, e essa modificao dificilmente seria notvel em uma fala descuidada. O exemplo recorda-nos um dos outros chistes de 
modificao de Herr N. (Ver em [1].), com a diferena de que aqui no h condensao; tudo o que se tem a dizer  dito no chiste: 'Sei que voc era antigamente um 
judeu; estou, pois, surpreso em ouvi-lo falar mal dos judeus'.
         Um admirvel exemplo de chiste de modificao  a bem conhecida proclamao 'Traduttore - Traditore!, A similaridade das duas palavras, que quase remonta 
 identidade, representa da maneira mais impressionante a necessidade que fora o tradutor a cometer crimes contra o original.
         A variedade de leves modificaes possveis em tais chistes  to grande que nenhum deles se assemelha exatamente a outro.
         Eis um chiste do qual se diz ter sido enunciado no decorrer de um exame de jurisprudncia. O candidato devia traduzir uma passagem no Corpus Juris: '"Labeo 
ait" ... eu caio ('fall'), diz ele!' 'Voc  reprovado ('fail'), digo eu', replica o examinador e o exame chega ao fim. Quem se engana tomando o nome do grande jurista 
por uma forma verbal, e ainda assim evocada erradamente, no merece mesmo nada melhor. Mas a tcnica do chiste consiste no fato de que quase as mesmas palavras que 
provaram a ignorncia do candidato foram utilizadas pelo examinador para pronunciar sua punio. O chiste , alm do mais, um exemplo de 'resposta pronta', tcnica 
que, como veremos (ver em [1]), no difere em muito da que estamos ilustrando aqui.
         As palavras so um material plstico, que se presta a todo tipo de coisas. H palavras que, usadas em certas conexes, perdem todo seu sentido original, 
mas o recuperam em outras conexes. Um chiste de Lichtenberg isola cuidadosamente as circunstncias em que as palavras esvaziadas so levadas a recuperar seu sentido 
pleno:
         '"Como  que voc anda?" - perguntou um cego a um coxo. "Como voc v" - respondeu o coxo ao cego.'
         
         H tambm palavras em alemo que, dependendo de estarem 'plenas' ou 'vazias', podem ser tomadas em sentido diferente e, de fato, em mais de um sentido. 
Pois, podem haver duas derivaes de uma mesma raiz, uma das quais seja uma palavra de sentido pleno e a outra uma slaba final ou sufixo esvaziado, sendo ambas 
pronunciadas exatamente da mesma maneira. A identidade fnica entre uma palavra plena e uma slaba esvaziada pode ser tambm puro acaso. Em ambos os casos, a tcnica 
do chiste se aproveita das condies prevalecentes no material lingstico.
         Um chiste, por exemplo, atribudo a Schleiermacher,  importante para ns por constituir exemplo quase puro desses mtodos tcnicos: 'Eifersucht [o cime] 
 uma Leidenschaft [paixo] que mit Eifer sucht [com avidez procura] o que Leiden shafft [causa dor]'.
         Esse  inegavelmente um chiste, mesmo que no particularmente efetivo. Aqui esto ausentes inmeros fatores, que na anlise de outros chistes podem enganar-nos 
at que os examinemos, cada um separadamente. Pouco importa o pensamento verbalmente expresso: a definio que se d do cime , em todo caso, inteiramente insatisfatria. 
No se encontra vestgio do 'sentido no nonsense', do 'significado escondido', ou de 'desconcerto e esclarecimento'. Nenhum esforo revelar um 'contraste de idias': 
pode-se encontrar com grande dificuldade um contraste entre as palavras e o que elas significam. No h qualquer sinal de abreviao: pelo contrrio, a verbalizao 
afigura-se prolixa. No entanto, temos ainda um chiste, e mesmo muito perfeito. Sua nica caracterstica  ao mesmo tempo aquela em cuja ausncia desaparece o chiste: 
o fato de que as mesmas palavras prestam-se a usos mltiplos. Podemos ento incluir esse chiste numa subclasse daqueles cujas palavras so usadas primeiro como um 
todo e depois segmentadas (e. g. Rousseau ou Antigone), ou na outra subclasse em que a multiplicidade  produzida pelo sentido pleno ou esvaziado dos constituintes 
verbais.  parte este, apenas um outro fator merece ser notado do ponto de vista da tcnica dos chistes. Encontramos aqui estabelecido um raro estado de coisas: 
ocorreu uma espcie de 'unificao', j que 'Eifersucht [cime]  definido atravs de seu prprio nome - portanto, atravs de si mesmo. Essa (unificao) constitui 
tambm, como veremos (ver em [1]), uma tcnica de chistes. Esses dois fatores devem ser em si mesmos suficientes para conferir a uma expresso o carter chistoso.
         Se penetramos ainda alm na variedade de formas de 'uso mltiplo' da mesma palavra, notamos repentinamente que temos diante de ns exemplos de 'duplo sentido' 
ou de 'jogo de palavras' - formas h muito conhecidas e reconhecidas como tcnica de chistes. Por que tivemos o trabalho de redescobrir aquilo que se poderia buscar 
no mais superficial ensaio sobre os chistes? Para comear, s podemos invocar em nossa justificao que, no obstante, apresentamos um outro aspecto de tal fenmeno 
da expresso lingstica. O que as autoridades supem definidor do carter dos chistes como uma espcie de 'jogo'  por ns classificado sob o ttulo de 'uso mltiplo'.
         Os outros casos de uso mltiplo passveis de ser reunidos sob o ttulo de 'duplo sentido' como um novo grupo, o terceiro, podem ser facilmente divididos 
em subclasses, que, efetivamente, no podem ser separadas entre si por distines mais essenciais do que as que possibilitam a derivao do terceiro grupo como um 
todo a partir do segundo. Constatamos:
         (a) Casos de duplo sentido de um nome de uma coisa por ele denotada. Por exemplo: 'Discharge thyself of our company, Pistol! (Descarrega-te (desaparece) 
de nossa companhia, Pistola!)' (Shakespeare [II Henry IV, ii, 4.]).
         'Mais Hof [namoro] que Freiung [casamento]', disse uma espirituosa vienense sobre inmeras moas bonitas que, admiradas durante anos, acabam por no encontrar 
um marido. 'Hof' e 'Freiung' so os nomes de duas praas vizinhas no centro de Viena.
         'O vil Macbeth no reina aqui em Hamburgo: o rei aqui  Banko [dinheiro bancrio].' (Heine, [Schnabelewopski, cap. 3].)
         Onde o nome no possa ser usado (deveramos talvez dizer 'mal-usado') sem alteraes, pode-se derivar dele um duplo sentido atravs das leves modificaes 
que j conhecemos:
         'Por que', perguntava-se em tempos passados, 'o Francs rejeitou Lohengrin?' 'Por causa de Elza (Elsass [Alsace]).'
         (b) Duplo sentido procedendo dos significados literal e metafrico de uma palavra. Eis uma das mais frteis fontes da tcnica dos chistes. Citarei apenas 
um exemplo:
         Um mdico, meu amigo, afamado por seus chistes, disse certa vez a Arthur Schnitzler, o dramaturgo: 'No me surpreendo que voc tenha se tornado um grande 
escritor. Afinal seu pai susteve um espelho para seus contemporneos'. O espelho sustido pelo pai do dramaturgo, o famoso Dr. Schnitzler, era o laringoscpio. Um 
famoso dito de Hamlet fala-nos que o objetivo de uma pea, tanto quanto do dramaturgo que a cria,  'to hold, as were, the mirror up to nature; to show virtue her 
own feature, scorn her own image, and the very age and body of the time his form and pressure (suster, como se fora, um espelho  natureza; mostrar  virtude sua 
feio prpria, ao escrnio sua prpria imagem, ao torso e  longa idade do tempo sua forma e premncia)'. [III, 2.]
         (c) Duplo sentido propriamente dito, ou jogo de palavras. Pode-se descrev-lo como o caso ideal de 'mltiplo uso'. Nenhuma violncia  feita s palavras: 
no se as segmenta em slabas separadas, no  preciso sujeit-las a modificaes, nem se tem que transferi-las da esfera a que pertencem (a dos nomes prprios, 
por exemplo) a alguma outra. Exatamente como figuram na sentena,  possvel, graas a certas circunstncias favorveis, faz-las expressar dois significados diferentes.
         Temos exemplos desse tipo disponveis em grande abundncia:
         Um dos primeiros atos de Napoleo III quando assumiu o poder foi apoderar-se da Casa de Orleans. Eis o excelente jogo de palavras, corrente quele tempo: 
'C'est le premier vol de l'aigle.' [Eis o primeiro vol da guia.] 'Vol' significa 'vo', mas tambm 'roubo'. (Citado por Fischer, 1889 [80].)
         Lus XV queria testar o esprito de um de seus cortesos, cujo talento lhe tinham mencionado. Na primeira oportunidade ordenou ao cavalheiro que fizesse 
um chiste do qual ele, o rei, devia ser o 'sujet [assunto]'. O corteso desferiu imediatamente a inteligente rplica: 'Le roi n'est pas sujet'. [O rei no  um assunto 
(ou 'sdito'). Tambm em Fischer, loc. cit.]
         Um mdico, afastando-se do leito de uma dama enferma, diz a seu marido: 'No gosto da aparncia dela'. 'Tambm no gosto e j h muito tempo', apressou-se 
o marido em concordar.
         O mdico referia-se obviamente ao estado da senhora mas expressou sua preocupao quanto  paciente em palavras tais que o marido podia interpret-las como 
confirmao de sua prpria averso marital.
         Heine falou da comdia satrica: 'Esta stira no seria to mordaz se o autor tivesse mais o que morder'. Este chiste  mais um exemplo de duplo sentido 
literal e metafrico que de um jogo de palavras propriamente dito. Mas qual a vantagem de estabelecer uma acurada distino aqui?
         Um outro bom exemplo de jogo de palavras  dado pelas autoridades (Heymans e Lipps) em uma forma que o faz ininteligvel. H no muito tempo encontrei tanto 
a verso correta como o contexto da anedota em uma coleo de chistes, de pouco uso a no ser por isso.
         'Um dia Saphir e Rothschild encontraram-se. Depois que tagarelaram um pouco, Saphir disse: "Oua, Rothschild, meus fundos baixaram e voc poderia me emprestar 
cem ducados". "Muito bem!", disse Rothschild, "isso no  problema para mim - com a nica condio que voc faa um chiste." "Isso no  problema para mim tambm", 
replicou Saphir. "Bom. Venha ento a meu escritrio amanh." Saphir apareceu pontualmente. "Ah!", disse Rothschild, quando o viu entrar, "Sie kommen um Ihre 100 
Dukaten [voc veio pelos seus 100 ducados]". "No", respondeu Saphir, "Sie kommen um Ihre 100 Dukaten [Voc vai perder seus 100 ducados], porque eu no sonharei 
em lhe pagar antes do Juzo Final.'"
         'O que vorstellen [representam ou apresentam] estas esttuas?', pergunta em Berlim um estrangeiro a um nativo berlinense, contemplando uma fileira de monumentos 
em praa pblica. 'Bem', foi a rplica, 'ou sua perna direita ou sua perna esquerda.'
         'No momento no posso lembrar-me dos nomes de todos os estudantes, e quanto aos professores, h alguns que nem nome tm ainda.' (Heine, Harzreise.)
         Estaremos talvez ganhando prtica na tarefa de diferenciao diagnstica se a este ponto inserirmos um outro bem conhecido chiste sobre professores. 'A 
distino entre Professores Ordinrios [ordentlich] e Extraordinrios [ausserordentlich]  que os ordinrios nada fazem de extraordinrio enquanto os extraordinrios 
nada fazem ordinariamente [ordentlich].' Temos, naturalmente, um jogo de palavras com os dois sentidos das palavras 'ordentlich' e 'ausserordentlich': de um lado 
temos os sentidos de 'dentro' e 'fora' da 'Ordo [o sistema]' e por outro lado, temos os sentidos de 'eficiente' e 'eminente'. A conformidade entre este chiste e 
outros que j examinamos lembra-nos que aqui o 'mltiplo uso'  muitssimo mais notvel que o 'duplo sentido'. Durante toda a enunciao nada escutamos alm de um 
'ordentlich' constantemente recorrente, algumas vezes nesta mesma forma, outras vezes modificado com um sentido negativo. (Ver em [1].) Alm do mais, comete-se novamente 
aqui a faanha de definir um conceito por meio de sua prpria verbalizao (cf. o exemplo de 'Eifersucht' [cime]',em [2]), ou de forma mais precisa, consegue-se 
definir (ainda que s negativamente) dois conceitos correlatos por meio de um outro, que produz engenhoso entrelaamento. Finalmente, deve-se tambm enfatizar aqui 
o aspecto da 'unificao' - a sonegao de uma conexo entre os elementos de uma assero mais ntima, do que se teria o direito de esperar, a partir de sua natureza.
         'O bedel Sch[fer] saudou-me tal como a um colega, desde que ele tambm  um escritor, e freqentemente menciona-me em seus escritos semestrais; fora isto, 
tem vrias vezes me citado, e se no me encontra em casa,  sempre delicado o bastante para escrever uma intimao (citation) a giz na porta de meu gabinete.' (Heine, 
Harzreise.)
         Daniel Spitzer (ver em [1]), em seu Wiener Spaziergnge, realiza uma lacnica descrio biogrfica, que  tambm um bom chiste do tipo crtica social que 
floresceu ao tempo da exploso especulatria [que sucedeu  guerra franco-prussiana]: 'Fronte de ferro - cofre de ferro - Coroa de ferro'. (Este ltimo acompanhava 
um ordenamento por nobreza.) Um surpreendente exemplo de 'unificao' - tudo como que feito de ferro! Os vrios sentidos, embora no nitidamente contrastantes, do 
epteto 'ferro' possibilitam esses mltiplos usos.
         Um outro exemplo de jogo de palavra pode facilitar a transio para novas subespcies da tcnica de duplo sentido. O colega mdico brincalho, j mencionado 
(ver em [1]), foi responsvel por esse chiste ao tempo do caso Dreyfus: 'Esta garota me lembra Dreyfus. O exrcito inteiro no acredita em sua inocncia'.
         A palavra 'inocncia', sobre cujo duplo sentido o chiste  construdo, tem, em um contexto, seu significado usual, cujo antnimo  'culpa' ou 'crime'; mas 
tem em outro contexto um significado sexual, cujo antnimo  'experincia sexual'. H um nmero muito grande de exemplos similares de duplo sentido nos quais o efeito 
do chiste depende, muito especialmente, do significado sexual. Para esse grupo, podemos reservar o nome de 'double entendre [Zweideutigkeit]'.
         Exemplo excelente de um double entendre desse tipo  o chiste de Spitzer, j registrado em [1]: 'Alguns pensam que o esposo ganhou muito dinheiro e tem, 
portanto, dado pouco [sich etwas zurckgelegt]; outros, porm, pensam que a esposa tem dado um pouco [sich etwas zurckgelegt] e tem, portanto, podido ganhar muito 
dinheiro'.
         Se comparamos este exemplo de duplo sentido acompanhado de double entendre com outros exemplos, torna-se evidente uma distino, que no  destituda de 
interesse do ponto de vista da tcnica. No chiste da 'inocncia', um sentido da palavra  exatamente to bvio quanto o outro; realmente seria difcil decidir qual 
dos sentidos (o sexual ou o no sexual)  o mais usual e familiar. Mas no ocorre o mesmo com o exemplo de Spitzer. O significado vulgar das palavras 'sich etwas 
zurckgelegt' , longe, o mais proeminente, enquanto seu significado sexual est como que encoberto e escondido, podendo mesmo escapar completamente a alguma pessoa 
desprevenida. Vamos tomar, por via de um contraste agudo, outro exemplo de duplo sentido, onde no se faz a menor tentativa de ocultar o significado sexual; por 
exemplo, a descrio por Heine do carter de uma dama complacente: 'Ela nada podia abschlagen  exceo de sua prpria gua'. Isto nos soa como uma obscenidade, 
dificilmente dando a impresso de um chiste. Esta peculiaridade, entretanto - o caso de um duplo sentido onde os dois significados no so bvios da mesma maneira 
- pode tambm ocorrer em chistes sem qualquer referncia sexual - seja porque um sentido  mais usual que outro, seja porque salta ao primeiro plano devido a uma 
conexo com as outras partes da sentena. (Cf., por exemplo, 'C'est le premier vol de l'aigle' (em [1]).) Proponho descrever todos estes casos como sendo 'duplo 
sentido com uma aluso'.
         
         J entramos em contato com um to grande nmero de diferentes tcnicas de chiste que temo corramos o risco de nos perdermos. Tentemos portanto sumari-las.
         I   - Condensao:
         (a) com formao de palavra composta;
         (b) com modificao.
         
         II  - Mltiplo uso do mesmo material:
         (c) como um todo e suas partes;
         (d) em ordem diferente;
         (e) com leve modificao;
         (f) com sentido pleno e sentido esvaziado.
         
         III - Duplo sentido:
         
         (g) significado como um nome e como uma coisa;
         (h) significados metafricos e literal;
         (i) duplo sentido propriamente dito (jogo de palavras);
         (j) double entendre;
         (k) duplo sentido com uma aluso.
         
         Essa variedade e esse nmero de tcnicas tm um efeito desconcertante. Pode fazer-nos sentir perturbados por nos devotarmos  considerao dos mtodos tcnicos 
dos chistes, tanto como pode despertar-nos a suspeita de que afinal exageramos a importncia destes como meio de descobrir a natureza essencial dos chistes. Se pelo 
menos essa conveniente suspeita no fosse contraditada pelo fato incontestvel de que o chiste invariavelmente desaparece to logo eliminamos de sua forma de expresso 
a operao destas tcnicas! Portanto, a despeito de tudo, somos levados a procurar a unidade nesta multiplicidade. Deve ser possvel reunir todas estas tcnicas 
sob um nico cabealho. Como j dissemos (ver em [1]), no  difcil fundir o segundo e o terceiro grupo. O duplo sentido (jogo de palavras) , na verdade, o nico 
caso ideal de uso mltiplo do mesmo material sendo deste (grupo), evidentemente, o conceito mais inclusivo. Os exemplos de segmentao, rearranjo do mesmo material 
e mltiplo uso com leve modificao (c, d e e) poderiam - embora com alguma dificuldade - ser fundidos sob o conceito de duplo sentido. Mas o que haver de comum 
entre a tcnica do primeiro grupo (condensao com substituio) e a dos outros dois grupos (mltiplo uso do mesmo material)?
         Algo muito simples e bvio deve ser pensado. O uso mltiplo do mesmo material , afinal, um caso especial de condensao; o jogo de palavras nada mais  
que uma condensao sem formao de substitutivo; portanto, a condensao permanece sendo a categoria mais ampla. Todas estas tcnicas so dominadas por uma tendncia 
 compresso, ou antes  economia. Tudo parece ser uma questo de economia. Nas palavras de Hamlet: 'Thrift, thrift, Horatio! (Economia, economia, Horcio!)'.
         Testemos em diferentes exemplos esse principio da economia. 'C'est le premier vol de l'aigle (ver em [1])'.  o primeiro vo da guia, mas  um vo assaltante. 
Afortunadamente para a existncia deste chiste, 'vol' significa no apenas 'vo' como 'roubo'. No se fez alguma condensao e economia? Muito certamente. Ressalva-se 
todo o segundo pensamento, descartado sem deixar substitutivo. O duplo sentido da palavra 'vol' torna tal substituio desnecessria; seria igualmente verdadeiro 
dizer que a palavra 'vol' contm o substitutivo do pensamento suprimido sem que se faa qualquer acrscimo ou mudana no primeiro. Essa a vantagem do duplo sentido.
         Um outro exemplo: 'Fronte de ferro - cofre de ferro - coroa de Ferro' (ver em [1]). Eis uma extraordinria economia comparada  expresso do mesmo pensamento 
onde no ocorre 'ferro': 'Com ajuda da necessria ousadia e falta de conscincia no  difcil amealhar grande fortuna, sendo um ttulo, naturalmente, uma recompensa 
adequada para tais servios'.
         A condensao, e portanto a economia, est inequivocamente presente nesses exemplos. Mas ela deve estar presente em todos os exemplos. Onde se esconde a 
economia em chistes tais como 'Rousseau - roux et sot' (ver em [1]) ou 'Antigone - Antik? oh nee' (ver em [2]), nos quais notamos primeiramente a ausncia de condensao, 
constituindo-se assim em nosso principal motivo para postular a tcnica do uso repetido do mesmo material?  verdade que no podemos constatar aqui a ocorrncia 
de condensao; mas se em vez disso usarmos o conceito mais inclusivo de economia, podemos consegui-lo sem dificuldade.  fcil indicar o que economizamos nos casos 
de Rousseau, Antigone etc. Economizamos a expresso de crtica ou a formalizao do juzo: ambos j existem no prprio nome. No exemplo de 'Leidenschaft - Eifersucht 
[paixo-cime]' (ver em [3]) economizamos o trabalho de construir laboriosamente uma definio: 'Eifersucht, Leidenschaft' - 'Eifer sucht' ['a avidez procura'], 
'Leiden shafft' ['o que causa dor']. Temos apenas que acrescentar as palavras de conexo e eis j pronta nossa definio. Ocorre o mesmo em todos os outros exemplos 
que foram analisados at aqui. Onde existe uma economia mnima, caso do jogo de palavras de Saphir, 'Sie kommen um Ihre 100 Dukaten' (ver em [4]), h pelo menos 
uma economia da necessidade de esquematizar nova verbalizao para a resposta. A verbalizao da pergunta  suficiente para a resposta. A economia no  muita, mas 
nela o chiste consiste. O uso mltiplo das mesmas palavras como pergunta e resposta  certamente uma 'economia'.  o caso da definio por Hamlet da rpida seqncia 
da morte de seu pai e do casamento de sua me:
         
         The funeral baked-meats [I, 2.]
         Did coldly furnish forth the marriage tables. [I, 2.]
         
         Mas antes que aceitemos a 'tendncia  economia' como a caracterstica mais geral da tcnica dos chistes e postulemos questes como a da sua procedncia, 
da sua significao, e do modo como emerge o prazer resultante do chiste, devemos encontrar lugar para uma dvida que se tem o direito de suscitar. Pode ser que 
toda tcnica do chiste mostre uma tendncia a economizar algo na expresso, mas essa relao no  reversvel. Nem toda economia expressiva, nem toda abreviao, 
 suficiente para dar conta do chiste. Chegamos a esse ponto uma vez, anteriormente, quando ainda espervamos encontrar em todo chiste o processo de condensao, 
levantando a justificvel objeo de que um comentrio lacnico no  necessariamente um chiste (ver em [1]). Deve haver portanto alguma espcie peculiar de abreviao 
e economia da qual dependa a caracterstica essencial do chiste; at que conheamos a natureza de tal peculiaridade, nossa descoberta do elemento comum nas tcnicas 
dos chistes aproxima-nos da soluo de nosso problema. Tenhamos, pois, a coragem de admitir que a economia feita pela tcnica do chiste no nos impressiona sensivelmente. 
Ela recorda-nos, talvez, o modo pelo qual certas donas de casa economizam, gastando tempo e dinheiro no trajeto a um mercado distante simplesmente porque, l, as 
verduras devem ser alguns vintns mais baratas. O que economiza o chiste atravs de sua tcnica? A concatenao de algumas novas palavras que teriam, em sua maior 
parte, emergido sem qualquer dificuldade. Em troca disso, toma-se o trabalho de procurar aquela palavra que cubra os dois pensamentos. Na verdade, e com freqncia, 
deve-se primeiro transformar um dos pensamentos em uma forma rara que fornecer fundamento para sua combinao com o segundo pensamento. No teria sido mais simples, 
mais fcil, e mesmo, mais econmico expressar os dois pensamentos como eles eventualmente ocorreriam, mesmo que isto no implicasse alguma forma de expresso comum 
(a ambos)? No ser essa economia em palavras enunciadas mais que compensada pelo dispndio de esforo intelectual? E quem  que economiza dessa forma? Quem lucra 
com isso?
         Podemos evitar provisoriamente essas dvidas se as transpusermos para alguma outra parte. J teremos realmente descoberto todos os tipos de tcnicas de 
chiste? Ser decerto mais prudente colher novos exemplos e submet-los  anlise.
         
         Na verdade no consideramos ainda um grande grupo de chistes - possivelmente o mais numeroso - influenciados, talvez, pelo desprezo com que so considerados. 
Constituem uma espcie geralmente conhecida como 'Kalauer' (calembourgs) ['trocadilhos'], que passa por ser a forma mais baixa de chiste verbal, possivelmente por 
ser a 'mais barata' - isto , elaborada com a menor dificuldade. De fato, so eles que fazem menores solicitaes  tcnica de expresso, tanto quanto os jogos de 
palavras propriamente ditos fazem as solicitaes mais altas. Enquanto nestes ltimos dois significados devem encontrar expresso na mesma e idntica palavra, dita 
usualmente uma s vez, para um trocadilho basta que dois significados se evoquem um ao outro atravs de alguma vaga similaridade, seja uma similaridade estrutural 
geral, ou uma assonncia rtmica, ou o compartilhamento de algumas letras iniciais etc. 'Inmeros exemplos, inadequadamente descritos como 'Klangwitze [chistes fnicos]', 
ocorrem no sermo do monge capuchinho em Wallensteins Lager:
         
         Kmmert sich mehr um den Krug als den Krieg,
         Wetzt lieber den Schnabel als den Sabel
         .............................................
         Frisst den Ochsen lieber als den Oxenstirn'
         .............................................
         Der Rheinstrom ist worden zu einen Peinstrom,
         Die Klster sind augesnommene Nester,
         Die Bistmer sind verwandelt in Wsttmer.
         ..............................................
         Und alle die gesegneten deutschen Lnder
         Sind verkehrt worden in Elender.
         
         Estes chistes apresentam a particular tendncia de modificar uma das vogais da palavra. Assim Hevesi (1888, 87) escreve sobre um poeta italiano contrrio 
ao Imprio e no obstante obrigado a louvar em hexmetros o Imperador alemo: j que ele no podia exterminar os Csaren [Csares], eliminou ao menos as Csuren 
[Cesuras].
         Entre a profuso de trocadilhos de que dispomos, valer talvez a pena considerar um exemplo realmente ruim, cometido por Heine. Apresentando-se por muito 
tempo como um 'prncipe indiano' a sua dama, descarta finalmente o disfarce e confessa: 'Madame, eu vos enganei... No estive em Kalkutta [Calcut] mais que o Kalkuttenbraten 
[frango assado  Calcut] que comi no almoo de ontem'. A falha neste chiste consiste claramente no fato de que as duas palavras semelhantes envolvidas no so apenas 
semelhantes mas idnticas. A ave que foi comida assada  chamada assim porque provm, ou supe-se que provm da mesma Calcut.
         Fischer (1889, 78) tem devotado muita ateno a essas formas de chiste e tenta distingui-las agudamente do 'jogo de palavras'. 'Um trocadilho  um mau jogo 
de palavras, j que joga no com a palavra mas com o seu som.' O jogo de palavras, entretanto, 'passa do som da palavra  prpria palavra'. [Ibid., 79.] Por outro 
lado, classifica chistes como 'famillionr', Antigone ('Antik? oh, nee') etc., entre os chistes fnicos. No vejo necessidade de acompanh-lo neste ponto. Em um 
jogo de palavras, segundo nossa concepo, a palavra  tambm apenas uma imagem fnica, a que se atribui um ou outro significado. Mas tambm aqui o uso lingstico 
no faz distines acuradas; e se os 'trocadilhos' so tratados com desprezo enquanto se reserva certo respeito ao 'jogo de palavras', tais julgamentos de valor 
parecem ser determinados por consideraes de outra ordem que no tcnica. Vale a pena prestar ateno ao tipo de chistes, qualificados como 'trocadilhos'. H pessoas 
que, quando esto bem dispostas podem responder a cada comentrio que lhes  dirigido com um trocadilho, e isso durante considerveis perodos de tempo. Um de meus 
amigos, um modelo de discrio quando esto envolvidas suas conquistas no campo da cincia, pode vangloriar-se dessa habilidade. Certa ocasio, mantinha o flego 
do pblico suspenso agindo assim, todos admirados ante sua capacidade de resistncia: 'Sim', disse ele, 'estou aqui mantendo-me auf der Ka-Lauer.' E quando, afinal, 
imploraram-lhe que parasse, ele concordou com a condio de que fosse designado 'Poeta Ka-laureatus'. Ambos os chistes so, entretanto, excelentes chistes de condensao 
e formao de palavras compostas. ('Estou aqui mantendo-me auf der Lauer [em guarda] para fazer Kalauer [trocadilhos].')
         De qualquer forma o que podemos concluir dessa disputa sobre a delimitao dos chistes e dos jogos de palavras  que os primeiros no podem ajudar-nos a 
descobrir uma tcnica de chiste completamente nova. Se, no caso dos trocadilhos, desistimos da reivindicao quanto ao uso do mesmo material em mais de um sentido, 
no obstante, a nfase recai na redescoberta do que  familiar, ou na correspondncia entre as duas palavras que compem o trocadilho; em conseqncia, os chistes 
meramente formam uma subespcie do grupo cujo ponto mximo  alcanado pelos jogos de palavras propriamente ditos.
         
         Mas existem realmente chistes cuja tcnica resiste a quase toda tentativa de conect-la com os grupos at aqui considerados.
         'Conta-se a estria de que, em certo fim de tarde, Heine conversava em um salon de Paris com o dramaturgo Souli, quando adentrou  sala um dos reis das 
finanas de Paris, comparados popularmente a Midas - e no apenas por sua riqueza. Logo foi cercado por uma multido que o tratava com a maior deferncia. "Veja!" 
observou Souli a Heine, "veja como o sculo XIX cultua o Bezerro de Ouro!" Com uma rpida mirada ao objeto de tanta admirao, Heine replicou, como que a bem da 
correo: "Oh, sim, mas ele j deve ser mais velho agora!"' (Fischer, 1889, 82-3.)
         Onde pesquisaremos a tcnica deste excelente chiste? Em um jogo de palavras, pensa Fischer: 'Assim, por exemplo, as palavras "Bezerro de Ouro" significam 
tanto Mammon como idolatria. Em um caso, o ouro  a principal coisa do universo e, em outro, a esttua do animal pode servir tambm para caracterizar, em termos 
no precisamente lisonjeiros, algum que tenha muito dinheiro e bem pouco senso'. (Loc. cit.) Se experimentamos remover a expresso 'Bezerro de Ouro', decerto nos 
livraremos ao mesmo tempo do chiste. Faamos Souli dizer: 'Veja! Olhe como o povo se amontoa em torno daquele sujeito estpido simplesmente porque ele  rico!'. 
No existe mais chiste algum e a resposta de Heine  tornada impossvel.
         Mas devemos lembrar-nos que o que nos interessa no  o smile de Souli - um possvel chiste - mas a rplica de Heine, um chiste certamente muito superior. 
Assim sendo, no temos o direito de tocar a expresso sobre o Bezerro de Ouro: permanece como pr-condio do mot de Heine e nossa reduo deve dirigir-se apenas 
 ltima. Se desdobramos as palavras 'Oh, mas ele j deve ser mais velho' s podemos substitu-las por algo que seja aproximadamente 'Oh, ele no  mais um bezerro 
e sim um boi adulto!'. Portanto, a pr-condio do chiste de Heine  no interpretar a expresso 'Bezerro de Ouro' metaforicamente mas em um sentido pessoal, devendo 
aplicar-se ao prprio homem rico. Pode ser mesmo que este duplo sentido j estivesse presente no comentrio de Souli.
         Mas, um momento! Parece agora que a reduo efetuada no destri sua essncia intocada. Na nova situao Souli diz: 'Veja! Veja como o sculo XIX reverencia 
o Bezerro de Ouro!' e Heine replica: 'Oh, ele no  mais um bezerro; j  um boi!'. Esta verso reduzida  ainda um chiste. Entretanto, nenhuma outra reduo do 
mot de Heine  possvel.
          pena que este requintado exemplo envolva condies tcnicas to complicadas. No podemos chegar a seu esclarecimento. Vamos deix-la portanto e buscar 
outro caso no qual aparentemente detectamos um parentesco interno com o precedente.
          um dos 'chistes de banho' que tratam da averso dos judeus da Galcia aos banhos. No insistimos, pois, sobre a patente de nobreza de nossos exemplos. 
No investigamos a origem destes mas sua eficincia - serem capazes de nos fazer rir e de merecer nosso interesse terico. Ambos estes requisitos so satisfeitos 
precisamente por chistes de judeus.
         'Dois judeus se encontram nas vizinhanas de um balnerio. "Voc tomou um banho?", pergunta um deles. "O qu?", retruca o outro, "h um faltando?".'
         Se algum ri de um chiste com toda sinceridade, no est precisamente na melhor condio de investigar sua tcnica. Da que algumas dificuldades assomam 
quanto ao progresso dessas anlises. 'Eis um equvoco cmico', inclinamo-nos a dizer. Sim, mas qual ser a tcnica do chiste? Nitidamente, consiste no uso da palavra 
'tomar' em dois sentidos. Para um dos interlocutores, 'tomar'  o neutro auxiliar; para o outro, trata-se do verbo com seu sentido esvaziado. Lidamos portanto com 
o caso do uso 'pleno' e 'esvaziado' da mesma palavra (Grupo II (f) em [1]. Se substitumos a expresso 'tomou um banho' pela equivalente, mais simples, 'banhou-se', 
o chiste se esvai. A rplica deixa de adequar-se. Dessa forma, o chiste uma vez mais conecta-se  forma da expresso 'tomou um banho'.
         Tudo isso  verdade. Entretanto parece que tambm nesse caso a reduo aplicou-se ao ponto errado. O chiste no assenta na pergunta mas na resposta - ou 
seja, na segunda pergunta: 'O qu? h um faltando?'. No se pode negar a esta resposta carter chistoso, seja por alguma extenso ou modificao, sem interferncia 
com o sentido. Temos tambm impresso que na rplica do segundo judeu o fato de que nem lhe ocorre a idia de ter-se banhado  mais importante que a compreenso 
errnea da palavra 'tomar'. Aqui, uma vez mais, no podemos encarar nosso caminho claramente, pelo que devemos procurar um terceiro exemplo.
         Trata-se outra vez de um chiste de judeu; no caso, entretanto, apenas o contexto  judeu, pertencendo o fundo  humanidade em geral. Sem dvida este exemplo 
tem tambm suas complicaes indesejveis, mas afortunadamente no so as mesmas que nos tm impedido de ver com clareza.
         'Um indivduo empobrecido tomou emprestado 25 florins de um prspero conhecido seu, aps muitas declaraes sobre suas necessitadas circunstncias. Exatamente 
neste mesmo dia seu benfeitor reencontrou-o em um restaurante, com um prato de maionese de salmo  frente. O benfeitor repreendeu-o: "Como? Voc me toma dinheiro 
emprestado e vem comer maionese de salmo em um restaurante?  nisso que voc usou o meu dinheiro?". "No lhe compreendo", retrucou o objeto deste ataque; "se no 
tenho dinheiro, no posso comer maionese de salmo; se o tenho, no devo comer maionese de salmo. Bem, quando vou ento comer maionese de salmo?"'
         No se pode encontrar aqui qualquer vestgio de duplo sentido. Nem  na repetio de 'maionese de salmo', que consiste a tcnica do chiste, pois no se 
trata de 'uso mltiplo' do mesmo material, mas de uma repetio real de material idntico, requerida pelo contedo da anedota. Podemos ficar algum tempo bastante 
desconcertados por essa anlise; podemos pensar mesmo em buscar refgio no recurso de negar que a anedota - embora nos faa rir - possua o carter de chiste.
         Que outro ponto mereceria comentrio na rplica da pessoa empobrecida? O fato de que tal rplica tenha muito marcadamente a forma de um argumento lgico. 
Mas reconhecemos isso, bastante injustificadamente, desde que a rplica  de fato ilgica. O homem defende-se de ter gasto em uma guloseima o dinheiro que lhe fora 
emprestado, indagando, com aparente fundamento, quando haveria de comer salmo. Mas esta no  a resposta correta. Seu benfeitor no lhe reprova tratar-se  base 
de salmo precisamente no dia em que tomara dinheiro emprestado; antes, recorda-lhe que em tais circunstncias ele no teria nenhum direito a tais guloseimas. O 
arruinado bon vivant desconsidera o nico significado possvel da reprovao e responde-a com outra questo, como se tivera entendido erradamente o reproche.
         Consistir a tcnica do chiste precisamente no desviamento da rplica em relao ao sentido da reprovao? Se tanto, uma modificao similar do ponto de 
vista, uma mutao similar da nfase psquica, ser talvez rastrevel nos dois primeiros exemplos, que sentimos muito aparentados a esse.
         Eis que tal sugesto constitui fcil xito, de fato revelando a tcnica daqueles exemplos. Souli indicou a Heine que a sociedade, no sculo XIX, reverenciava 
o 'Bezerro de Ouro' exatamente como os judeus no deserto. Uma apropriada resposta de Heine teria sido 'assim  a natureza humana; milhares de anos no a mudaram', 
ou qualquer coisa semelhante exprimindo aquiescncia. Mas Heine desvia sua resposta do pensamento a ele sugerido e no lhe d afinal qualquer resposta. Utiliza o 
duplo sentido no qual  possvel bifurcar-se a expresso 'Bezerro de Ouro', tomando um caminho lateral. Apoiando-se em um componente da expresso, 'Bezerro', replica 
como se a nfase do comentrio de Souli a estivesse posta: 'Oh, ele no  mais um bezerro'... etc.
         
         O desvio no chiste do banho  ainda mais evidente. Esse exemplo requer uma apresentao grfica:
         O primeiro judeu pergunta: 'Voc tomou um banho?'. A nfase recai no elemento banho.
         O segundo replica como se a pergunta tivesse sido: 'Voc tomou um banho?'.
         A mudana de nfase s  possibilitada pela verbalizao 'tomou um banho'. Se tivesse ocorrido 'voc se banhou?' no seria possvel nenhum deslocamento. 
A resposta no chistosa teria sido: 'Banhar-me? O que voc quer dizer? No sei o que  isso'. Mas a tcnica do chiste consiste no deslocamento da nfase de 'banho' 
para 'tomou'.
         Voltemos  'maionese de salmo', j que esse  nosso exemplo mais direto. O que  novo nele merece nossa ateno a partir de vrias perspectivas. Primeiramente 
devo denominar a tcnica trazida  luz. Proponho descrev-la como 'deslocamento', j que sua essncia consiste no desvio do curso do pensamento, no deslocamento 
da nfase psquica para outro tpico que no o da abertura. Nossa prxima tarefa ser investigar a relao entre a tcnica de deslocamento e a forma de expresso 
do chiste. Nosso exemplo ('maionese de salmo') mostra-nos que um chiste de deslocamento independe, em alto grau, da expresso verbal. Depende aqui no das palavras 
mas do curso do pensamento. Nenhuma substituio de palavras possibilitar sua destruio na medida em que seja conservado o sentido da resposta. A reduo s  
possvel se modificarmos o curso do pensamento e fizermos o gourmet replicar diretamente  reprovao, por ele evitada na verso representada no chiste. A verso 
reduzida poderia ento exprimir-se: 'No posso me recusar a ter preferncias (gastronmicas) e pouco me importa de onde procede o dinheiro que as custeia. Eis a 
explicao do motivo porque estou comendo maionese de salmo no prprio dia em que lhe tomei dinheiro emprestado!'. Mas a no teramos mais um chiste, e sim um 
bvio cinismo.
         
          instrutivo comparar esse chiste com outro, que lhe  muito prximo em sentido:
         'Um homem, dado  bebida, ganhava a vida em uma cidade pequena dando aulas particulares. Seu vcio tornou-se entretanto gradualmente conhecido e devido 
a isso perdeu a maioria de seus alunos. Um amigo foi encarregado da tarefa de insistir em que ele se emendasse. "Olhe, voc podia ser o melhor professor da cidade 
se desistisse de beber. Portanto, desista!" "Quem voc pensa que ?" foi a resposta indignada. "Dou aulas particulares para poder beber. Se desisto de beber, a troco 
de que vou dar aulas particulares?"'
         Este chiste apresenta a mesma aparncia lgica que verificamos na 'maionese de salmo', mas no se trata de um chiste de deslocamento. A rplica no  direta. 
O cinismo, ocultado no primeiro chiste,  abertamente admitido neste ltimo: 'Beber  a coisa mais importante para mim'. De fato, a tcnica desse chiste  extremamente 
limitada e no pode explicar sua efetividade. Consiste simplesmente em rearranjar o mesmo material ou, mais precisamente, em reverter a relao de meios e fins entre 
beber e dar aulas particulares. To logo minha reduo deixa de enfatizar esse fator em sua forma de expresso, o chiste desaparece; por exemplo: 'Que sugesto descabida! 
O que importa para mim  beber, no dar aulas particulares. Afinal dar estas aulas  apenas um meio de permitir-me continuar a beber'. Assim, o chiste de fato depende 
de sua forma de expresso.
         No chiste do banho, a dependncia do chiste em relao  verbalizao ('Voc tomou um banho?')  inequvoca, e qualquer modificao dela envolve o desaparecimento 
do chiste. Neste caso, a tcnica  mais complicada - uma combinao de duplo sentido (subespcie f) e deslocamento. A verbalizao da pergunta admite um duplo sentido 
e o chiste  produzido pela resposta que descarta o sentido pretendido pelo questionante, capturando o significado subsidirio. Estamos, em conseqncia, em condies 
de encontrar uma reduo que permita a persistncia do duplo sentido da verbalizao, destruindo ainda o chiste; podemos consegui-lo simplesmente desfazendo o deslocamento:
         'Voc tomou um banho?' - 'O que acha que tomei? Um banho? O que  isso?' No temos mais um chiste mas uma exagerao maliciosa ou faceta.
         Um papel precisamente semelhante  desempenhado pelo duplo sentido no chiste de Heine sobre o 'Bezerro de Ouro'. Permite  resposta desviar-se do curso 
de pensamento sugerido (desvio efetuado no chiste da 'maionese de salmo' sem qualquer ajuda da verbalizao). Na reduo o comentrio de Souli e a rplica de Heine 
talvez ficassem assim: 'O modo pelo qual o povo se amontoa ao redor do homem simplesmente porque ele  rico lembra vividamente a adorao do Bezerro de Ouro'. E 
Heine: 'O que me parece pior no  que o reverenciem dessa maneira por causa de sua riqueza. O que voc diz no enfatiza bastante o fato de que, por sua riqueza, 
lhe perdoam a estupidez'. Desta forma o duplo sentido seria retido e o chiste destrudo.
         A este ponto devemos estar preparados para enfrentar uma objeo que afirma que estas sutis distines esto procurando separar coisas que pertencem ao 
mesmo todo. Ser que todo duplo sentido possibilita um deslocamento desviando o curso do pensamento de um sentido para outro? Estaremos, pois, preparados para permitir 
a postulao do 'duplo sentido' e do 'deslocamento' como representantes de dois tipos de tcnicas de chiste bastante diferentes?  bem verdade que existe a relao 
entre duplo sentido e deslocamento, mas tal fato no afeta em nada nossa distino das diferentes tcnicas de chiste. No caso do duplo sentido o chiste no contm 
mais que uma palavra capaz de mltipla interpretao, permitindo ao ouvinte encontrar a transio de um pensamento a outro - transio que, um tanto foradamente, 
se faz equivalente ao deslocamento. No caso de um chiste de deslocamento, porm, o prprio chiste contm um curso de pensamento no qual se cumpre um deslocamento 
dessa espcie. Aqui o deslocamento faz parte do trabalho de criao do chiste, no integra o trabalho de compreenso dele. Se a distino no est clara para ns, 
dispomos de meio infalvel de torn-la tangvel em nossas tentativas de reduo. Mas h aqui um mrito que no negaremos a essa objeo. Desperta nossa ateno para 
a necessidade de no confundir os processos psquicos envolvidos na construo do chiste (a 'elaborao do chiste' com os processos psquicos envolvidos em sua interpretao 
(a elaborao da compreenso). No momento nossa investigao restringe-se  primeira.
         
         H outros exemplos da tcnica de deslocamento? No  fcil encontr-los. Um exemplo direto  fornecido pelo seguinte chiste que, alm do mais, no  caracterizado 
pela lgica aparente que tanto sobrecarregou a interpretao de nosso caso modelo:
         'Um palafreneiro recomendava a um fregus um cavalo de sela. "Se voc partir nesse cavalo s quatro da manh, estar em Pressburg s seis e meia." - "E 
o que eu vou fazer em Pressburg s seis e meia da manh?"'
         Aqui o deslocamento salta aos olhos. O tratador obviamente menciona essa hora matinal de chegada  cidade provinciana simplesmente para demonstrar, para 
exemplificao, a capacidade do cavalo. O fregus deixa de lado a capacidade do animal, que ele no questiona, para deter-se nos dados do exemplo escolhido. A reduo 
deste chiste, conseqentemente,  fcil de ser feita.
         Maiores dificuldades so apresentadas por um outro exemplo cuja tcnica  mais obscura, podendo ser entretanto qualificada como duplo sentido combinado 
com deslocamento. O chiste descreve a prevaricao de um 'Schadchen' (um agente matrimonial judeu), pertencendo assim a um grupo que referiremos com freqncia.
         'O Schadchen assegurara ao pretendente que o pai da moa no mais era vivo. Depois dos esponsais, soube-se que o pai estava ainda vivo, e cumpria, no momento, 
sentena em uma priso. O pretendente protestou junto ao Schadchen que replicou: "Bem, mas o que foi que eu lhe disse? Voc decerto no chama a isso viver?"'
         O duplo sentido funda-se na palavra 'viver' e o deslocamento consiste na mudana do significado da palavra operada pelo Schadchen, do sentido usual, oposto 
a 'morrer', ao sentido que toma na expresso 'isso no  viver'. Ao faz-lo, explica retrospectivamente seu primeiro pronunciamento como investido de que duplo sentido, 
embora tal mltiplo significado fosse neste caso particular decididamente remoto. Portanto a tcnica se assemelharia  do chiste do 'Bezerro de Ouro' e  do chiste 
de banho. Mas h aqui um outro fato a ser considerado, cuja proeminncia interfere em nossa compreenso da tcnica.  possvel descrev-lo como um chiste 'caracterizante': 
procura ilustrar, atravs de um exemplo, a caracterstica mistura de imprudncia mentirosa e de presteza de rplica nos agentes matrimoniais. Consideremos que este 
seja o arcabouo externo, a fachada, do chiste; seu sentido - o que vale dizer, seu propsito -  algo diferente. Devemos assim adiar uma tentativa de reduzi-lo.
         
         Aps esses complicados exemplos, de anlise mais difcil, ser com satisfao que uma vez mais voltaremos a um exemplo, reconhecvel como amostra perfeitamente 
direta e transparente de um chiste de deslocamento:
         'Um Schnorrer [mendigo judeu] aproximou-se de um opulento baro, suplicando que lhe provesse o sustento em sua viagem a Ostend. Os mdicos, dizia ele, tinham-lhe 
recomendado banho de mar para restaurar a sade. "Muito bem", falou o homem rico, "vou dar-lhe alguma coisa para isso. Mas ser necessrio que voc v precisamente 
a Ostend, a mais cara de todas as estaes de banhos de mar?" - "Herr Baro", foi a ressentida resposta, "no considero nada caro demais quando se trata de minha 
sade".' Sem dvida este  um ponto de vista correto, exceto quando emitido por um pedinte. A resposta  dada como partindo de um homem rico. O Schnorrer comporta-se 
como se fosse seu o dinheiro que despenderia em prol de sua sade, com se o dinheiro e a sade fossem objeto da preocupao da mesma pessoa.
         
         
         Partamos novamente desse exemplo altamente instrutivo, a 'maionese de salmo'. Apresenta-nos, tambm, uma fachada, onde se exibe impressionante alarde de 
raciocnio lgico; descobrimos ao analis-lo que a lgica foi utilizada para ocultar um ato de raciocnio falho - a saber, um deslocamento do curso do pensamento. 
Esse fato pode servir para lembrar-nos, ainda que o faa apenas por via de uma conexo contrastante, que outros chistes, por diferentes que sejam, exibem indisfaravelmente 
algum nonsense ou estupidez. Devemos estar curiosos por conhecer o que seja a tcnica de tais chistes.
         Comearei pelo exemplo mais poderoso de todo o grupo, igualmente seu exemplo mais simples. De novo, um chiste de judeu:
         'Itzig fora declarado apto para prestar servio na artilharia. Ele era nitidamente um rapaz inteligente, embora intratvel e desinteressado no servio. 
Um dos oficiais seus superiores, que lhe votava alguma simpatia, tomou-o de parte e disse-lhe: "Itzig, voc no nos serve para nada. Vou lhe dar um conselho: compre 
um canho e faa sua independncia!"'
         Este conselho, que pode suscitar um riso franco,  um bvio nonsense. Nem canhes esto  venda, nem  possvel a um indivduo, comprando-os, fazer sua 
independncia enquanto unidade militar - em outros termos, estabelecendo-se por conta prpria. Entretanto,  impossvel duvidar, sequer por um momento, de que o 
conselho seja mero nonsense, mas um nonsense chistoso e um chiste excelente. Como se converte um nonsense em um chiste?
         No  preciso refletir muito. Podemos inferir dos comentrios das autoridades, acima indicados na introduo (ver em [1]), que h sentido por trs dessa 
chistosa falta de sentido, e tal sentido  responsvel pela converso do nonsense em chiste.  fcil descobrir o sentido em nosso exemplo. O oficial que d este 
absurdo ao artilheiro Itzig est se fazendo de estpido apenas para demonstrar a Itzig a estupidez de seu prprio comportamento. Est imitando Itzig: 'Vou dar-lhe 
um conselho to estpido quanto voc'. Ele interessa-se pela estupidez de Itzig e a esclarece para este, tomando-a como plataforma de uma sugesto adequada aos desejos 
de Itzig: se Itzig possusse um canho e cumprisse suas obrigaes militares por conta prpria, quo til lhe seria sua inteligncia e ambio! Em que bom estado 
ele manteria o canho e quanto no havia de se familiarizar com seu mecanismo ao ponto de competir com os demais possuidores de canhes!
         Interromperei a anlise deste exemplo para ressaltar o mesmo sentido no nonsense no caso de um chiste absurdo, mais curto e mais simples, embora menos bvio:
         'No nascer seria a melhor coisa para os mortais.' 'Entretanto', acrescenta um comentrio filosfico em Fliegende Bltter, 'isto  coisa que apenas acontece 
a uma em cada cem mil pessoas.'
         Este acrscimo moderno  antiga considerao  um evidente nonsense tornado ainda mais imbecil pelo ostensivamente cauteloso 'apenas'. Mas o acrscimo conectado 
 assero original, enquanto limitao indisputavelmente correta, torna-se adequado para nos abrir os olhos quanto ao fato de que essa sbia sentena, solenemente 
acolhida, no  muito superior a um desatino. Quem no tenha nascido no , em absoluto, um mortal, no havendo para este nada de bom nem de melhor. Assim o nonsense 
no chiste serve para revelar e demonstrar um outro nonsense, tal como no exemplo do artilheiro Itzig.
         Posso aqui acrescentar um terceiro exemplo que, pelo seu contedo, dificilmente mereceria a extensa descrio que requer, mas que exemplifica novamente, 
e com especial clareza, o uso de nonsense em um chiste para revelar algum outro nonsense.
         'Um homem obrigado a seguir viagem confiou sua filha a um amigo, solicitando-lhe que velasse pela virtude dela durante sua ausncia. Meses mais tarde ele 
retornou e encontrou-a grvida. Como se esperava, ele reprovou amargamente seu amigo que lhe parecia incapaz de explicar tal desgraa. "Bem", perguntou finalmente 
o pai, "onde ela dormia?" - "No quarto, com meu filho." - "Mas como voc pde deixar que ela dormisse no mesmo quarto que seu filho, se eu tanto lhe implorei que 
a protegesse?" - "Afinal de contas havia um biombo entre eles. A cama de sua filha ficava de um lado, a de meu filho no outro e o biombo ficava no meio." - "E suponha 
que ele contornasse o biombo?" - " verdade", retrucou o outro pensativamente, "isso bem pode ter acontecido".'
         Obtemos com a maior facilidade a reduo desse chiste cujas qualidades por outro lado pouco o recomendariam. Seria obviamente algo como: 'Voc no tem o 
direito de censurar-me. Como pde ser to estpido a ponto de deixar sua filha em uma casa onde ela seria obrigada a viver na constante companhia de um jovem? Como 
seria possvel a um estranho responder pela virtude de uma moa em tais circunstncias?'. Desse modo a aparente estupidez do amigo apenas reflete a estupidez do 
pai. A reduo descarta a estupidez do chiste e, ao mesmo tempo, o prprio chiste. O elemento 'estupidez' por si s no fica eliminado:  possvel reencontr-lo 
em outro ponto do contexto da sentena aps a reduo desta ao significado original.
         Podemos tentar agora uma reduo do chiste sobre o canho. O oficial devia ter dito: 'Itzig, sei que voc  um negociante inteligente, mas asseguro-lhe 
que ser muito estpido de sua parte no entender que  impossvel comportar-se no exrcito como no mundo dos negcios, onde cada um age por si e contra os outros. 
Na vida militar a subordinao e a cooperao so a regra'.
         A tcnica dos chistes absurdos que temos at aqui considerado consiste portanto em apresentar algo que  estpido e absurdo, seu sentido baseando-se na 
revelao e na demonstrao de algo mais que seja estpido e absurdo.
         Ser o uso do absurdo na tcnica do chiste sempre de igual importncia? Eis aqui um exemplo que fornece resposta afirmativa:
         'Quando, em certa ocasio, Phocion foi aplaudido aps fazer um discurso, virou-se para seus amigos e perguntou-lhes: "Qual foi a besteira que eu falei agora?".'
         A pergunta soa absurda, mas captamos imediatamente seu sentido: 'Que terei dito eu que agradou tanto a estes estpidos? Devo sentir-me envergonhado por 
seu aplauso. Se o que eu disse agradou aos estpidos, no ter sido algo muito sensato'.
         
         Outros exemplos podem, entretanto, mostrar-nos que o absurdo  usado com grande freqncia na tcnica do chiste sem servir ao objetivo de demonstrar algum 
outro nonsense:
         'Um afamado professor universitrio, que tinha o hbito de temperar sua inspida matria com numerosos chistes, recebia congratulaes pelo nascimento de 
seu filho mais novo, ocorrido quando o mestre j alcanava uma idade avanada. "Bem", respondeu ele a seus congratuladores, " notvel o que podem fazer as mos 
humanas".' - Esta resposta parece essencialmente absurda e deslocada. Os filhos, so considerados como bno de Deus, em absoluto contraste com o trabalho manual 
dos homens. Mas logo ocorreu-nos que afinal a resposta tinha um sentido, e mesmo, bastante obsceno. No se cogita aqui de que o feliz pai estivesse se fazendo de 
estpido para demonstrar que algum ou alguma outra coisa fosse estpida. A resposta aparentemente sem sentido causa-nos uma impresso surpreendente, desconcertante, 
como diriam as autoridades. J vimos (ver em [1]) que elas atribuem todo o efeito de um chiste como esse a uma alternncia entre 'desconcerto e esclarecimento'. 
Mais tarde (ver em [2]) voltaremos a considerar este ponto; por enquanto nos contentaremos em acentuar o fato de que a tcnica desse chiste consiste em apresentar 
algo desconcertante e absurdo.
         Um chiste de Lichtenberg ocupa um lugar especial entre estes chistes 'estpidos':
         'Confessa-se maravilhado em que os gatos tenham dois furos recortados em seu couro precisamente no lugar dos olhos'. Assombrar-se com algo que nada mais 
 que uma assero de identidade s pode ser uma grande estupidez (Ver em [1].). Recorda-nos uma das exclamaes de Michelet emitida com pretenso de seriedade, 
e que parece ser, segundo consigo lembrar-me: 'Quo maravilhosamente a Natureza arranjou tudo de modo que uma criana, to logo chegada ao mundo, encontre uma me 
pronta para cuidar dela!'. O pronunciamento de Michelet  uma estupidez real, mas o de Lichtenberg  um chiste que utiliza a estupidez com algum propsito sob ela 
ocultado. Mas qual? Por enquanto, devemos admitir que nenhuma resposta seja dada.
         
         
         J sabemos agora pela considerao de dois grupos de exemplos que a elaborao do chiste utiliza desvios em relao ao pensamento normal - o deslocamento 
e o absurdo - como mtodos tcnicos de produzir uma forma chistosa de expresso.  sem dvida justificvel esperarmos encontrar outros tipos de raciocnio falho 
utilizados similarmente. De fato,  possvel apresentar alguns exemplos da espcie:
         'Um cavalheiro entrou em uma confeitaria e pediu um bolo; logo o devolveu, solicitando em seu lugar um clice de licor. Bebeu e preparou-se para sair sem 
t-lo pago. O proprietrio o deteve. "O que voc quer?", perguntou o fregus. - "Voc no pagou o licor." - "Mas eu lhe dei o bolo em troca." - "Tambm no pagou 
por este." - "Mas eu no o comi."'
         Essa anedota apresenta tambm uma lgica aparente que, j o sabemos,  uma fachada adequada para semelhante raciocnio falho. O erro evidentemente consiste 
na conexo inexistente, construda pelo astucioso fregus, entre a devoluo do bolo e a tomada do licor em seu lugar. O episdio fragmenta-se em dois processos 
mutuamente independentes do ponto de vista do vendedor e mutuamente substituveis exclusivamente do ponto de vista da inteno do fregus. Primeiramente ele toma 
o bolo e o devolve, nada devendo portanto por este; depois, toma o licor, e por este  necessrio pagar.  possvel dizer que o fregus tenha utilizado a expresso 
'em troca' com duplo sentido. Seria, entretanto, mais correto dizer que atravs do duplo sentido construiu ele uma conexo que no , em realidade, vlida.
         Eis a oportunidade de fazer um reconhecimento que no  destitudo de importncia. Ocupamo-nos da investigao da tcnica dos chistes, como demonstrado 
por esses exemplos, e portanto devemos estar seguros de que os exemplos escolhidos constituem chistes genunos.  verdade, entretanto, que para vrios casos estamos 
em dvida quanto a dever denomin-los chistes ou no. No possumos nenhum critrio disponvel at que nossa prpria investigao nos fornea um. O uso lingstico 
no merece confiana: ele prprio necessita que sua justificao seja examinada. Para chegar a uma deciso no podemos basear-nos em nada que no seja um certo 'sentimento', 
que podemos interpretar como significando que a deciso feita por nosso juzo concorda com um critrio particular, ainda no acessvel a nosso conhecimento. No caso 
do ltimo exemplo devemos sentir-nos em dvida quanto a represent-lo como um chiste, ou talvez como um chiste 'sofstico', ou simplesmente, um sofisma. A verdade 
 que no sabemos ainda em que reside a caracterstica essencial do chiste.
         Por outro lado, o exemplo que segue, exibindo um tipo de raciocnio falho que podemos chamar de complementar ao primeiro caso,  indiscutivelmente um chiste. 
Mais uma vez,  a histria de um agente matrimonial:
         'O Schadchen defendia a jovem, por ele proposta, dos protestos do rapaz. "No gosto da sogra", dizia o ltimo. "Ela  uma pessoa desagradvel e estpida." 
- "Mas afinal voc no vai se casar com a sogra. Quem voc quer  a filha dela." "Sim, mas esta no  jovem, nem se pode dizer que seja bonita." - "No importa. 
Se ela no  jovem nem bonita, ser por tudo isso mais fiel a voc." - "Nem tem muito dinheiro." - "Quem est falando sobre dinheiro? Voc vai casar-se com o dinheiro? 
Afinal,  uma esposa que voc quer." - "Mas, ela tem tambm uma corcunda nas costas.'' - "Bom, e o que voc quer mais? No ter ela o direito de ter um nico defeito?"'
         O que estava realmente em questo era a falta de beleza e juventude da moa, seu dote minguado e sua me desagradvel, acrescido ao fato de ser a moa vtima 
de uma sria deformidade - condies bem pouco convidativas para se contratar um casamento. O agente matrimonial foi capaz, quando se apontava cada um desses defeitos, 
de indicar como seria possvel chegar a um acordo com ele. Pde ento reivindicar que a indesculpvel corcunda nas costas era o nico defeito a que qualquer indivduo 
teria direito. Uma vez mais, a lgica aparente caracteriza o sofisma e presume ocultar a falha do raciocnio. A moa claramente tinha defeitos - vrios que poderiam 
ser desconsiderados e um impossvel de descartar: ela era incasvel. O agente comporta-se como se cada defeito, em separado, fosse eliminado por suas desculpas, 
enquanto na verdade cada um deles deixava para trs uma certa cota de depreciao a somar com a que se lhe juntava em seguida. Insistia pois em tratar isoladamente 
cada defeito e recusava-se a adicion-los num total.
         A mesma omisso  o ncleo de outro sofisma a propsito do qual muito se tem rido embora se deva duvidar da correo quanto a cham-lo chiste:
         'A. tomou emprestado de B. um caldeiro de cobre e aps devolv-lo foi acionado por B. j que o caldeiro tinha agora um grande furo que o tornava inutilizvel. 
Sua defesa foi: "Em primeiro lugar nunca tomei emprestado um caldeiro de B.; e em segundo lugar o caldeiro j estava furado quando eu o peguei emprestado; e em 
terceiro lugar, devolvi-lhe o caldeiro intacto".' Cada uma destas defesas  vlida por si mas reunidas excluem-se mutuamente. A. estava tratando isoladamente o 
que se devia considerar um conjunto tal como o agente matrimonial faz com os defeitos da moa. Podia-se dizer: 'A. usou um "e" onde era possvel um "ou".'
         Encontramos outro sofisma na seguinte estria de um agente matrimonial:
         'O noivo presuntivo lamentava-se que a noiva tivesse uma perna mais curta que a outra e mancasse. O Schadchen contraps-lhe: "Voc est errado. Suponha 
que despose uma mulher com pernas direitas, saudveis. Que ganha voc com isso? No h de ter nunca a certeza de que alguma dia ela no caia, quebre a perna e torne-se 
coxa pelo resto da vida. Imagine o sofrimento, o transtorno, a conta do mdico! Mas se voc aceita esta noiva, isso no pode acontecer-lhe. Eis aqui um fait accompli."'
         A aparncia lgica neste caso  muito tnue e ningum se prontificar a preferir uma 'desgraa j cumprida' a sua mera possibilidade. O defeito nesse processo 
dedutivo pode ser facilmente demonstrado em um outro exemplo - uma histria que no posso inteiramente despir de seu dialeto:
         'No templo de Cracvia o Grande Rabino N. estava sentado a orar com seus discpulos. Repentinamente emite um grito e exclama em resposta s ansiosas perguntas 
de seus discpulos: "Nesse exato momento morreu o Grande Rabino L. em Lemberg". A comunidade vestiu luto pelo morto. Poucos dias depois indagou-se de pessoas recm-chegadas 
de Lemberg como morrera o Rabino, o que lhe sucedera de mau; tais pessoas nada souberam informar, pois tinham-no deixado no melhor de sua sade. Afinal ficou-se 
sabendo com certeza que o Rabino L. de Lemberg no morrera no momento em que o Rabino N. telepaticamente assistira a sua morte, j que estava ainda vivo. Um forasteiro 
aproveitou a oportunidade para zombar de um dos discpulos do Rabino de Cracvia a respeito da ocorrncia: "Seu Rabino cobriu-se de ridculo em ter visto a morte 
do Rabino L. de Lemberg. O homem est vivo at hoje". "Isso no faz diferena", replicou o discpulo. "Seja o que for que voc diga, foi magnfico o Kck da Cracvia 
a Lemberg."'
         O raciocnio falho, comum aos dois ltimos exemplos,  admitido aqui sem disfarces. Exalta-se indevidamente o valor da fantasia em comparao  realidade; 
faz-se praticamente equivaler uma possibilidade a um evento real. A viso a distncia, superando a extenso de campo que separa Cracvia de Lemberg, teria sido impressionante 
faanha teleptica se fora de fato verdadeira. Mas o discpulo no se preocupa com isso. Afinal bem poderia o Rabino de Lemberg ter morrido no momento em que o Rabino 
de Cracvia anunciava sua morte; e o discpulo desloca ento a nfase da condio necessria para a admirao que a faanha mereceria para uma incondicional admirao 
da faanha. 'In magnis rebus voluisse sat est' expressa um ponto de vista semelhante. Tal como nesse exemplo a realidade  desconsiderada em favor da possibilidade; 
no primeiro caso o agente matrimonial sugere ao noivo presuntivo que a possibilidade de uma mulher tornar-se coxa por via de um acidente deve ser considerada como 
algo bem mais importante que a questo de ela ser efetivamente coxa ou no.
         Esse grupo de raciocnios 'sofsticos' defeituosos  semelhante a outro interessante grupo em que se pode descrever como 'automtico' o raciocnio falho. 
Talvez no seja mais que por um capricho do acaso que todos os exemplos a serem apresentados desse novo grupo sejam, uma vez mais, histrias de Schadchen:
         'Um Schadchen devendo propor a algum uma noiva levou consigo um auxiliar, que confirmasse tudo o que ele tinha a dizer. "Ela  esbelta como um pinheiro", 
disse o Schadchen. - "Como um pinheiro", repetia o eco. - "E tem uns olhos que merecem ser vistos!" - "Que olhos ela tem!", confirmava o eco. - "Melhor educada que 
qualquer outra!" - "Que educao!" - "Bem,  verdade que h uma coisa", admitiu o agente, "ela tem uma pequena corcunda." - "E que corcunda!" o eco confirmou uma 
vez mais.' Outras histrias so anlogas, mas tm mais sentido.
         'O noivo, ficando muito desagradavelmente surpreso quando a noiva lhe foi apresentada, chamou o agente a um canto e cochichou-lhe suas censuras: "Por que 
voc me trouxe aqui?" perguntou recriminadoramente. "Ela  feia e velha, vesga, tem maus dentes e olhos remelentos..." - "No precisa abaixar a voz", interrompeu 
o agente, "ela  surda tambm".'
         'O noivo fazia sua primeira visita  casa da noiva em companhia do agente, e enquanto aguardava no salon que a famlia aparecesse, o agente chamou sua ateno 
para um armrio com portas de vidro onde se exibia o mais fino conjunto de peas de prata. "Veja! Olhe l! Por estas coisas voc v como so ricos." - "Mas", perguntou 
o desconfiado jovem, "no seria possvel que estas coisas finas tivessem sido reunidas apenas para esta ocasio - que elas fosse tomadas emprestadas para dar impresso 
de riqueza?" - "Que idia!", protestou o agente. "Quem voc acha que emprestaria alguma coisa a essa gente?"'
         
         Nos trs casos a mesma coisa ocorre. Uma pessoa que estava reagindo sempre da mesma forma, vrias vezes em sucesso, repete tal modo de expresso na ocasio 
seguinte, quando este  inadequado e prejudicial s suas prprias intenes. Negligencia adaptar-se s necessidades da situao, cedendo ao automatismo do hbito. 
Assim, na primeira histria o auxiliar esquece-se de que acompanhava o agente a fim de prejudicar o noivo presuntivo em favor da noiva proposta. E j que no incio 
ele cumprira sua tarefa sublinhando as qualidades da noiva pela repetio, a cada vez, do que dela se dizia, prosseguindo por enfatizar sua corcunda, timidamente 
admitida e que ele devia ter minimizado. O agente na segunda histria est to fascinado pela enumerao dos defeitos e enfermidades da noiva que completa a lista 
com dados de seu prprio conhecimento, embora este no fosse seu negcio ou seu propsito. Na terceira histria (o agente) deixa-se levar a tal ponto pela nsia 
de convencer o jovem da riqueza da famlia que, a fim de demonstrar um argumento confirmatrio, traz  baila algo que fatalmente lanar por terra todos os seus 
esforos. Em cada caso a ao automtica triunfa sobre a conveniente mudana de pensamento e de expresso.
         Isto  fcil de ver, mas h de ter um efeito perturbador quando notarmos que as trs histrias tm tanto direito a serem chamadas 'cmicas' quanto ns de 
apresent-las como chistes. O desvelamento de automatismo psquico  uma das tcnicas do cmico, exatamente como qualquer tipo de revelao ou autotraio. Repentinamente 
somos defrontados a esse ponto pelo problema da relao dos chistes com o cmico, relao que pretendamos evitar. (Ver a introduo em [1].) So tais histrias 
apenas 'cmicas' e no 'chistosas'? Estar a comicidade aqui operando os mesmos mtodos dos chistes? E, novamente, o que constitui a caracterstica peculiar dos 
chistes?
         Devemos manter em vista que a tcnica deste ltimo grupo de chistes que examinamos consiste simplesmente na revelao do 'raciocnio falho'. Mas somos obrigados 
a admitir que seu exame levou-nos muito mais  obscuridade que  compreenso. Contudo no abandonemos nossa esperana de que um conhecimento mais completo das tcnicas 
dos chistes nos levar a um resultado que possa servir de ponto de partida a ulteriores descobertas.
         
         Os prximos exemplos de chistes, pelos quais prosseguiremos nossa investigao, oferecem uma tarefa mais fcil. Sua tcnica, em particular, evoca-nos o 
que j conhecemos.
         
         Primeiro, eis um chiste de Lichtenberg:
         'Janeiro  o ms em que fazemos votos de felicidade a nossos entes queridos e os meses restantes so aqueles em que estes votos no se cumprem.'
         Desde que chistes como estes so caracterizados por sua sutileza antes que por sua fora e operam por mtodos discretos, comearemos por apresentar inmeros 
deles, de modo a intensificar seu efeito:
         'A vida humana divide-se em duas metades. Na primeira desejamos a vinda da segunda, na segunda desejamos a volta da primeira.'
         'A experincia consiste em experimentar o que no desejvamos experimentar.'
         (Os dois ltimos so de Fischer, 1889[69-60].)
         Esses exemplos lembram um grupo de que j tratamos, caracterizado pelo 'uso mltiplo do mesmo material' (ver em [1]). Em particular o ltimo exemplo levantar 
a questo de por que no o inclumos naquele grupo em vez de introduzi-lo aqui em uma nova conexo. A 'experincia'  novamente descrita em seus prprios termos 
como o fora anteriormente o 'cime' (ver em [2]). No me inclino por discutir muito seriamente essa classificao. Mas no que concerne aos outros dois exemplos (que 
so de natureza semelhante) penso que um outro fator  mais notvel e mais importante que o mltiplo uso das mesmas palavras, que nesse caso nada tem a haver com 
o duplo sentido. Gostaria particularmente de acentuar que aqui se agenciam novas e inesperadas entidades, inter-relaes de idias, definies efetuadas mutuamente 
ou por referncia a um terceiro elemento comum. Gostaria de denominar 'unificao' a esse processo que  claramente anlogo  condensao pela compresso nas mesmas 
palavras. Assim as duas metades da vida so descritas atravs de uma relao mutual que se descobre existir entre elas: na primeira desejamos que a segunda viesse 
e na segunda desejamos que a primeira voltasse. Falando mais precisamente, duas relaes mutuais muito semelhantes foram escolhidas para a representao. A similaridade 
de representao corresponde  similaridade das palavras que pode de fato recordar-nos o uso mltiplo do mesmo material: 'desejar... vinda' - 'desejar...volta'. 
No chiste de Lichtenberg o ms de janeiro e os meses que com este contrastam so caracterizados por uma (outra vez, modificada) relao com um terceiro elemento: 
os votos de felicidade, recebidos no primeiro ms e no cumpridos nos demais. Eis, muito ntida, a distino em relao ao uso mltiplo do mesmo material (que faz 
aproximar o duplo sentido).
         
         Eis um claro exemplo de chiste de unificao que dispensa qualquer explicao:
         
         'O poeta francs J. B. Rousseau escreveu uma "Ode  Posteridade". Voltaire era de opinio que o poema no merecia sobreviver e chistosamente comentou: "Esse 
poema no alcanar seu destinatrio."' (Fischer, 1889 [123].)
         Esse ltimo exemplo chama ateno para o fato de que  essencialmente a unificao que jaz ao fundo dos chistes que podem ser descritos como 'respostas 
prontas'. (ver em [1]) Pois a rplica consiste em que a defesa, ao se encontrar com a agresso, 'vira a mesa sobre algum' ou 'paga a algum com a mesma moeda' - 
ou seja, consiste em estabelecer uma inesperada unidade entre ataque e contra-ataque. Por exemplo:
         'Um estalajadeiro tinha um panarcio no dedo e um padeiro lhe disse: "Voc deve t-lo arranjado pondo o dedo em sua cerveja". "No foi por isso", retrucou 
o estalajadeiro, " que meti um pedao do seu po debaixo de minha unha."' (De berhorst (1900, 2).)
         'Um Serenssimo estava dando uma volta por suas provncias e notou na multido um homem, extraordinariamente semelhante  sua prpria nobre pessoa. Acenou, 
convocando-o, e perguntou-lhe: "Sua me esteve alguma vez a servio do Palcio?" - "No, Alteza", foi a rplica, "mas meu pai esteve."'
         'Em um de seus passeios a cavalo aconteceu ao Duque Charles de Wrttemberg encontrar um tintureiro, ocupado em seu ofcio. Apontando o cavalo cinza que 
estava cavalgando, o Duque bradou: "Pode tingi-lo de azul?" "Naturalmente, Alteza", foi a resposta, "se ele suportar a fervura." [Fischer, 1889, 107.]
         Nesse excelente tu quoque, em que a uma questo sem sentido oferece-se uma resposta igualmente impossvel, h um outro fator tcnico operando, o qual estaria 
ausente se o tintureiro tivesse respondido: "No, Alteza. Tenho medo de que o cavalo no suporte a fervura."
         A unificao tem um outro instrumento tcnico, de muito especial interesse, a seu dispor: a conexo pela conjuno 'e'. As coisas concatenadas dessa forma 
ficam de fato conectadas: no podemos deixar de entend-lo assim. Por exemplo, quando Heine comenta sobre a cidade de Gttingen em Harzreise: 'Falando de um modo 
geral, os habitantes de Gttingen dividem-se em estudantes, professores, filisteus e asnos', tomamos este grupamento exatamente no sentido que Heine enfatiza em 
um acrscimo  sentena: 'E essas quatro classes esto divididas de forma absolutamente ntida'. Ou, ainda, quando [ibid.] ele menciona a escola em que tivera de 
suportar 'tanto Latim, expulses e Geografia', esta srie, tornada ainda mais transparente pela posio das 'expulses' entre os nomes das duas matrias, fala-nos 
que a inequvoca posio dos alunos com relao s expulses se estenderia decerto ao Latim e  Geografia tambm.
         Entre os exemplos dados por Lipps [1898, 177] de 'enumerao chistosa' ('coordenao') encontramos as seguintes linhas citadas como intimamente aparentadas 
aos 'estudantes, professores, filisteus e asnos' de Heine:
         
         Mit einer Gabel und mit Mh'
         Zog ihn die Mutter aus der Brh.
         
         [Com um forcado e muito esforo
         Sua me pescou-o do ensopado.]
         
          como se (comenta Lipps) o Mh [esforo, dificuldade] fosse um instrumento como o forcado. Sentimos, entretanto, que essas linhas, embora cmodas, esto 
bem longe de constituir um chiste, enquanto a lista de Heine, sem nenhuma dvida, o . Podemos talvez evocar mais tarde esses exemplos, quando no necessitarmos 
evitar o problema da relao entre a comicidade e os chistes. [Ver em [1].]
         
         
         [10]
         
         Observamos no exemplo do Duque e do tintureiro que tal chiste por unificao no persistiria se o tintureiro replicasse: 'No, tenho medo de que o cavalo 
no suporte a fervura'. Mas sua resposta real foi: 'Sim, Alteza, se ele suportar a fervura'. A substituio do realmente apropriado no por um sim constitui um novo 
mtodo tcnico do chiste, cujo emprego perseguiremos em alguns outros exemplos.
         Um chiste similar ao que acabamos de mencionar (tambm citado por Fischer [1889, 107-8])  mais simples:
         'Frederico, o Grande, ouviu falar de um pregador na Silsia que tinha a reputao de entrar em contato com os espritos. Mandou buscar o homem e recebeu-o 
com a pergunta "Voc pode conjurar os espritos?". A resposta foi: "s ordens de sua Majestade. Mas eles no vm''.'  muito bvio aqui que o mtodo usado no chiste 
consiste simplesmente em substituir a nica resposta possvel 'no' pelo seu contrrio. A fim de efetivar a substituio, foi necessrio acrescentar um 'mas' ao 
'sim', de modo que 'sim' e 'mas' equivalessem semanticamente a 'no'.
         A 'representao pelo oposto', como a chamaremos, serve de vrios modos  elaborao do chiste. Nos dois exemplos seguintes aparece quase em estado puro:
         'Esta dama se assemelha em muitos aspectos  Venus de Milo: ela , tambm, extraordinariamente velha, no tem dentes e h manchas brancas na superfcie 
amarelada de seu corpo.' (Heine)
         Eis uma representao da fealdade atravs da semelhana com o que h de mais belo.  verdade que tais semelhanas s podem existir em qualidades que so 
expressas ou por termos com duplo sentido ou por detalhes desimportantes. A ltima caracterstica aplica-se a nosso segundo exemplo - 'O Grande Esprito', de Lichtenberg:
         'Une em si mesmo as caractersticas dos maiores entre os homens. Tem o porte da cabea torto como Alexandre: teve sempre que usar um toupet como Csar; 
podia beber caf como Leibnitz; e desde que adequadamente instalado em sua poltrona, esquecia-se de comer e de beber como Newton, como este tendo que ser despertado; 
usava sua peruca como Dr. Johnson, e sempre deixava um dos botes da braguilha desabotoado como Cervantes.'
         De uma viagem  Irlanda, Von Falki (1897, 271) trouxe um exemplo particularmente bom de representao pelo oposto, exemplo em que no se faz o mnimo uso 
de palavras com duplo sentido. A cena ocorre numa exposio de museu de cera (que poderia ser o de Madame Tussaud). Um guia conduzia um grupo de visitantes jovens 
e velhos de figura a figura, enquanto as explicava: 'Este  o Duque de Wellington e seu cavalo', explicou ele. Em conseqncia, perguntou uma jovem dama: 'Qual  
o Duque de Wellington e qual  seu cavalo?' 'Qual queira, minha bela jovem', foi a resposta. 'Voc paga a entrada e faz sua escolha.'
         Seria esta a reduo do chiste irlands: 'Que falta de vergonha as coisas que estas pessoas ousam oferecer ao pblico nestes museus de cera! No se pode 
distinguir entre o cavalo e seu cavaleiro. (Exagero faceto.) E  para isso que se paga!' Essa exclamao indignada  ento dramatizada, baseada em uma pequena ocorrncia. 
No lugar do pblico em geral aparece s uma dama e  particularizada a figura do cavaleiro: necessariamente o Duque de Wellington, extremamente popular na Irlanda. 
Mas o descaramento do proprietrio ou guia, que extrai dinheiro dos bolso do povo nada oferecendo em troca,  representado pelo contrrio - por um discurso em que 
ele se jacta de ser consciencioso homem de negcios, que no tem outra coisa mais prxima ao corao que o respeito pelos direitos que o povo adquire pagando. Podemos 
agora verificar que a tcnica desse chiste no  bastante simples. Na medida em que capacita ao trapaceiro insistir na sua honestidade, classifica-se como um caso 
de representao pelo oposto; mas na medida em que (o trapaceiro) o faz numa ocasio em que deles se requer coisa muito diferente - replicando com a respeitabilidade 
do negcio quando se espera a identificao das figuras - temos um caso de deslocamento. A tcnica do chiste consiste em uma combinao dos dois mtodos.
         Nenhuma grande distncia separa esse exemplo de um pequeno grupo que poderia ser descrito com constitudo de chistes de 'exagerao'. Nestes o 'sim' que 
ocorreria na reduo  substitudo por um 'no' que tem, entretanto, a despeito de seu contedo, a fora de um 'sim' intensificado, e vice-versa. Uma negativa  
um substitutivo para uma confirmao exagerada. Assim, por exemplo, no epigrama de Lessing.
         
         Die gute Galathee! Man sagt, sie shwrz' ihr Haar;
         Da doch ihr haar schon shwarz, als sie es kaufte, war.
         
         [A boa Galatia tinge seus cabelos de negro, at os pensamentos;
         E seus cabelos j eram negros quando os comprou.]
         
         Ou a maliciosa defesa da filosofia por Lichtenberg:
         'H mais coisas no cu e na terra do que sonha vossa filosofia', disse o Prncipe Hamlet desdenhosamente. Lichtenberg sabia que essa condenao no era 
ainda severa o bastante pois no levava em conta todas as objees que podiam ser feitas  filosofia. Acrescentou, portanto, o que faltava: 'Mas h tambm na filosofia 
muita coisa que no  encontrada no cu ou na terra'. Seu acrscimo de fato enfatiza a maneira pela qual a filosofia nos compensa da insuficincia que Hamlet censura. 
Tal compensao, porm, implica uma outra reprovao ainda maior.
         Dois chistes de judeus, embora de um tipo vulgar, so ainda mais claros, j que se libertam de todo vestgio de deslocamento:
         'Dois judeus discutiam sobre banhos. "Tomo banho anualmente", disse um deles, "quer precise ou no".'
         
          bvio que essa insistncia jactante na prpria limpeza serve apenas para convencer-nos de sua sujeira.
         'Um judeu notou restos de comida na barba de um outro. "Posso dizer-lhe o que comeu ontem." - "Diga-me, ento," - "Pois bem, lentinhas." - "Errado: isso 
foi anteontem!"'
         
         O exemplo seguinte  um excelente chiste de 'exagerao', em que se pode facilmente reconstruir a representao pelo oposto:
         'O rei condescendeu em visitar uma clnica cirrgica, l deparando com um professor que executava a amputao de uma perna. Acompanhou todos os estgios 
com altas expresses de sua real satisfao: "Bravo! bravo! meu caro professor!" Quando a operao terminou, o professor aproximou-se dele e perguntou-lhe com uma 
profunda reverncia: "Vossa Majestade ordena que eu ampute tambm a outra perna?"
         'Os pensamentos do professor durante o aplauso real no poderiam decerto manifestar-se inalterados: ''Parece que estou amputando a perna desse pobre sujeito 
por ordem do rei e para sua real satisfao. Afinal existem realmente outras razes para a operao''. Vai ento ao rei e lhe diz: "No tenho outra razo para executar 
uma operao que as ordens de Vossa Majestade. O aplauso com que Vossa Majestade me honrou fez-me to feliz que s aguardo as ordens de Vossa Majestade para amputar 
tambm o membro so".' Dessa forma ele consegue fazer-se entendido dizendo o contrrio daquilo que pensa mas deve guardar para si mesmo. Tal oposto  uma exagerao 
que no pode ser acreditada.
         Como mostram esses exemplos, a representao pelo oposto  um instrumento da tcnica do chiste usado freqentemente e operando com grande poder. Mas h 
algo que no devemos desconsiderar: essa tcnica no  um absoluto peculiar aos chistes. Quando Marco Antnio, aps um longo discurso no Frum onde reverteu a atitude 
emocional de sua audincia em relao ao cadver de Csar, finalmente exclamou uma vez mais:
         'For Brutus is an honourable man...'
         ele sabe que o povo agora lhe devolver aos gritos o sentido verdadeiro de suas palavras: 
         'They were traitors: honourable men!'
         Ou quando Simplicissimus descreve uma coleo de incrveis exemplos de brutalidade e cinismo com expresses como 'homens de sentimento', isso  tambm uma 
representao pelo oposto. A nica tcnica que caracteriza a ironia  a representao pelo contrrio. Alm do mais j lemos e ouvimos falar sobre 'chiste irnicos'. 
No se pode portanto duvidar mais de que a tcnica sozinha seja insuficiente para caracterizar a natureza dos chistes. Mas por outro lado, perdura como fato incontrovertido 
que, uma vez desfeita a tcnica do chiste, este desaparece. Por enquanto podemos achar difcil pensar como podem ser reconciliados os dois pontos fixos a que chegamos 
na explicao dos chistes.
         
         Se a representao pelo contrrio  um dos mtodos tcnicos dos chistes, podemos esperar que os chistes possam tambm fazer uso de seu oposto - a representao 
por alguma coisa similar ou afim. A ulterior evoluo de nossa pesquisa de fato h de mostrar que esta  a tcnica de um novo e particularmente compreensivo grupo 
de chistes conceptuais. Descreveremos a peculiaridade desta tcnica muito mais apropriadamente se dissermos, ao invs da representao por alguma coisa 'afim', representao 
por algo 'correlacionado' ou 'conexo'. Efetivamente comearemos por esta ltima caracterstica e a descreveremos imediatamente com um exemplo.
         Eis uma anedota americana: 'Dois homens de negcio, no particularmente escrupulosos, conseguiram, por meio de uma srie de empreendimentos de alto risco, 
acumular grande fortuna, e faziam agora srios esforos para introduzir-se na boa sociedade. Um mtodo, que impressionou-os como de provvel xito, era ter seus 
retratos pintados pelo mais famoso e mais bem pago artista da cidade, cujos quadros gozavam de alta reputao. As preciosas telas foram exibidas pela primeira vez 
em um grande sarau e os prprios anfitries conduziram o crtico e connaisseur de arte mais influente at a parede de onde pendiam os retratos lado a lado, para 
desfrutar o seu admirado julgamento a respeito. Aps estudar os trabalhos por longos instantes, o crtico balanou a cabea como se algo estivesse faltando e indicando 
o espao vazio entre os quadros, perguntou calmamente: "Mas onde est o Salvador?"' (I.e. "No vejo o quadro do Salvador.")
         O sentido deste comentrio  claro. Tratamos ainda uma vez da questo de representar alguma coisa, que no pode ser expressa diretamente. Como ocorre esta 
'representao indireta'? Partindo da representao dada no chiste, reconstitumos o trajeto inverso atravs de uma srie de associaes e inferncias facilmente 
estabelecveis.
         Podemos adivinhar pela pergunta 'Onde est o Salvador? Onde a imagem do Salvador?' que a viso dos dois quadros recordou ao locutor uma viso semelhante, 
familiar a ele, que inclua entretanto um elemento ora omitido - a figura do Salvador entre duas outras. H apenas uma situao desse tipo: Cristo crucificado entre 
dois ladres. Os chiste confere proeminncia ao elemento omitido. A similaridade apia-se em informao transmitida pelo chiste, as figuras pendentes  direita e 
 esquerda do Salvador; pode consistir apenas no fato de que os quadros pendentes das paredes so imagens de ladres. O que o crtico pretendia dizer era simplesmente: 
'Vocs so um par de patifes', ou, em maior detalhe: 'Que me importam os retratos de vocs? O certo  que so uma dupla de patifes!' E efetivamente ele termina dizendo 
isso atravs de algumas associaes e inferncias, utilizando o mtodo que denominamos de 'aluso'.
         Recordemos imediatamente em que parte j deparamos com a aluso - numa conexo, a saber, com o duplo sentido. Quando dois sentidos so expressos por uma 
palavra, sendo um deles to mais freqente e usual que desde logo nos ocorre, enquanto o segundo  mais fora de mo e portanto, menos proeminente, propomos referir 
isto como 'duplo sentido com uma aluso' (ver em [1]). Em todo um conjunto de exemplos j examinados constatamos que sua tcnica no era simples e percebemos agora 
que o fator de complicao deles era a aluso. (Veja-se, por exemplo, o chiste de inverso sobre a esposa que tem(se) dado um pouco, ganhando portanto muito dinheiro 
(ver em [2]) ou o chiste absurdo do homem que respondia s congratulaes pelo nascimento de seu filho mais novo dizendo que era notvel o que podiam realizar as 
mos humanas (ver em [3]).)
         Na anedota americana defrontamos uma aluso sem duplo sentido e verificamos que sua caracterstica  a substituio por algo que lhe seja vinculado em uma 
conexo conceptual. Pode-se facilmente imaginar que haja mais de um tipo de conexo utilizvel. A fim de que no nos percamos em um labirinto de detalhes, discutiremos 
apenas as variaes mais marcantes, e ainda assim, apenas alguns exemplos destas.
         A conexo usada para a substituio pode ser simplesmente uma semelhana fnica, de modo que essa subespcie torna-se anloga ao grupo que entre os chistes 
verbais compreende os trocadilhos. Aqui, no entanto, no se trata de semelhana fnica entre duas palavras, mas entre sentenas inteiras, expresses caractersticas, 
e assim por diante.
         Por exemplo, Lichtenberg cunhou esse dito: 'Novos balnerios tratam bem' que evoca-nos imediatamente o provrbio: 'Novas vassouras varrem limpo'. As duas 
expresses partilham a palavra inicial e algumas mediais tanto quanto a estrutura inteira da sentena. No h dvida de que a sentena tenha se introduzido na cabea 
do espirituoso filsofo como imitao do provrbio familiar. Assim o dito de Lichtenberg torna-se uma aluso ao provrbio. Atravs dessa aluso alguma coisa  sugerida 
mas no dita diretamente - a saber, que algo mais  responsvel pelos efeitos produzidos pelos balnerios alm das caractersticas invariantes das fontes termais.
         Uma soluo tcnica semelhante aplica-se a outra pilhria (Scherz] ou chiste [Witz] de Lichtenberg: 'Uma garota de mais ou menos doze Moden [modas]!' Isto 
soa semelhante a 'doze Monden [luas]', i.e., meses, o que pode ter sido originalmente um deslize na grafia dessa ltima expresso, permissvel em poesia. Mas tambm 
faz sentido usar a mutante moda ao invs da mutante lua como um mtodo de determinao da idade de uma mulher.
         A conexo pode tambm consistir na similaridade, exceto por uma 'leve modificao'. Assim, essa tcnica  tambm paralela a uma tcnica verbal (ver em [1]). 
Ambas as espcies de chiste produzem quase a mesma impresso, mas podem ser mais bem distinguidas uma das outras se consideramos os processos de elaborao do chiste.
         Eis um exemplo de chiste verbal ou trocadilho desse tipo: Maria Wilt era uma grande cantora, famosa pela extenso no apenas de sua voz. Sofreu a humilhao 
de que o ttulo de uma pea teatral, baseada em famosa novela de Jlio Verne, aludisse a sua deselegante figura: 'A volta a Wilt em oitenta dias'.
         Ou: 'Uma rainha por braa', modificao do conhecido dito de Shakespeare 'Um rei por polegada'. A aluso a esta citao foi feita com referncia a uma aristocrtica 
e altssima dama. No se poderia objetar seriamente a que algum desejasse incluir tal chiste entre as 'condensaes acompanhadas de modificaes como substitutivo'. 
(Ver 'tte--tte', em [1].)
         Um amigo disse de algum de olhar muito arrogante mas obstinado na perseguio de seus objetivos: 'Er hat ein Ideal vor dem Kopf [Tem um ideal  frente 
de sua cabea]'. A expresso corrente : 'Ein Brett vor dem Kopf haben' [literalmente, 'ter uma parede  frente da cabea' - 'ser obtuso']. A modificao alude a 
essa expresso e utiliza seu sentido para seus prprios propsitos, Aqui, uma vez mais, podia-se descrever a tcnica como 'condensao com modificao'.
          quase impossvel distinguir entre 'aluso atravs de modificao' e 'condensao com substituio', se a modificao se limita a uma mudana de letras. 
Por exemplo: 'Dichteritis'.Esta aluso ao flagelo da 'Diphteritis [difteria]' representa como um outro mal pblico a autoridade (quando exercida) por pessoas desqualificadas.
         As partculas negativas fazem aluses muito ntidas  custa de leves alteraes:
         'Spinoza, meu companheiro de descrena, diz Heine. 'Ns, por desgraa de Deus, trabalhadores, servos, negros, viles...'  como Lichtenberg faz iniciar-se 
um manifesto (que ele no desenvolve alm) desses infortunados - os quais decerto no tm mais direito a esse ttulo que os reis e prncipes na sua forma no-modificada.
         Finalmente, uma outra espcie de aluso consiste na 'omisso', comparvel  condensao sem formao de substitutivo. Na verdade omite-se algo em toda aluso, 
ou seja, o processo dedutivo leva  aluso. S depende de que a coisa mais bvia na verbalizao da aluso ou do substitutivo que preenche parcialmente a lacuna 
seja a prpria lacuna. Assim, uma srie de exemplos nos faria retornar da ostensiva omisso  aluso propriamente dita.
         A omisso sem substitutivo  apresentada no seguinte exemplo: H um espirituoso e agressivo jornalista em Viena, cujas mordazes invectivas j o levaram 
vrias vezes a ser agredido fisicamente pelos objetos de seu ataque. Em certa ocasio, quando comentava-se novo crime cometido por um de seus opositores habituais, 
algum exclamou: 'Se X ouve isso, ter seus ouvidos socados novamente'. A tcnica desse chiste inclui em primeiro lugar o desconcerto diante desse aparente nonsense, 
j que  impossvel entendermos como  que 'ter os ouvidos socados' possa ser a conseqncia imediata de se ter ouvido alguma coisa. O absurdo do comentrio desaparece 
se inserimos na lacuna: 'ele escrever um artigo to castico sobre o homem que... etc'. A aluso por meio da omisso, combinada com o nonsense, so conseqentemente 
os mtodos tcnicos usados nesse chiste.
         'Ele tanto se exalta que o preo do incenso est subindo.' (Heine.) Esta lacuna  fcil de preencher. O que foi omitido  substitudo por uma inferncia 
que reconduz ento ao que fora omitido na forma de uma aluso: 'o autor-louvor cheira mal'.
         E agora. outra vez, o chiste dos dois judeus fora de uma casa de banho, quando um deles suspira: 'Mais um ano que se foi!'
         
         Tais exemplos no nos deixam dvida de que a omisso integre a aluso.
         H ainda uma lacuna bem ntida a ser considerada no nosso prximo exemplo, embora se trate de um chiste autntico e corretamente alusivo. Depois de um carnaval 
de artistas em Viena circulou um livro de pilhrias, entre as quais figurava o seguinte epigrama.
         'Uma esposa  como um guarda-chuva. Mais cedo ou mais tarde toma-se um txi.'
         Um guarda-chuva no  proteo suficiente contra a chuva. O 'mais cedo ou mais tarde' s pode significar 'se a chuva aumenta' e o txi  um veculo pblico. 
J que nos interessa aqui apenas a forma da analogia, adiaremos o exame mais detalhado desse chiste para um momento posterior. [Ver em [1].]
         O 'Bder von Lucca' de Heine contm um regular vespeiro das mais picantes aluses e faz uso muitssimo engenhoso dessa forma de chiste para propsitos polmicos 
(contra o Conde Platen). Bem antes que o leitor possa suspeitar do que est em andamento, prenuncia um tema particular, peculiarmente pouco adaptado  representao 
direta, atravs de aluses a material da espcie mais variada - seja por exemplo as contores verbais de Hirsch-Hyacinth: 'Voc  gordo e eu magro demais; voc 
tem muita imaginao e eu todo o senso para negcios; eu sou um prtico e voc um diarrheticus; em suma, voc  meu absoluto antipodex'. '- Vnus Urinia' - 'a gorda 
Gudel von Dreckwall' de Hamburgo e assim por diante. No que segue, os eventos descritos pelo autor tomam uma feio que  primeira vista parece simplesmente demonstrar 
sua maligna disposio mas logo revelam sua relao simblica com o propsito polmico (do autor) ao mesmo tempo que mostram-se alusivos. Finalmente explode o ataque 
a Platen e da por diante jorram aluses ao tema (com o qual j fomos familiarizados) do amor do Conde por homens, aluses que transbordam em cada sentena do ataque 
de Heine aos talentos e ao carter de seu adversrio. Por exemplo:
         'Mesmo se as Musas no o favorecem, tem o Gnio do Idioma em seu poder, ou antes, sabe como violent-lo. Pois no possui o livre amor desse Gnio: deve 
incessantemente perseguir tambm a esse jovem e saber como captar-lhe unicamente as formas externas, que a despeito de suas curvas adorveis, nunca falam com nobreza.'
         'Ele  como a avestruz que se acredita bem escondida se mete sua cabea na areia, deixando visvel apenas o traseiro. Nossa nobre ave faria melhor escondendo 
seu traseiro na areia e mostrando-nos a cabea.'
         A aluso  talvez o mtodo do chiste mais comum e mais facilmente controlvel, estando talvez no fundo da maior parte dos efmeros chistes que costumamos 
urdir em nossas conversaes e que no tolerariam ser transplantados do solo original e mantidos isoladamente. Mas isso precisamente nos lembra de novo o fato que 
comeara a nos intrigar ao considerarmos a tcnica dos chistes. Uma aluso em si no constitui um chiste; h aluses corretamente construdas que no reclamam tal 
carter. S as aluses que o possuam podem ser descritas como chistes. Assim, o critrio dos chistes, que temos perseguido atravs de sua tcnica, escapa-nos mais 
uma vez.
         Tenho descrito ocasionalmente a aluso como uma 'representao indireta' e podemos agora observar que as vrias espcies de aluso, juntamente com a representao 
pelo oposto e outras tcnicas que ainda vo ser mencionadas, poderiam se reunir em um nico grande grupo para o qual o nome mais compreensivo seria o de 'representao 
indireta'. 'Raciocnio falho', 'unificao' e 'representao indireta' - eis ento os rtulos sob os quais podemos classificar aquelas tcnicas de chistes conceptuais 
que viemos a conhecer.
         
         Se examinamos um pouco mais nosso material, parecemos reconhecer uma nova subespcie de representao indireta que s pode ser caracterizada precisamente 
atravs dos poucos exemplos que podem ser aduzidos. Trata-se da representao de algo pequeno ou mesmo muito pequeno - que efetua a tarefa de dar expresso completa 
a uma caracterstica inteira atravs de um insignificante detalhe. Esse grupo pode ser agregado  classificao de 'aluso', se tivermos em mente que a pequenez 
 relacionada ao que deve ser representado, verificando-se pois proceder dele. Por exemplo:
         'Um judeu da Galcia viajava de trem. Ajeita-se confortavelmente, desabotoando seu capote e colocando os ps sobre o banco. Nesse momento um cavalheiro 
em trajes modernos entrou no aposento. O judeu prontamente recomps-se e assumiu uma postura adequada. O estranho folheou as pginas de um caderno, fez alguns clculos, 
refletiu por um momento e ento, subitamente, perguntou ao judeu: "Desculpe-me, mas quando  o Yom Kippur?" (o Dia da Expiao). "Ora!" exclamou o judeu e colocou 
de novo os ps no banco antes de responder.'
         No se pode negar que essa representao por uma mincia relaciona-se  'tendncia  economia' que nos  aqui deixada como ltimo elemento comum aps nossa 
investigao da tcnica verbal (ver em [1]).
         Eis um exemplo muito semelhante:
         'O mdico a cujos cuidados se confiou a Baronesa em sua gravidez, anunciou que ainda no chegara o momento de dar  luz e sugeriu ao Baro que enquanto 
esperavam jogassem cartas no cmodo vizinho. Aps um momento, um grito de dor da Baronesa feriu os ouvidos dos dois homens: "Ah, mon Dieu, que je souffre!" Seu marido 
levantou-se de um salto mas o mdico fez-lhe sinal que se assentasse: "No  nada. Vamos continuar com o jogo!" Pouco depois, novos brados da mulher grvida: "Mein 
Gott, mein Gott, que dores terrveis?" - "No vai entrar, Professor?", perguntou o Baro. "No, no. Ainda no  a hora." Finalmente chegou da porta prxima um inconfundvel 
grito de "Ai, ai, ai!". O doutor largou as cartas e exclamou: "Agora  a hora."'
         Este bem-sucedido chiste demonstra duas coisas pela modificao gradual do carter dos gritos de dor emitidos por uma aristocrtica dama na hora do parto. 
Mostra tambm como a dor faz com que a natureza primitiva irrompa entre as diversas camadas de verniz de educao e como uma deciso importante pode ser adequadamente 
tomada na dependncia de um fenmeno aparentemente trivial.
         
         H um outro tipo de representao indireta utilizada pelos chistes, a saber, a 'analogia'. Deixamos para trat-la s agora porque sua considerao defronta-se 
com novas dificuldades, ou ao menos evidencia particularmente dificuldades que at agora s emergiram em outras conexes. J admitimos que em alguns dos exemplos 
examinados no pudemos expulsar uma dvida quanto a sua inequvoca considerao como chistes (ver em [1] e [2]); tal incerteza, j o reconhecemos, solapa seriamente 
as bases de nossa investigao. Estou certo de que a incerteza no ocorre mais intensa ou mais freqentemente que nos chistes por analogia. H uma sensao - provavelmente 
verdadeira para grande nmero de outras pessoas sujeitas s mesmas condies - que nos diz 'este  um chiste, posso dizer que este  um chiste' mesmo antes que tenha 
sido descoberta a oculta natureza essencial dos chistes. Tal sentimento deixa-nos em apuros mais freqentemente no caso das analogias chistosas. Se comeamos por 
qualificar sem hesitao uma analogia como sendo um chiste, logo aps parecemos notar que o deleite por ela proporcionado  de uma qualidade diferente daquele que 
costumamos derivar do chiste. E o fato de as analogias chistosas s raramente provocarem a exploso do riso que assinala um bom chiste, deixa-me impossibilitado 
de resolver essa dvida da maneira habitual; limito-me aos exemplos melhores, mais efetivos, da espcie.
          fcil demonstrar que h exemplos de analogias, efetivos e notavelmente refinados, que em absoluto se nos apresentam como chistes.  o caso da sutil analogia 
entre a ternura de Ottilie e o fio vermelho da armada inglesa (ver em [1]). No posso deixar de citar, no mesmo sentido, outro exemplo que no me canso de admirar 
e cujo efeito sobre mim no cessa de crescer.  a analogia com a qual Ferdinand Lassalle termina uma de suas famosas defesas ('A Cincia e os Trabalhadores'): 'A 
um homem como esse que eu lhes mostrei, que devotou sua vida ao lema "A Cincia e os Trabalhadores", sua condensao no importaria mais que a exploso de uma retorta 
a um qumico absorto em seus experimentos cientficos. To logo passe a interrupo, com um leve franzir de sobrancelhas a propsito da rebeldia de seu material, 
ele voltar calmamente a suas pesquisas e a seus trabalhos'.
         Uma rica seleo das analogias chistosas e hbeis encontra-se entre os escritos de Lichtenberg (segundo volume da edio Gottingen de 1853) e da tomarei 
material para nossa investigao.
         ' quase impossvel atravessar uma multido portando a tocha da verdade sem chamuscar a barba de algum.'
         Sem dvida essa sentena parece ser um chiste; entretanto, com um exame mais detalhado, notamos que o efeito chistoso no procede da prpria analogia mas 
de uma caracterstica subsidiria. 'A tocha da verdade' no  uma analogia nova e sim difundida h muito tempo, estando, pois, reduzida a um clich - como sempre 
ocorre quando uma analogia  afortunada e bem aceita no uso lingstico. Embora dificilmente notemos ainda a analogia na locuo 'a tocha de verdade', subitamente 
Lichtenberg lhe restitui sua completa fora original, j que agora faz um acrscimo  analogia e da inferindo uma conseqncia. Ora, j nos familiarizamos com o 
processo de conferir sentido pleno a uma expresso esvaziada, o qual consiste em uma tcnica de chiste. Enquadra-se no uso mltiplo do mesmo material (Ver em [1].). 
Bem pode ser que a impresso chistosa produzida pelo comentrio de Lichtenberg proceda apenas de sua conexo com essa tcnica do chiste.
         
         O mesmo juzo  decerto aplicvel a uma outra analogia chistosa da mesma autoria:
         'Pode-se estar certo, aquele homem no foi um grande luminar [Licht], mas um grande candelabro [Leuchter]... Era um Professor de Filosofia.'
         H muito que a descrio de um homem de saber como grande luminar, uma lumen mundi, deixou de ser uma analogia efetiva, se  que teve em algum tempo um 
efeito de chiste. Mas a analogia  renovada, retoma sua fora completa, se se deriva dela uma modificao, de onde se obtm segunda e nova analogia. O modo pelo 
qual se processa essa segunda analogia parece ser o fator determinante do chiste, mais que as duas analogias propriamente. Esse seria um exemplo da mesma tcnica 
do chiste utilizada no exemplo da tocha.
         O exemplo seguinte parece ter um carter chistoso devido a outra razo, que deve entretanto ser julgada similarmente:
         'As recenses parecem-me uma espcie de doena infantil  qual os livros recm-nascidos so mais ou menos suscetveis. H exemplos de morte dos mais saudveis, 
enquanto os mais fracos freqentemente lhes escapam. Alguns lhes escapam inteiramente. Tem-se tentado resguard-los delas atravs de amuletos como o prefcio e a 
dedicatria ou mesmo de vacinas como a autocrtica do autor. Mas isso nem sempre ajuda.'
         A comparao das recenses com uma doena infantil baseia-se em primeira instncia no fato de (crianas e livros) estarem expostos a elas to logo vejam 
a luz do dia. No posso me aventurar a decidir se nesse ponto a comparao tem carter de chiste. Mas, prosseguindo, o destino subseqente dos novos livros pode 
ser representado dentro do esquema da mesma analogia ou atravs de analogias relacionadas. Uma tal prolongao da analogia integra-se, sem dvida,  natureza do 
chiste, mas j sabemos graas a que tcnica -  um caso de unificao, de elaborao de uma conexo insuspeitada. No altera o carter de unificao o fato de que 
ela aqui consista de acrscimo a uma analogia prvia.
         Em outro grupo de chistes somos tentados a transformar uma impresso irrefutavelmente chistosa em outro fator, que, uma vez mais, nada tem a ver com analogia. 
Tais analogias, ou contm uma singular justaposio, com freqncia uma combinao aparentemente absurda, ou so substitudas por algo semelhante ao resultado da 
analogia. A maior parte dos exemplos de Lichtenberg pertence a esse grupo.
         ' pena que no se possa enxergar as instrudas vsceras dos autores de modo a descobrir o que eles comeram.' As 'instrudas vsceras' so um epteto desconcertante 
e de fato absurdo, s explicado pela analogia. Ser a impresso chistosa aqui obtida inteiramente devida ao desconcertante carter da justaposio? Se o , corresponderia 
aquela a um mtodo do chiste com o qual j estamos bastante familiarizados - a 'representao pelo absurdo' (ver em [1]).
         Lichtenberg usou a mesma analogia entre a ingesto de leitura instrutiva e a ingesto de nutrio fsica para outro chiste:
         'Ele tinha a maior considerao pela instruo caseira e estava inteiramente a favor da instruo estabulada.'
         Outras analogias do mesmo autor apresentam a mesma absurda, ou no mnimo surpreendente, distribuio de eptetos os quais, como veremos, so os verdadeiros 
veculos do chiste:
         'Este  o lado de barlavento de minha constituio moral; l posso suportar as coisas muito bem.'
         'Todo mundo tem seu backside moral, que no expe exceto em caso de necessidade e que cobre, enquanto possvel, com os cales da respeitabilidade.'
         'Backside moral' - a atribuio desse notvel epteto  o resultado de uma analogia. Mas em acrscimo, a analogia prossegue com um autntico jogo de palavras 
- 'necessidade'- e uma segunda justaposio mesmo mais rara ('os cales de respeitabilidade') que  talvez, por si mesma, um chiste; pois, os cales, logo que 
so os cales de respeitabilidade, tornam-se um chiste. No precisamos pois ficar surpresos se recebemos a impresso global de que a analogia seja um chiste muito 
bom. Comeamos a notar que geralmente nos inclinamos em nossa apreciao a estender a toda uma totalidade alguma caracterstica que se conecta  parte dela. 'Os 
cales de respeitabilidade', incidentalmente evocam alguns desconcertantes versos de Heine:
         
         ...Bis mir endlich,
         endlich alle Knopfe rissen
         an der Hose der Geduld.
         [...At que finalmente,
         finalmente todo boto rebenta
         nos cales de minha pacincia.]
         
         No pode haver dvida de que essas duas ltimas analogias tm uma caracterstica que no encontramos em toda analogia boa (isto , adequada). Elas so em 
alto grau, como poderamos dizer, 'degradantes'. Justapem algo de alta categoria, algo abstrato (nestes exemplos, a 'respeitabilidade' e a 'pacincia') com algo 
muito concreto e mesmo de um gnero baixo (os cales). Deveremos considerar em outra conexo se essa peculiaridade tem a ver com o chiste. Tentaremos aqui analisar 
outro exemplo em que essa menoscabante caracterstica  especialmente clara. Weinberl, o caixeiro na farsa de Nestroy, Einen Jux will er sich machen [Ele quer tomar 
um porre], descreve a si mesmo como haveria de recordar os dias de sua juventude quando fosse um respeitvel homem de negcios: 'Quando o gelo frente ao armazm 
da memria tiver sido quebrado a picaretas, como nessa conversa cordial', diz ele, 'quando o arqueado portal dos velhos tempos tiver sido de novo destrancado e a 
vitrine da imaginao estiver inteiramente sortida pelos bens do passado...'. Temos aqui, certamente, analogias entre abstraes e coisas concretas muito comuns; 
mas o chiste depende parcial ou inteiramente - de que o caixeiro utilize analogias tomadas do domnio de suas atividades cotidianas. Mas a conexo de tais abstraes 
com as coisas ordinrias que normalmente enchem sua vida  um ato de unificao.
         Retornemos s analogias de Lichtenberg:
         'Os motivos que nos levam a fazer algo podiam ser ordenados como a rosa-dos-ventos [ = pontos da bssola] e denominados de modo semelhante: por exemplo, 
'po-po-fama' ou 'fama-fama-po'. Como ocorre com tanta freqncia com os chistes de Lichtenberg, a impresso de algo adequado, espirituoso e agudo  to proeminente 
que confunde nosso juzo quanto  natureza do que constitui o chiste. Se alguma poro do chiste  mesclada ao admirvel significado em um comentrio desse tipo, 
somos provavelmente levados a declarar que a totalidade  um chiste excelente. Gostaria antes de aventurar a afirmao de que tudo que pertence  natureza do chiste 
procede de nossa surpresa ante a estranha combinao 'po-po-fama'. Enquanto chiste, portanto, seria um caso de 'representao pelo absurdo'.
         
         Uma estranha justaposio ou a atribuio de um epteto absurdo podem apresentar-se como resultado de uma analogia:
         'Uma mulher zweischlfrige.' 'Um banco de igreja einschalfriger.'(Ambas de Lichtenberg.) Por trs de ambos os ditos, jaz uma analogia com cama; em ambos 
opera, alm do 'desconcerto', o fator tcnico 'aluso' - aluso em um caso aos soporferos efeitos de um sermo e em outro ao inexaurvel tpico das relaes sexuais.
         At aqui verificamos, que, onde uma analogia nos parece um chiste, isso se deve  mesclagem com uma das tcnicas do chiste que j conhecemos. Mas alguns 
outros exemplos parecem finalmente evidenciar que uma analogia pode ser um chiste por si mesma.
         Eis como Lichtenberg descreve certas odes:
         'So em poesia o que os imortais trabalhos de Jacob Bhme so em prosa - uma espcie de piquenique, onde o autor fornece as palavras e o leitor o sentido.'
         'Quando filosofa, normalmente projeta sobre as coisas um agradvel luar que geralmente deleita mas no mostra coisa alguma claramente.'
         Ou veja-se Heine:
         'A face dela parecia um palimpsesto onde, por baixo do novo e negro manuscrito monstico do texto de um padre da Igreja, escondem-se as meio obliteradas 
linhas de um antigo poema ertico grego.'
         [Harzreise.]
         Ou consideremos a extensa analogia, com propsito altamente degradante, no 'Bder von Lucca' [Reisebilder III]:
         'Um clrigo catlico comporta-se tal como um caixeiro que tem um posto em uma grande casa de comrcio. A Igreja, a grande firma, da qual o Papa  o chefe, 
d-lhe um emprego fixo e em paga, um salrio fixo. Ele trabalha preguiosamente, como algum que no trabalha para lucro prprio, que tem numerosos colegas e pode 
facilmente escapar de ser observado no tumulto de uma grande firma. Tudo que lhe importa  o crdito da casa e ainda mais sua preservao, pois que se ela for  
bancarrota, ele perder seu ganha-po. Um clrigo protestante, por outro lado,  em qualquer caso seu prprio chefe e empreende o negcio da religio para seu prprio 
lucro. Ele no negocia por atacado, como o catlico, seu colega comerciante, mas apenas a retalho. E j que ele prprio se encarrega de tudo, no se permite ser 
preguioso. Deve anunciar seus artigos de f, depreciar os artigos do competidor e, como genuno retalhista, deve manter-se em sua venda a retalho, cheio de inveja 
comercial de todas as grandes casas, em particular da grande casa em Roma, que paga os salrios de tantos milhares de guarda-livros e empacotadores, e tem suas fbricas 
nos quatro cantos do globo.'
         
         Em face desse e de muitos outros exemplos, no podemos mais discutir o fato de que uma analogia possa em si mesma se caracterizar como chiste, sem que essa 
impresso seja devida a uma complicao com alguma das conhecidas tcnicas de chiste. Mas ao admitir isso, estamos completamente perdidos quanto a constatar o que 
determina a caracterstica chistosa das analogias, j que tal caracterstica decerto no reside na analogia como forma de expresso do pensamento ou na elaborao 
de uma comparao. Tudo que podemos fazer  incluir a analogia entre as espcies de 'representao indireta' usadas pela tcnica do chiste, deixando sem soluo 
um problema que encontramos com muito maior clareza no caso das analogias que no caso dos outros mtodos do chiste, observados anteriormente. Alm do mais, deve 
haver sem dvida alguma razo especial pela qual a deciso quanto a qualificar ou no algo como chiste oferece maiores dificuldades nas analogias que em outras formas 
de expresso.
         Essa lacuna em nossa compreenso no nos deixa margem entretanto para lamentar que a primeira investigao tenha sido sem resultados. Em vista da ntima 
conexo que devemos estar preparados para constatar nas diferentes caractersticas dos chistes, seria imprudente esperar que pudssemos explicar completamente uma 
parte do problema antes de ter, do mesmo modo, lanado a vista sobre as outras. Sem dvida deveremos atacar agora o problema a partir de outra perspectiva.
         Podemos estar seguros de que nenhuma das possveis tcnicas de chistes escapou a nossa investigao? Naturalmente que no. Mas o continuado exame de material 
novo pode convencer-nos de que conseguimos conhecer os mtodos tcnicos mais comuns e importantes da elaborao do chiste - em todos os casos, muito mais se necessita 
para formar um juzo sobre a natureza daquele processo psquico. At aqui no chegamos a tal juzo, mas por outro lado possumos agora uma importante indicao da 
direo de onde podemos esperar receber esclarecimento ulterior sobre o problema. Os interessantes processos de condensao acompanhados de formao de substitutivo, 
reconhecidos como o ncleo da tcnica dos chistes verbais, apontam para a formao dos sonhos, em cujo mecanismo tem-se descoberto os mesmos processos psquicos. 
Isso vale igualmente, entretanto, para as tcnicas de chistes conceptuais - deslocamento, raciocnio falho, absurdo, representao pelo oposto - que reaparecem, 
cada um e todos, na tcnica de elaborao do sonho. O deslocamento  responsvel pelo enigmtico aparecimento de sonhos que nos impedem o reconhecimento de que constituem 
uma continuao de nossa vida desperta. O uso do absurdo e do nonsense nos sonhos tem-lhes custado a dignidade de serem considerados produtos psquicos e tem levado 
as autoridades a supor que a desintegrao das atividades mentais e uma cessao de crtica, da moralidade e da lgica so condies necessrias  formao dos sonhos. 
A representao pelo oposto  to comum nos sonhos que mesmo os livros populares de interpretao dos sonhos, que executam de modo totalmente equivocado essa tarefa, 
tm por hbito lev-la em conta. A representao indireta - a substituio de um pensamento onrico por uma aluso, por algo insignificante, por um simbolismo afim 
 analogia -  precisamente o que distingue o modo de expresso dos sonhos de nossa vida desperta. Sendo to abrangente dificilmente ser um puro acaso tal concordncia 
entre os mtodos da elaborao do chiste e aqueles da elaborao do sonho. Ser pois uma de nossas prximas tarefas demonstrar detalhadamente essa concordncia bem 
como examinar seu fundamento. [Ver Captulo VI adiante.]
         
         
         
         
         III - OS PROPSITOS DOS CHISTES
         
         Quando ao fim de meu ltimo captulo transcrevi a comparao por Heine de um padre catlico com um empregado em um negcio por atacado e de um protestante 
com um mercador a retalho, atentei para uma inibio que estava tentando induzir-me a no utilizar a analogia. Disse a mim mesmo que entre os leitores haveria provavelmente 
alguns que sentissem respeito no s pela religio como por seus ministros e ajudantes. Tais leitores ficariam indignados com a analogia e em tal estado emocional 
estariam privados de todo interesse quanto a decidir se a analogia parece um chiste por sua prpria conta ou devido a alguma coisa extra a ela acrescentada. Com 
outras analogias - por exemplo, aquela analogia vizinha, sobre a agradvel luz da lua que alguma filosofia particular lana sobre as coisas - parecia no haver necessidade 
de preocupar-me com o efeito perturbador que teriam sobre alguma frao de meus leitores. O homem mais piedoso permaneceria em um estado de nimo tal que pudesse 
opinar sobre nosso problema.
          fcil adivinhar a caracterstica dos chistes de que depende a diferena na reao de seus ouvintes. Em um caso, o chiste  um fim em si mesmo, no servindo 
a um objeto particular; em outro caso, o chiste serve a um fim - torna-se tendencioso. Apenas os chistes que tm um propsito correm o risco de encontrar pessoas 
que no querem ouvi-los.
         Os chistes no tendenciosos foram descritos por Vischer como chistes 'abstratos'. Prefiro cham-los 'inocentes'.
         J que dividimos os chistes em "verbais' e 'conceptuais' de acordo com a manipulao tcnica do material, estamos autorizados agora a examinar a relao 
entre tal classificao e os novos chistes que iremos introduzindo. A relao entre chistes verbais e conceptuais por um lado e entre chistes abstratos e tendenciosos 
por outro, no  de mtua influncia; trata-se de duas classificaes de produtos chistosos inteiramente independentes. Algumas pessoas podem talvez receber a impresso 
de que os chistes inocentes so predominantemente verbais e que uma tcnica mais complexa de chistes conceptuais  mais empregada para propsitos definidos. Mas 
h chistes inocentes que operam com jogo de palavras e semelhana fnica, como h chistes inocentes que empregam todos os mtodos dos chistes conceptuais.  ainda 
mais fcil mostrar que um chiste tendencioso no necessita ser mais que um chiste verbal no que toca  sua tcnica. Por exemplo, os chistes que 'jogam com' nomes 
prprios tm freqentemente um propsito insultante e ferino, embora sejam,  desnecessrio dizer, chistes verbais. Mas os chistes mais inocentes de todos so ainda 
os chistes verbais; por exemplo, o Schttelreime, tornado recentemente to popular e no qual a tcnica  constituda pelo uso mltiplo do mesmo material com uma 
modificao inteiramente peculiar:
         
         Und weil er Geld in Menge hatte,
         lag stets er in der Hngematte
         
         [E porque tem dinheiro em quantidade
         Ele sempre se deita em uma rede.]
         
         Pode-se esperar que ningum questione a identidade do prazer derivado dessas rimas, por outro lado despretensiosas, com o prazer que nos faz reconhecer 
os chistes.
         Bons exemplos de chistes conceptuais, abstratos ou inocentes, podem ser achados em abundncia nas analogias de Lichtenberg, algumas das quais j conhecemos. 
Acrescento outras:
         'Enviaram um volume em oitavo menor a Gttingen e receberam de volta algo que era um quarto em corpo e alma.'
         'A fim de construir esse edifcio adequadamente,  necessrio providenciar sobretudo bons alicerces; no conheo nenhum mais firme que o processo em que, 
a cada camada de alvenaria pro segue-se prontamente outra contra.'
         'Uma pessoa gera um pensamento, uma segunda o leva a batizar-se, uma terceira tem filhos com ele, uma quarta o visita em seu leito de morte e uma quinta 
o enterra.' (Analogia com unificao.)
         
         'Ele no apenas no acredita em fantasmas como ainda no tem medo deles.' O chiste aqui consiste inteiramente na forma absurda da representao, que introduz, 
por comparao, as maneiras de pensar menos comuns enquanto assevera francamente o que se considera menos importante. Se o envoltrio chistoso  removido, temos 
(a afirmao): ' muito mais fcil ficar livre do medo dos fantasmas intelectualmente que escapar dele quando aparece a ocasio'. Tal assero no  absolutamente 
um chiste, embora se trate de uma descoberta psicolgica correta e ainda bem pouco apreciada - a mesma descoberta que Lessing exprime em sentena bem conhecida:
         'No so livres todos aqueles que zombam de suas cadeias.'
         Aproveito a oportunidade para livrar-me de um equvoco possvel, pois os chistes 'abstratos' ou 'inocentes' esto longe de ter o mesmo sentido dos chistes 
'triviais' ou 'carentes de substncia'; (sua designao) conota simplesmente o oposto dos chistes 'tendenciosos' que sero discutidos em breve. Como mostram nossos 
ltimos exemplos, um chiste inocente - ou seja, no tendencioso - pode ter tambm grande substncia, asseverando algo valioso. Mas a substncia de um chiste  independente 
do chiste, consistindo na substncia do pensamento expresso aqui como chiste, mediante arranjo especial. Sem dvida, tal com os relojoeiros em geral fornecem a um 
mecanismo particularmente bom algum estojo similarmente valioso, assim pode ocorrer com o chiste, onde os melhores produtos chistosos so usados como envoltrio 
dos pensamentos de maior substncia.
         Se traamos agora uma ntida distino entre a substncia do pensamento e o envoltrio chistoso, atingimos realmente uma descoberta que pode lanar luz 
a grande parte de nossa incerteza na avaliao de chistes. Pois isso revela - o que  surpreendente - que nossa fruio do chiste baseia-se em uma impresso combinada 
de sua substncia com uma efetividade como chiste, o que nos leva a ser enganados por um fator  custa do outro. S depois da reduo do chiste tornamo-nos atentos 
para esse falso juzo.
         Alm disso, a mesma coisa vale para os chistes verbais. Quando nos dizem que 'a experincia consiste em experimentar o que no desejaramos experimentar' 
(ver em [1]), ficamos desconcertados e pensamos ter aprendido nova verdade. Transcorre algum tempo antes que reconheamos sob esse disfarce a platitude 'O sofrimento 
faz-nos sbios'. [A adversidade  a melhor escola.] (Fischer [1889, 59].) O modo adequado com que o chiste consegue definir a 'experincia', quase que exclusivamente 
pelo uso da palavra 'experimentar', engana-nos, levando  superestimao da substncia da sentena. Exatamente o mesmo se pode dizer sobre o chiste de unificao 
de Lichtenberg 'Janeiro' (ver em [2]) que no nos diz mais do que sempre soubemos - que os votos feitos por ocasio do Ano Novo tornam-se realidade com a mesma freqncia 
que outros votos. O mesmo em muitos casos semelhantes.
         Constatamos o contrrio quanto a outros chistes, nos quais a adequao e verdade do pensamento nos enganam, levando-nos a considerar toda a sentena como 
um chiste brilhante - enquanto s o pensamento  brilhante e a confeco do chiste freqentemente precria. Exatamente nos chistes de Lichtenberg o ncleo do pensamento 
 em geral muito mais valioso que o envoltrio chistoso ao qual, injustificadamente, estendemos nossa apreciao. Assim por exemplo o comentrio sobre 'a tocha da 
verdade' (ver em [1])  uma analogia que dificilmente chega a ser um chiste, mas  to apropriada que insistimos em tomar a sentena como um chiste particularmente 
bom.
         Os chistes de Lichtenberg se distinguem sobretudo devido a seu contedo intelectual e  segurana com que ferem o alvo. Goethe estava muito certo ao dizer 
deste autor que suas idias chistosas e pilhricas encobriam problemas; seria mais correto dizer que roam a soluo de problemas.  o caso por exemplo em que comenta 
com um chiste: 'Ele lera Homero tanto que lia sempre "Agamemnon" ao invs de "angenommen [suposto]".' A tcnica usada  'estupidez' mais 'similaridade fnica', tendo 
Lichtenberg descoberto nada menos que o segredo da leitura equivocada.
         O mesmo se d com um chiste cuja tcnica nos parecera muito insatisfatria (ver em [1]): 'Ele se maravilhava em que os gatos tivessem dois furos recortados 
em sua pele, exatamente no lugar dos olhos'. A estupidez aqui alardeada  apenas aparente. De fato, por trs desse simples comentrio est o grande problema da teleologia 
na estrutura animal. No  absolutamente bvio que a fissura palpebral deve abrir-se no ponto em que a crnea est exposta at que a teoria da evoluo esclarea 
essa coincidncia.
         Tenhamos em mente o fato de que os comentrios chistosos produzem em ns uma impresso global na qual no conseguimos separar a parte devida ao contedo 
intelectual da parte devida  elaborao do chiste. Pode ser que mais tarde encontremos um fato paralelo a este, ainda mais importante. (Ver em [1].)
         
         Do ponto de vista do esclarecimento terico sobre a natureza do chiste, os chistes inocentes sero necessariamente mais valiosos para ns que os tendenciosos, 
tanto quanto os triviais o sero mais que os chistes profundos. Os chistes inocentes e triviais colocam-nos provavelmente o problema do chiste em sua forma mais 
pura, j que com eles evitamos o perigo de ser confundidos por seu propsito ou equivocados em nosso julgamento por seu bom senso. Com base nesse material nossas 
descobertas podem fazer novos avanos.
         Selecionarei os exemplos, o mais possvel inocentes, de um chiste verbal:
         'Uma garota a quem se anunciou um visitante enquanto achava-se no toucador queixou-se: "Oh, que vergonha, algum no poder deixar-se ver logo quando se 
est mais anziehend!"' (Kleinpaul, 1890.)
         Substituirei esse exemplo por outro extremamente simples e, de fato, no sujeito  objeo, j que me assaltam dvidas quando  caracterizao do chiste 
anterior como no tendencioso.
         'Ao fim de uma refeio da qual eu participava como convidado, foi servido um pudim do tipo conhecido como ''Roula''. Prepar-lo requer alguma habilidade 
por parte do cozinheiro. Portanto, um dos convidados perguntou: ''Feito em casa?'' Ao que respondeu o anfitrio: ''Sim.  um home-roulard!''.'
         Dessa vez no examinaremos a tcnica do chiste; antes propomos voltar nossa ateno para outro fator, realmente o mais importante. Quando os presentes ( 
mesa) ouvimos esse chiste improvisado, tal fato nos proporcionou prazer - como posso claramente me lembrar - e nos fez rir. Neste caso, como em incontveis outros, 
o sentimento de prazer do ouvinte no decorre do propsito do chiste nem de seu contedo intelectual; nada nos resta portanto seno colocar em conexo o sentimento 
de prazer com a tcnica do chiste. Os mtodos tcnicos do chiste que j descrevemos anteriormente - condensao, deslocamento, representao indireta etc. - possuem 
assim o poder de evocar um sentimento de prazer no ouvinte, embora possamos no ter a mnima idia de como tero adquirido tal poder. Dessa maneira simples, chegamos 
 segunda tese em nossa classificao dos chistes; a primeira (ver em [1]) asseverava que a caracterstica dos chistes consiste em sua forma de expresso. Consideremos 
alm do mais que a segunda tese nada nos ensina de efetivamente novo. Isola simplesmente o que uma observao j feita anteriormente inclua. Lembremo-nos que quando 
conseguamos reduzir um chiste (pela substituio de sua forma de expresso por outra, que preservava cuidadosamente seu sentido) este perdia no apenas seu carter 
de chiste como tambm seu poder de nos fazer rir - nossa fruio do chiste.
         No podemos seguir adiante sem uma discusso do que nossas autoridades filosficas expem a respeito.
         Os filsofos, que consideram os chistes como uma parte do cmico e tratam o prprio cmico no captulo da esttica, definem uma idia esttica pela condio 
de que no tentamos obter ou fazer qualquer coisa atravs dela, no necessitando dela para satisfazer qualquer de nossas necessidades vitais, mas contentando-nos 
na contemplao e na fruio da idia. 'Esta fruio, espcie de ideao,  a fruio puramente esttica, que consiste apenas em si mesma, no tendo outro objetivo 
fora de si e no preenchendo qualquer dos demais objetivos da vida.' (Fischer, 1889, 20.) (ver em [1])
         Dificilmente haveremos de contraditar tal assero de Fischer - no faremos mais talvez que traduzir seu pensamento em nosso prprio modo de expresso - 
se insistirmos em que a atividade chistosa no deve ser, afinal, descrita como intil ou desinteressada, j que tem o propsito inequvoco de suscitar prazer em 
seus ouvintes. Duvido que estejamos em condies de empreender qualquer coisa sem ter uma inteno em vista. Se no solicitamos nosso aparato mental no momento de 
prover uma de nossas satisfaes indispensveis, permitimos-lhe operar na direo do prazer e procuramos derivar prazer de sua prpria atividade. Suspeito que em 
geral  essa a condio que governa toda a ideao esttica, mas sei muito pouco de esttica para tentar expandir o assunto. No que concerne ao chiste, entretanto, 
posso afirmar  base das duas descobertas j feitas, que se trata de uma atividade que visa derivar prazer dos processos mentais, sejam intelectuais ou de outra 
espcie. Sem dvida existem outras atividades com o mesmo fim. Talvez estas se diferenciem de acordo com o campo de atividade mental do qual procuram derivar prazer 
ou de acordo talvez com os mtodos que utilizem. No podemos, por enquanto, decidir quanto a isso mas mantemos firmemente a posio de que a tcnica do chiste e 
a tendncia  economia, que a controla em parte (Ver em [1].), colocam-se em conexo com a produo do prazer.
         Mas antes que nos disponhamos a solucionar o enigma da maneira pela qual os mtodos tcnicos de elaborao do chiste podem excitar prazer no ouvinte, recordemos 
o fato de que, com uma perspectiva de simplificao e maior perspicuidade, tenhamos deixado inteiramente de lado os chistes tendenciosos. Devemos afinal tentar esclarecer 
a questo de quais so os propsitos dos chistes e de como estes servem a tais propsitos.
         H, antes de tudo, uma observao que nos previne contra deixar de lado os chistes tendenciosos em nossa investigao da origem do prazer que frumos nos 
chistes. O agradvel efeito dos chistes inocentes  em regra um efeito moderado; um ntido sentido de satisfao, um leve sorriso,  tudo o que em geral podem obter 
de seus ouvintes. Pode ser que mesmo parte desse efeito devesse ser atribudo ao contedo intelectual do chiste, como j verificamos em exemplos adequados (ver em 
[1]). Um chiste no tendencioso dificilmente merece a sbita exploso de riso que torna os chistes tendenciosos assim irresistveis. J que ambos os tipos podem 
ter a mesma tcnica, podemos suspeitar de que os chistes tendenciosos, em virtude de seu propsito, devem ter fontes de prazer disponveis, s quais os chistes inocentes 
no teriam acesso.
         Os propsitos dos chistes podem facilmente ser passados em revista. Onde um chiste no tem objetivo em si mesmo - isto , onde no  um chiste inocente 
- pode servir a apenas dois propsitos, que podem ser subsumidos sob um nico rtulo. Ou ser um chiste hostil (servindo ao propsito de agressividade, stira ou 
defesa) ou um chiste obsceno (servindo ao propsito de desnudamento). Deve-se reiterar desde j que as espcies tcnicas do chiste - verbal ou conceptual - no se 
relacionam com esses dois propsitos.
          tarefa muito mais extensa mostrar o modo pelo qual o chiste serve a esses dois propsitos. Na investigao prefiro lidar primeiro no com os chistes hostis 
mas com os desnudadores.  verdade que estes tm sido muito mais raramente julgados dignos de investigao, como se a averso com que se os encara j se tivesse 
transferido para a discusso. Mas no nos permitiremos estar desconcertados por isso, pois atacaremos imediatamente um caso marginal de chiste que promete nos trazer 
esclarecimento sobre mais um ponto obscuro.
         
         Sabemos o que se entende por smut: a intencional proeminncia verbal de fatos e relaes sexuais. Esta definio no , entretanto, mais vlida que outras 
definies. A despeito dela, uma aula expositiva sobre a anatomia dos rgos sexuais ou a fisiologia da procriao no necessita ter um nico ponto de contato com 
o smut.  fato bem mais relevante que este se dirija a uma pessoa particular, que desperta no locutor uma excitao sexual a qual, ouvindo-o, espera-se que fique 
ciente da excitao dele e em conseqncia, torne-se por sua vez excitada sexualmente. Ao invs de excitada, a outra pessoa pode ser levada a sentir vergonha ou 
embarao, o que  apenas reao  excitao e, por linhas transversas, uma aceitao desta. O smut dirige-se pois originalmente s mulheres e pode ser equiparado 
s tentativas de seduo. Se o homem, em companhia de homens, gosta de falar ou ouvir smut, a situao primitiva, que no pode se realizar devido s inibies sociais, 
pode ser facilmente imaginada. Uma pessoa que ri do smut que escuta est rindo como se fora espectador de um ato de agresso sexual.
         O material sexual que forma o contedo do smut inclui mais do que  peculiar a cada sexo; inclui tambm o que  comum a ambos os sexos, a que se estende 
o sentimento de vergonha - vale dizer, o que  excrementcio no sentido mais amplo. Esse , entretanto, o sentido coberto pela sexualidade na infncia, idade em 
que h como que uma cloaca dentro da qual pouco ou nada se distingue do que  sexual e do que  excrementcio. Atravs de toda a escala da psicologia das neuroses 
o que  sexual inclui o excrementicial no antigo sentido, infantil.
         O smut  como que um desnudamento das pessoas, sexualmente diferentes, a quem  dirigido. Pela enunciao de palavras obscenas a pessoa assediada  compelida 
a imaginar a parte do corpo ou o procedimento em questo, ao mesmo tempo que lhe  mostrado o que o assediante, ele prprio, est imaginando. No se pode duvidar 
de que o motivo original do smut seja o desejo de ver desmascarado o que  sexual.
         Voltarmos nesse ponto a fatos fundamentais s ajudar a esclarecer as coisas. Um desejo de ver desnudados os rgos peculiares a cada sexo  um dos componentes 
originais de nossa libido. Ele prprio (o desejo) pode ser o substitutivo de algo anterior, voltando a um hipottico desejo primrio de tocar as partes sexuais. 
Como se d com tanta freqncia, olhar substitui tocar. A libido visual e tctil est presente em todo indivduo nas duas formas ativa e passiva, masculina e feminina; 
de acordo com a preponderncia do carter sexual, uma ou outra forma predomina.  fcil observar a inclinao ao autodesnudamento em crianas pequenas. Nos casos 
em que o germe dessa inclinao escapa a seu destino usual de ser sepultado ou suprimido, desenvolve nos homens a familiar perverso conhecida como exibicionismo. 
Nas mulheres a inclinao ao exibicionismo passivo  quase invariavelmente sepultada sob a impressionante funo reativa da modstia sexual, mas no sem que lhe 
seja deixada uma vlvula de escape em relao s roupas. Basta apenas aludir  elasticidade e variabilidade no total de exibicionismo que se permite s mulheres 
reter de acordo com as diferentes convenes e circunstncias.
         Nos homens um alto grau dessa tendncia persiste como poro de sua libido e serve como introduo do ato sexual. Quando tal estmulo se faz sentir na primeira 
abordagem de uma mulher, por duas razes as palavras so utilizadas: primeiro, para anunciar-se (a excitao) a ela; segundo, porque se a idia  suscitada pela 
fala, ela pode induzir uma excitao correspondente na prpria mulher, despertando nela uma inclinao ao exibicionismo passivo. Este cortejamento verbal no  ainda 
smut, mas estgio que o precede. Se a aquiescncia da mulher emerge rapidamente, a fala obscena tem vida curta; leva imediatamente a uma ao sexual. Ocorre diferentemente 
quando no se conta com uma rpida aquiescncia por parte da mulher surgindo ento, no lugar da conivncia, reaes defensivas. Neste caso o discurso sexualmente 
excitante torna-se um fim em si mesmo na forma de smut. J que a agressividade sexual  detida em seu avano em direo ao ato, ela permanece na evocao da excitao 
e deriva prazer dos sinais em que se manifesta  mulher. Ao fazer isso, a agressividade sem dvida altera tambm seu carter, tal como qualquer impulso libidinoso 
que esbarra em um obstculo. Torna-se positivamente hostil e cruel, convocando assim em seu auxlio, contra o obstculo, os componentes sdicos do instinto sexual.
         A inflexibilidade da mulher  portanto a primeira condio para o desenvolvimento do smut embora isso parea implicar meramente em um adiamento no indicando 
que os esforos ulteriores sejam vos. O caso ideal de uma resistncia desse tipo por parte da mulher ocorre se outro homem est presente ao mesmo tempo - uma terceira 
pessoa - pois nesse caso uma rendio imediata da mulher seria to boa quanto fora de questo. Essa terceira pessoa logo adquire a maior importncia no desenvolvimento 
do smut: para comear, entretanto, no se deve desconsiderar a presena de uma mulher. Entre os camponeses ou em ambientes de espcie mais humilde h de se notar 
que o smut s comea aps a entrada da garonete ou da esposa do albergueiro. S em nveis sociais mais altos ocorre o oposto, a presena de uma mulher condicionando 
o fim do smut. Os homens se abstm desse tipo de divertimento, que originalmente pressupe a presena de uma mulher sentindo-se envergonhada, at que estejam 'juntos 
a ss'. De modo que gradualmente, no lugar da mulher, o espectador, depois o ouvinte, torna-se a pessoa a quem  dirigido o smut, bem perto j de assumir o carter 
de chiste devido a essa transformao.
         Daqui por diante nossa ateno se dirigir a dois fatores:  parte desempenhada pela terceira pessoa, o ouvinte, e s condies que controlam o contedo 
do prprio smut.
         Falando de modo geral, um chiste tendencioso requer trs pessoas: alm da que faz o chiste, deve haver uma segunda que  tomada como objeto da agressividade 
hostil ou sexual e uma terceira na qual se cumpre o objetivo do chiste de produzir prazer. Teremos depois que examinar as razes mais profundas desse estado de coisas; 
no momento, vamos ater-nos ao fato que isso comprova - a saber, que no  a pessoa que faz o chiste que ri dele, desfrutando portanto seu efeito deleitoso, mas o 
ouvinte inativo. No caso do smut as trs pessoas mantm idntica relao. O curso dos eventos pode ser assim descrito. Quando a primeira pessoa v seu impulso libidinoso 
inibido pela mulher, desenvolve uma tendncia hostil contra a segunda pessoa e convoca como aliado a terceira pessoa, que seria um estorvo na situao original. 
Atravs da fala caracterizada como smut da primeira pessoa, a mulher  exposta  terceira que, como ouvinte,  agora subornada pela passiva satisfao de sua libido.
          notvel quo universalmente popular , entre pessoas comuns, um intercmbio em smut e como este, infalivelmente, produz uma disposio eufrica. Mas tambm 
 digno de nota que nesse complicado procedimento, que envolve tantas das caractersticas dos chistes tendenciosos, no sejam solicitados ao prprio smut nenhum 
dos requisitos formais caracterizadores do chiste. A enunciao sem disfarce de uma indecncia proporciona prazer  primeira pessoa e riso  terceira.
         Apenas quando ascendemos a uma sociedade de educao mais refinada as condies formais sobre os chistes vm a desempenhar algum papel. O smut torna-se 
um chiste e s  tolerado quando tem um carter de chiste. O mtodo tcnico usualmente empregado  a aluso - ou seja, a substituio por algo menor, apenas remotamente 
conexo, que o ouvinte reconstri em sua imaginao como uma obscenidade direta e completada. Quanto maior a discrepncia entre o que  dado diretamente na forma 
de smut e o que  necessrio ao ouvinte evocar, mais refinado torna-se o chiste e mais alto, tambm, pode se aventurar a subir  sociedade. Como se verifica facilmente 
atravs de exemplos, o smut que tem as caractersticas de um chiste, tem  disposio, alm da aluso, vulgar ou refinada, todos os outros mtodos de chistes verbais 
e conceptuais.
         Aqui finalmente compreendemos o que  que os chistes executam a servio de seu propsito. Tornam possvel a satisfao de um instinto (seja libidinoso ou 
hostil) face a um obstculo. Evitam esse obstculo e assim extraem prazer de uma fonte que o obstculo tornara inacessvel. O obstculo interferente nada mais  
em realidade que a incapacidade da mulher em tolerar a sexualidade sem disfarces, incapacidade correspondentemente aumentada com a elevao do nvel educacional 
e social. A mulher que se imagina presente na situao inicial  retida depois como se estivesse ainda presente, ou, em sua ausncia, sua influncia tem ainda efeito 
intimidante sobre os homens. Podemos notar que os homens de uma classe mais alta so imediatamente levados, quando em companhia de moas de classe inferior, a reduzirem 
seus chistes com carter de smut ao nvel de simples smut.
         O poder que dificulta ou impossibilita as mulheres, e em menor grau tambm os homens, de desfrutarem a obscenidade sem disfarce  por ns denominado 'represso'; 
reconhecemos nela o mesmo processo psquico que, em caso de grave enfermidade, mantm fora da conscincia todos os complexos de impulsos, junto com seus derivativos, 
processo que se tem revelado o principal fator na causao do que chamamos psiconeuroses. Acreditamos que a civilizao e a educao de nvel mais alto tm larga 
influncia no desenvolvimento da represso e supomos que, em tais condies, a organizao psquica sofre uma alterao (que tambm emerge como uma disposio herdada) 
em conseqncia de que, aquilo que foi inicialmente sentido como agradvel, torna-se ento inaceitvel e  rejeitado com toda a fora psquica possvel. A atividade 
repressiva da civilizao faz com que as possibilidades primrias de fruio, agora repudiadas pela censura, se percam. Quando rimos de um refinado chiste obsceno, 
rimos da mesma coisa que faz um campons se rir de uma vulgar pea de smut. Ns, entretanto, nunca podemos rir do smut vulgar; devemos antes nos sentir envergonhados, 
o smut nos parecendo repugnante. S podemos rir quando um chiste vem em nossa ajuda.
         Assim parece confirmada nossa suspeita inicial (ver em [1]), a saber, que os chistes tendenciosos tm a seu dispor fontes de prazer alm daquelas abertas 
aos chistes inocentes, nos quais todo o prazer est de algum modo vinculado  tcnica. Podemos tambm mais uma vez repetir que, com relao aos chistes tendenciosos, 
no estamos em condies de distinguir intuitivamente que parte do prazer procede das fontes de sua tcnica e que parte deriva de seu propsito. Assim, estritamente 
falando, no sabemos de que estamos rindo. No caso de todos os chistes obscenos, estamos sujeitos a sucumbir a erros de julgamento sobre a 'excelncia' do chiste 
na medida em que estes dependem de determinantes formais; a tcnica de tais chistes  muito freqentemente desprezvel, mas tem imenso sucesso em provocar riso.
         
         
         Examinaremos agora a questo do papel desempenhado pelos chistes a servio de um propsito hostil.
         Aqui, desde logo, encontramos a mesma situao. Desde nossa infncia individual, e, similarmente, desde a infncia da civilizao humana, os impulsos hostis 
contra o nosso prximo tm-se sujeitado s mesmas restries,  mesma progressiva represso, quanto nossas tendncias sexuais. No conseguimos ainda ir to longe 
a ponto de amar nossos inimigos ou oferecer-lhes a face esquerda depois de esbofeteada a direita. Alm do mais, todas as regras morais para a restrio do dio ativo 
fornecem at hoje a mais ntida evidncia de que foram originalmente moldadas para uma pequena sociedade dos membros de um cl. Na medida em que pudemos sentir que 
somos membros de um povo, permitimo-nos desconsiderar a maior parte dessas restries com relao a estrangeiros. Contudo, dentro de nosso prprio crculo, j fizemos 
alguns avanos no controle dos impulsos hostis. Como Lichtenberg exprimiu em termos drsticos: 'Onde dizemos agora "Desculpe-me" costumvamos dar um soco nos ouvidos'. 
A hostilidade brutal, proibida por lei, foi substituda pela invectiva verbal; um melhor conhecimento da interconexo dos impulsos humanos est cada vez nos roubando 
- atravs de seu consistente 'tout comprendre c'est tout pardonner' - a capacidade de nos zangarmos com quem quer que se intrometa em nosso caminho. Embora, quando 
crianas, ainda sejamos dotados de uma poderosa disposio herdada para a hostilidade, logo aprendemos por uma civilizao pessoal superior, que o uso de uma linguagem 
abusiva  indigno; e mesmo onde a luta pela luta permaneceu permissvel, aumentou extraordinariamente o nmero de mtodos de luta cujo emprego  vedado. J que somos 
obrigados a renunciar  expresso da hostilidade pela ao - refreada pela desapaixonada terceira pessoa em cujo interesse deve-se preservar a segurana pessoal 
- desenvolvemos, como no caso da agressividade sexual, uma nova tcnica de invectiva que objetiva o aliciamento dessa terceira pessoa contra nosso inimigo. Tornando 
nosso inimigo pequeno, inferior, desprezvel ou cmico, conseguimos, por linhas transversas, o prazer de venc-lo - fato que a terceira pessoa, que no dispendeu 
nenhum esforo, testemunha por seu riso.
         Estamos agora preparados para perceber a parte desempenhada pelos chistes na agressividade hostil. Um chiste nos permite explorar no inimigo algo de ridculo 
que no poderamos tratar aberta ou conscientemente, devido a obstculos no caminho; ainda uma vez, o chiste evitar as restries e abrir fontes de prazer que 
se tinham tornado inacessveis. Ele ademais subornar o ouvinte com sua produo de prazer, fazendo com que ele se alinhe conosco sem uma investigao mais detida, 
exatamente como em outras freqentes ocasies fomos subornados por um chiste inocente que nos levou a superestimar a substncia de uma afirmao expressa chistosamente. 
Tal fato  revelado  perfeio na expresso corrente 'die Lacher auf seine Seite ziehen [trazer os que riem para nosso lado]'.
         Consideremos, por exemplo, os chistes de Herr N., dispersos ao longo do captulo anterior. Eram todos eles invectivas, como se Herr N. quisesse exclamar 
em voz alta: 'O Ministro da Agricultura  um boi! (ver em [1])'. 'No me fale sobre***! Ele explode de vaidade! (ver em [2])' 'Nunca li em toda minha vida nada mais 
chato que estes ensaios histricos sobre Napoleo na ustria! (ver em [3])'. Mas a alta posio que ocupa impede que exprima seus julgamentos nessa forma. Ele convoca 
pois o chiste em sua ajuda, o que lhe garante uma recepo, pelo ouvinte, nunca possvel em forma no chistosa, a despeito da verdade que possam conter. Um desses 
chistes  particularmente instrutivo - aquele sobre o 'vermelho Fadian' (ver em [4]), talvez o mais impressionante de todos. O que haver nele que nos faz rir e 
desvia to completamente nosso interesse da possvel injustia que se esteja fazendo ao pobre autor? A forma chistosa, naturalmente - o que vale dizer, o chiste. 
Mas do que ser que estamos rindo? Da pessoa em questo, sem dvida, a qual nos  apresentada como o 'vermelho Fadian', e em particular rimos do fato dessa pessoa 
ter os cabelos vermelhos. As pessoas educadas se impedem de rir dos defeitos fsicos e alm disso no incluem o cabelo ruivo entre os defeitos fsicos risveis. 
Mas no h dvida de que este  assim considerado pelos meninos de escola e pelo povo comum - sendo verdade mesmo para o nvel de educao de certos representantes 
municipais e parlamentares. Herr N. possibilitou ento, da maneira mais engenhosa, a ns, adultos e sensatos, rirmos como garotos de escola do cabelo ruivo do historiador 
X. Essa no era certamente a inteno de Herr N., mas  muito duvidoso que uma pessoa que d livre curso a um chiste conhea a precisa inteno deste.
         Se nesses casos o obstculo  agressividade que o chiste ajuda a evitar era interno - uma objeo esttica  invectiva -, em outra parte o obstculo pode 
ser de espcie puramente externa. Assim o caso em que o Serenssimo perguntou a um estranho, cuja semelhana com sua prpria pessoa o surpreendia: 'Sua me esteve 
alguma vez no Palcio?' e a resposta foi: 'No, mas meu pai esteve' (ver em [1]). A pessoa a quem se fazia tal pergunta gostaria sem dvida de derrubar a socos o 
impertinente indivduo que ousara, atravs da aluso, lanar uma mancha sobre a memria de sua me bem amada. Mas o indivduo impertinente era o Serenssimo, a quem 
no se poderia socar ou mesmo insultar a no ser que se estivesse preparado a comprar uma vingana a preo da prpria existncia. Portanto o insulto devia aparentemente 
ser engolido em silncio. Mas afortunadamente um chiste mostra a maneira pela qual o insulto pode ser seguramente vingado - utilizando o mtodo tcnico da unificao 
para aceitar a aluso e devolv-la ao agressor. Fica aqui a impresso de que um chiste  to determinado por seu propsito que, em face do carter chistoso da rplica, 
inclinamo-nos por esquecer que a pergunta feita pelo agressor tem ela prpria o carter de um chiste com a tcnica da aluso.
         A preveno das invectivas ou das rplicas insultuosas por circunstncias externas  um caso to comum que os chistes tendenciosos so especialmente utilizados 
para possibilitar a agressividade ou a crtica contra pessoas em posies elevadas, que reivindicam o exerccio da autoridade. O chiste assim representa uma rebelio 
contra tal autoridade, uma liberao de sua presso. O fascnio das caricaturas baseia-se no mesmo fator: rimos delas, mesmo se malsucedidas, simplesmente porque 
consideramos um mrito a rebelio contra a autoridade.
         Se temos em mente o fato de que os chistes tendenciosos so altamente adequados para ataque aos grandes, aos dignitrios, aos poderosos, que so protegidos 
da degradao direta por inibies internas e circunstncias externas, somos obrigados a levar em especial considerao certos grupos de chistes que parecem se dirigir 
aos inferiores, s pessoas indefesas. Estou pensando nas anedotas sobre os agentes matrimoniais, algumas das quais ficamos conhecendo no curso de nossa investigao 
das vrias tcnicas de chistes conceptuais. Em algumas delas, como nos exemplos 'Ela  surda tambm' (ver em [1]) e 'Quem emprestaria alguma coisa a essas pessoas?' 
[[loc. cit.], o agente  alvo de riso por sua imprevidncia e desateno, tornando-se cmico porque a verdade lhe escapa como que automaticamente. Mas que sabemos 
agora sobre a natureza dos chistes, por um lado, e, por outro lado, como h de se coadunar a magnitude do deleite que nos proporcionam essas histrias com a insignificncia 
das pessoas que so aparentemente alvo de riso nesses chistes? Sero essas pessoas dignos adversrios dos chistes? No ser antes o caso de que os chistes s trazem 
ao primeiro plano os agentes matrimoniais para ferir algo mais importante? No ser o caso de dizer uma coisa e significar outra? Realmente no  possvel rejeitar 
essa perspectiva.
         Deve-se levar adiante esta interpretao das anedotas de agentes.  verdade que no h necessidade de me aprofundar nelas, podendo me contentar em considerar 
essas anedotas 'Schawnke [histrias engraadas]' e negar que tenham carter de chiste. Pois os chistes tambm podem ter um determinante subjetivo dessa espcie. 
Nossa ateno agora se dirige para tal possibilidade e teremos que examin-la depois [Captulo V]. Tal possibilidade declara que s  um chiste o que eu permito 
que seja um chiste. Aquilo que  chiste para mim pode ser meramente uma histria cmica para outras pessoas. Mas se um chiste admite essa dvida s pode ser pela 
razo de que tenha uma fachada - nestes casos, cmica - cuja contemplao satisfaz uma pessoa enquanto outra pode tentar inquirir por trs dela. Emerge, alm disso, 
a suspeita de que tal fachada tencione deslumbrar a mirada inquisitiva, tendo essas histrias alguma coisa a ocultar.
         De qualquer modo, se nossas anedotas de agentes matrimoniais so chistes, graas a sua fachada, elas esto em condies de ocultar no apenas o que tenham 
a dizer mas tambm o fato de que haja algo - proibido - a dizer. A continuao da interpretao - que descobre o sentido escondido e revela essas anedotas com uma 
fachada cmica como sendo chistes tendenciosos - seria a seguinte. Quem quer que permita  verdade escapar em um momento de distrao, em realidade se alegra por 
livrar-se da mentira. Eis um correto e profundo insight psicolgico. Sem essa concordncia interna ningum se deixa controlar pelo automatismo que nestes casos traz 
a verdade  luz. Isso converte a risvel figura do Schadchen em simptica, merecedora de pena. Quo feliz o homem deve estar por ter podido afinal se descartar da 
carga de mentira, j que utiliza a primeira oportunidade para proclamar algum fragmento da verdade! To logo v que o caso est perdido, que a noiva no agrada o 
jovem, prazerosamente confessa um outro defeito ainda oculto que escapara  observao, ou aproveita a oportunidade de argumentar exprimindo com detalhes o desprezo 
que lhe inspiram as pessoas para quem trabalha: 'Eu lhe pergunto - quem emprestaria alguma coisa a essa gente?'. Todo ridculo da anedota agora recai sobre os pais, 
nela postos a descoberto, os quais pensam justificvel a trapaa para arranjar um marido para a filha, ou recai sobre a desprezvel situao das moas que se deixam 
dessa forma ser levadas ao casamento, ou ainda recai sobre a desgraa dos casamentos contratados em tais bases. O agente matrimonial  o homem certo para expressar 
tais crticas, pois  quem mais conhece esses abusos; mas ele no pode mencion-los abertamente, pois  um homem pobre cuja existncia depende de explor-los. A 
mente popular, que criou essas histrias e outras semelhantes, est dilacerada por conflito similar pois bem sabe que a santidade dos casamentos assim contratados 
est cruelmente afetada pelo pensamento do que acontecera na poca em que foram arranjados.
         Recordemos tambm o que observamos enquanto investigando a tcnica dos chistes: nestes, o nonsense freqentemente substitui o ridculo e a crtica presentes 
nos pensamentos que subjazem ao chiste (ver em [1]). (A esse respeito, incidentalmente, a elaborao do chiste opera tal qual a elaborao do sonho.) Aqui encontramos 
confirmado o fato mais uma vez. Que o ridculo e a crtica no se dirigem  pessoa do agente matrimonial, que s aparece nos exemplos citados como um bode expiatrio, 
 demonstrado por outra classe de chistes em que o agente matrimonial  representado, inversamente, como uma pessoa superior cujos poderes dialticos o capacitam 
a superar qualquer dificuldade. So anedotas com uma fachada lgica ao invs de cmica - sofisticados chistes conceptuais. Em um deles (Ver em [2].) o agente consegue, 
na discusso, descartar o defeito da noiva: ser coxa. Tratava-se pelo menos de um 'fait accompli': uma outra esposa, com membros direitos correria, pelo contrrio, 
o constante risco de cair e quebrar a perna, a que se seguiria doena, dores, despesas de tratamento, tudo o que seria poupado se a mulher j fosse coxa. H tambm 
uma outra anedota (ver em [3]), em que o agente consegue repelir toda uma srie de queixas feitas contra a noiva pelo pretendente, escorando cada qual com um bom 
argumento, at que chegando a uma ltima,  qual nada se pode contrapor, ele replica: 'O que voc quer? Ela no pode ter afinal um nico defeito?', como se necessariamente 
nada tivesse restado das objees anteriores. No  difcil indicar o ponto fraco da argumentao nesses dois exemplos, o que fizemos ao examinar sua tcnica. Mas 
o que nos interessa  um pouco diferente. Se se concede  fala do agente uma aparncia lgica to marcante que,  examinao detalhada,  reconhecida como apenas 
aparncia, a verdade subjacente  que o chiste declara a correo do procedimento do agente; o contedo no se aventura a faz-lo seriamente mas substitui a seriedade 
pela aparncia que o chiste apresenta. Mas aqui, como freqentemente ocorre, um gracejo delata algo srio. No nos equivocaremos se admitirmos que todas essas anedotas 
com uma fachada lgica pretendem dizer o que realmente asseveram, por razes intencionalmente defeituosas.  s o emprego do sofisma como representao disfarada 
da verdade que lhe d o carter de chiste, tornando-o assim essencialmente dependente de seu propsito. Pois o que se insinua nas duas anedotas  que  realmente 
o pretendente quem se cobre de ridculo quando coleciona as diferentes qualidades da noiva com tanto cuidado, embora sejam todas negativas, pois quando faz isso, 
est se esquecendo que devia estar preparado para tomar como esposa um ser humano com seus inevitveis defeitos; por outro lado, a nica caracterstica que tornaria 
tolervel o matrimnio com uma mulher de personalidade mais ou menos imperfeita - a atrao mtua e a disponibilidade para uma adaptao afetuosa -  deixada fora 
de toda a transao.
         A zombaria dirigida ao pretendente nesses exemplos, nos quais o agente muito apropriadamente faz a parte do superior,  expressa muito mais claramente em 
outras anedotas. Quanto mais claras as histrias sejam, menos tcnica de chiste contm; so apenas casos de chistes marginais cuja tcnica nada mais tem em comum 
(com os chistes) que a construo de uma fachada. Mas devido ao fato de terem o mesmo propsito e por se esconderem por detrs de uma fachada, produzem todo o efeito 
de um chiste. Alm disso, a pobreza de seus mtodos tcnicos explica porque muitos desses chistes no podem, sem sofrer dano, dispensar o elemento dialetal, cujo 
efeito  similar  tcnica do chiste.
         Uma histria desse tipo que, embora possuindo toda a fora de um chiste tendencioso, nada exibe de sua tcnica  a seguinte: 'O agente matrimonial perguntou: 
"O que voc requer de sua noiva?". Resposta: "Ela deve ser bonita, rica e educada". "Muito bem", disse o agente, "mas isso eu considero como fazer trs casamentos."' 
Nesse caso a repreenso ao homem  liberada abertamente, no mais vestida como um chiste.
         Nos exemplos at agora considerados, a agressividade disfarada dirigia-se contra pessoas - nos chistes do agente, contra algum envolvido no negcio de 
arranjar casamento: o noivo, a noiva e seus pais. Mas o objeto de ataque pelo chiste pode ser igualmente instituies, pessoas enquanto representantes de instituies, 
dogmas morais ou religiosos, concepes de vida que desfrutam de tanto respeito que s sofrem objees sob a mscara do chiste e, mesmo, de um chiste ocultado por 
sua fachada. Embora os temas a que estes chistes tendenciosos se dirijam sejam poucos, suas formas e invlucros podem ser muitos e diversos. Penso que devamos distinguir 
essa classe de chistes tendenciosos por meio de um nome especial. O nome apropriado emergir depois que tenhamos interpretado alguns exemplos.
         Posso recordar duas histrias - uma do gourmet empobrecido que foi apanhado comendo 'maionese de salmo' (ver em [1]) e a outra do tutor dipsomanaco (ver 
em [2]) - que aprendemos a considerar chistes sofsticos e deslocamento. Continuarei agora sua interpretao. J sabemos que se o aparecimento da lgica  anexado 
como suplemento  fachada da histria, o pensamento que se gostaria de exprimir seriamente  'o homem est certo', o qual, devido  contradio oponente, no nos 
atrevemos a declarar, exceto em um nico ponto, em que  facilmente possvel demonstrar que ele est errado. O 'ponto' escolhido  o correto compromisso entre sua 
integridade e seu erro; a isso efetivamente no corresponde qualquer deciso e sim o conflito dentro de ns mesmos. As duas anedotas so simplesmente epicurescas. 
Elas dizem: 'Bem, o homem est certo. Nada  mais importante que o prazer e pouco importa como obt-lo'. Isto soa chocantemente imoral e de fato no  mais que isso. 
Mas no fundo no  mais que o 'Carpe diem' do poeta, que invoca a incerteza da vida e a esterilidade da renncia virtuosa. Se a idia de que o homem no chiste da 
'maionese de salmo' est certo tem sobre ns efeito to repelente, isso se d apenas porque a verdade  ilustrada por um prazer de nvel inferior, que nos parece 
facilmente dispensvel. Em realidade cada um de ns tem momentos em que admite a correo dessa filosofia de vida, reprovando a doutrina moral, ao aproveitar a vida 
sem esperar que ela oferea qualquer compensao. J que deixamos de acreditar na promessa de uma outra vida na qual toda renncia ser recompensada - h incidentalmente 
muito poucas pessoas piedosas se tomamos a renncia como signo de f -, 'Carpe diem' torna-se uma sria advertncia. De bom grado eu adiaria a satisfao, mas como 
saber se ainda estarei aqui amanh? 'Di doman' non c' certezza.'
         De bom grado renunciaria a todos os mtodos de satisfao proscritos pela sociedade, mas como saber que a sociedade recompensar tal renncia oferecendo-me 
um dos mtodos permitidos - mesmo ao preo de um certo adiamento? O que estes chistes sussurram pode ter dito em voz alta: que as vontades e desejos dos homens tm 
o direito de se tornarem aceitveis ao lado de uma moralidade severa e cruel. Atualmente se tem dito em sentenas estimulantes e fortes que a moralidade  apenas 
uma prescrio egostica postulada pelos poucos que so ricos e poderosos e que podem satisfazer suas vontades a qualquer tempo, sem adiamento. Na medida em que 
a arte de curar no tem prosseguido em assegurar (a eternidade de) nossa vida e na medida em que os arranjos sociais no a tm tornado mais agradvel, ser impossvel 
sufocar dentro de ns a voz que se rebela contra as exigncias da moralidade. Todo homem honesto acabar admitindo isso, a menos para seu uso prprio. A deciso 
face a esse conflito s pode ser alcanada pelo caminho indireto de um novo insight. Deve-se jungir a prpria vida  vida dos outros to intimamente e poder identificar-se 
com eles de tal maneira que a brevidade da prpria vida seja vencida; no se deve, pois, satisfazer s exigncias das prprias necessidades ilegitimamente, mas antes 
deix-las insatisfeitas porque s a continuidade de tantas exigncias insatisfeitas h de desenvolver o poder de mudana da ordem social. Mas nem toda necessidade 
pessoal pode dessa forma ser adiada e transferida s outras pessoas, no havendo assim soluo geral e final para o conflito.
         Sabemos agora o nome que deve ser dado a chistes como aqueles que por ltimo interpretamos. So chistes cnicos e disfaram cinismos.
         Entre as instituies habitualmente atacadas pelos chistes cnicos, nenhuma  mais importante, mais estritamente guardada pelos cdigos morais e ao mesmo 
tempo mais convidativa a um ataque, que a instituio do casamento,  qual, pois, se dirige a maioria dos chistes cnicos. No existe reivindicao mais pessoal 
que a da liberdade sexual e em nenhum outro ponto a civilizao exerceu supresso mais severa que na esfera da sexualidade. Um nico exemplo ser suficiente para 
nossos objetivos - aquele mencionado em [1], 'Um registro no lbum de Carnaval do Prncipe':
         'Uma esposa  como um guarda-chuva; mais cedo ou mais tarde toma-se um txi.'
         J discutimos a complicada tcnica desse exemplo: um smile desconcertante e aparentemente impossvel que entretanto no constitui, como vimos, um chiste 
em si mesmo; depois, uma aluso (um txi  um veculo pblico); e, como mtodo tcnico mais poderoso, uma omisso que aumenta a inteligibilidade. O smile pode ser 
elaborado como segue. A pessoa se casa para se proteger contra as tentaes de sensualidade, mas no obstante resulta que o casamento no permite a satisfao de 
necessidades que sejam algo mais fortes que o comum. Exatamente do mesmo modo, toma-se um guarda-chuva para se proteger da chuva e mesmo assim fica-se molhado na 
chuva. Em ambos os casos deve-se buscar em outra parte uma proteo mais forte: no ltimo caso toma-se um veculo pblico e no primeiro, uma mulher que  disponvel 
a troco de dinheiro. O chiste foi tornado agora quase inteiramente uma pea cnica. Ningum se aventura a declarar franca e abertamente que o casamento no  um 
arranjo planejado para satisfazer a sexualidade do homem, a no ser que se seja forado a faz-lo, talvez por amor  verdade e zelo reformador como o de Chistian 
von Ehrenfels. A fora desse chiste consiste no fato de que, no obstante - atravs de todas as vias transversas - isso tenha sido declarado.
         Uma ocasio particularmente favorvel a chistes tendenciosos  apresentada quando a pretendida crtica rebelde dirige-se contra o prprio sujeito, ou para 
diz-lo com mais cautela, contra algo que o sujeito partilha - ou seja, ao sujeito enquanto uma pessoa coletiva (a prpria nao do sujeito, por exemplo). A ocorrncia 
da autocrtica como determinante pode explicar como  que inmeros dos mais adequados chistes (dos quais temos uma grande quantidade de exemplos) tenham germinado 
no solo da vida popular judia. So chistes criados por judeus e dirigido contra caractersticas dos judeus. Os chistes sobre judeus elaborados por estrangeiros so 
em geral histrias brutalmente cmicas em que o chiste  tornado dispensvel pelo fato de que os judeus so considerados pelos estrangeiros como figuras cmicas. 
Os chistes judeus, originrios de judeus, admitem isso tambm, mas conhecem seus verdadeiros defeitos tanto quanto a conexo destes com suas boas qualidades, e a 
parte em comum entre o sujeito do chiste e a pessoa flagrada em erro cria o determinante subjetivo (usualmente, de difcil acesso) da elaborao do chiste. (Ver 
em [1].) Incidentalmente no sei se h muitos outros casos em que as pessoas fazem troa, em tal grau, de seu prprio carter.
         Como um exemplo disso posso tomar a anedota (ver em [2]) de um judeu em um trem de ferro, que prontamente abandona toda compostura to logo descobre que 
o recm-chegado a seu compartimento partilha suas crenas. Entramos em contato com essa anedota como evidncia da demonstrao por um detalhe, da representao por 
uma mincia. Pretende retratar a democrtica maneira de pensar dos judeus, que no reconhecem distino entre senhores e servos, mas que apesar disso tambm subvertem 
a disciplina e a cooperao.
         
         Um outro grupo de chistes, especialmente interessante, retrata a relao entre um judeu rico e um pobre. Os heris so o 'Schnorrer [mendigo]' e o caridoso 
chefe de famlia ou o Baro.
         'Um Schnorrer, que era admitido como conviva na mesma casa todo domingo, apareceu um dia acompanhado de um jovem desconhecido que dava sinais de estar pronto 
para sentar-se  mesa. "Quem  este?", perguntou o dono da casa. " meu genro desde a semana passada", foi a resposta. "Eu lhe prometi penso durante o primeiro 
ano."'
         O objetivo dessas histrias  sempre o mesmo, que emerge mais claramente na prxima:
         'O Schnorrer pediu ao Baro algum dinheiro para uma viagem a Ostend; seu mdico recomendara-lhe banhos de mar como remdio para seus males. O Baro achou 
Ostend um balnerio particularmente dispendioso; um mais barato resolveria igualmente. O Schnorrer, entretanto, rejeitou a proposta com essas palavras: "Herr Baro, 
no considero nada caro demais quando se trata de minha sade''.' Este  tambm um excelente chiste de deslocamento, que podamos tomar como modelo para aquela classe. 
O Baro evidentemente quer economizar seu dinheiro, mas o Schnorrer responde como se o dinheiro do Baro fosse seu, podendo lhe emprestar bem menos valor que  sua 
sade. Espera-se aqui que riamos da impertinncia do pedido, mas s raramente esses chistes deixam de ser equipados com uma fachada para desencaminhar a compreenso. 
A verdade subjacente  que o Schonorrer, que em pensamentos trata como seu o dinheiro do homem rico, realmente tem, de acordo com os sagrados preceitos dos judeus, 
quase que direito a tal confuso. A indignao suscitada por esse chiste  naturalmente dirigida contra a Lei, altamente opressiva mesmo com pessoas piedosas.
         Eis aqui outra anedota:
         'Um Schnorrer em seu caminho at a escada de um homem rico, encontrou um colega de profisso que lhe aconselhou a no prosseguir: "No suba hoje", disse 
ele, "o Baro est de mau humor: no est dando a ningum mais que um florim." - "Subo l de qualquer jeito", disse o primeiro Schnorrer. "Por que devo dar-lhe um 
florim? Ele me d alguma coisa?"'
         Este chiste emprega a tcnica do absurdo, j que faz o Schnorrer asseverar que o Baro nada lhe d no exato momento em que se prepara para pedir-lhe esmola. 
Mas o absurdo  apenas aparente. Quase  verdade dizer que o homem rico nada lhe d, j que a Lei o obriga a dar esmolas, devendo ser, estritamente falando, grato 
quele que lhe proporciona a oportunidade da beneficncia. A concepo ordinria, classe mdia, de caridade entra em conflito com a religiosa e se rebela mesmo abertamente 
contra ela em outra histria do Baro que, profundamente tocado pela narrao da desgraa do Schnorrer, convoca seus servos: 'Joguem-no fora: ele est partindo meu 
corao!'. A aberta revelao de seu propsito constitui ainda uma vez um caso marginal de chiste. Apenas pelo fato de que apresentem o assunto aplicado a casos 
individuais  que essas ltimas histrias diferem de uma queixa que no seja um chiste: 'Realmente no h nenhuma vantagem em ser rico quando se  um judeu. A misria 
dos outros torna impossvel desfrutar a prpria felicidade'.
         Outras histrias, que so ainda uma vez casos tecnicamente fronteirios aos chistes, evidenciam um cinismo profundamente pessimista. Por exemplo:
         'Um homem que escutava mal consultou o mdico que diagnosticou corretamente que o paciente bebia brandy demais e, devido a isso, ensurdecera. Recomendou-lhe 
parar com a bebida e o surdo prometeu levar a srio o conselho. Aps algum tempo o mdico encontrou-o na rua e perguntou-lhe em voz alta como estava passando. "Obrigado", 
foi a resposta. "No precisa falar to alto, doutor. Desisti de beber e ouo muito bem outra vez." Pouco tempo depois eles se encontraram novamente. O mdico perguntou-lhe 
como estava, num tom de voz normal, mas notou que a pergunta no fora bem entendida. "Qu? O que foi?" - "Parece que voc anda bebendo brandy outra vez", gritou 
o mdico em seu ouvido, "e por causa disso voc est surdo outra vez." "Voc pode estar certo", respondeu o surdo. "Eu recomecei a beber brandy e vou lhe dizer por 
qu. Enquanto no bebia fui capaz de escutar, mas nada do que escutei era to bom como o brandy."' Tecnicamente esse chiste nada mais  que uma lio objetiva: para 
suscitar o riso  necessrio manter o dialeto ou possuir habilidade, mas no fundo fica a triste questo: no ter sido tal homem feliz em sua escolha?
         Devo classificar como chistes tendenciosos essas histrias pessimistas em vista da aluso que elas fazem s diversas e desesperanadas misrias dos judeus.
         Outros casos de chistes, igualmente cnicos, e que incluem mais que anedotas de judeus, atacam dogmas religiosos e mesmo a crena em Deus. A histria do 
'Kck' do Rabino (ver em [1]) cuja tcnica consiste no raciocnio falho, que faz se equivalerem fantasia e realidade (uma outra perspectiva possvel seria consider-la 
como deslocamento),  um chiste cnico, ou crtico, desse tipo, dirigido contra os milagreiros e decerto tambm dirigido contra a crena em milagres. Diz-se de Heine 
ter feito um chiste blasfemo em seu leito de morte. Quando um padre amvel lembrou-lhe a graa de Deus e deu-lhe esperanas de que Deus perdoaria seus pecados, diz-se 
que ele replicou: ''Bien sr qu'il me pardonnera: c'est son mtier'. Esta  umacomparao degradante (tendo tecnicamente talvez apenas um valor de aluso), j que 
ter um 'mtier', um ofcio ou profisso,  caracterstica de um trabalhador ou um mdico - e ele (Deus) tem apenas um mtier. Mas a fora do chiste consiste em seu 
propsito. O que se pretende dizer nada mais  que: 'Naturalmente ele vai me perdoar.  para isso que est l e esta  a nica razo pela qual o emprego (como quem 
contrata um mdico ou um advogado)'. Portanto no moribundo, quando jaz impotente, acende-se a conscincia de que criara um Deus e o dotara de certo poder para utiliz-lo 
quando surgisse a ocasio. O que se supunha ser a criatura revela-se, no prprio instante de sua aniquilao, como criador.
         
         
         s classes de chistes tendenciosos que consideramos at agora - chistes obscenos ou desnudadores, chistes agressivos (hostis), chistes cnicos (blasfemos, 
crticos) - gostaria de acrescentar uma quarta e mais rara, cuja natureza pode ser ilustrada por um bom exemplo:
         'Dois judeus encontraram-se num vago de trem em uma estao na Galcia. "Onde vai?" perguntou um. " Cracvia", foi a resposta. "Como voc  mentiroso!", 
no se conteve o outro. "Se voc dissesse que ia  Cracvia, voc estaria querendo fazer-me acreditar que estava indo a Lemberg. Mas sei que, de fato, voc vai  
Cracvia. Portanto, por que voc est mentindo para mim?"'
         Essa excelente histria, que impressiona pelo extremo refinamento, opera evidentemente pela tcnica do absurdo. O segundo judeu  censurado por mentir porque 
diz estar indo  Cracvia que  seu verdadeiro destino! Mas o poderoso mtodo tcnico do absurdo conecta-se aqui  outra tcnica, a representao pelo oposto, pois 
de acordo com a assero no contraditada do primeiro judeu, o segundo est mentindo quando fala a verdade e fala a verdade por meio da mentira. Mas a mais sria 
substncia do chiste  o problema do que determina a verdade. O chiste, uma vez mais, aponta para um problema assim como faz uso da ambigidade de um dos nossos 
conceitos mais comuns. Estaremos certos em descrever as coisas tal qual so sem nos importarmos em considerar a forma pela qual nosso ouvinte entender o que dissermos? 
Ou ser essa uma verdade jesutica, a verdade autntica consistindo em levar o interlocutor em considerao, fornecendo-lhe um quadro fiel de nosso prprio conhecimento? 
Acho que os chistes desse tipo divergem suficientemente dos demais para que lhes seja conferida posio especial. O que eles atacam no  uma pessoa ou uma instituio, 
mas a prpria certeza de nosso conhecimento, uma de nossas capacidades especulativas. O nome que lhes caberia mais apropriado seria portanto o de chistes 'cticos'.
         
         No curso de nossa discusso dos propsitos dos chistes esclarecemos talvez inmeras questes e encontramos certamente bastante sugestes para investigaes 
futuras. Mas as descobertas desse captulo combinam-se com as do captulo anterior ao nos apresentar um difcil problema. Se  correto dizer que o prazer decorrente 
dos chistes depende, por um lado, de sua tcnica e por outro lado, de seu propsito, qual o ponto de vista comum em que convergem fontes de prazer to diferentes?
         
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       B. PARTE SINTTICA
         
         
         IV - O MECANISMO DO PRAZER E A PSICOGNESE DOS CHISTES
         
         Podemos agora partir de um assegurado conhecimento das fontes do prazer peculiar que os chistes nos proporcionam. Estamos cientes de que podemos ser enganados 
ao confundir nossa fruio do contedo intelectual que  afirmado com o prazer prprio aos chistes; mas sabemos que o prprio prazer tem no fundo duas fontes - a 
tcnica e os propsitos dos chistes. O que queremos agora descobrir  o modo pelo qual o prazer procede destas fontes, o mecanismo do efeito de prazer.
         Penso que encontraremos a explicao que buscamos muito mais facilmente com respeito aos chistes tendenciosos do que para os inocentes. Comearemos portanto 
pelos primeiros.
         No caso de um chiste tendencioso o prazer procede da satisfao de um propsito cuja satisfao, de outra forma, no seria levada a efeito. O fato de que 
uma tal satisfao seja uma fonte do prazer no requer ulterior comentrio. Mas o modo pelo qual um chiste leva a tal satisfao predispe certas condies a partir 
das quais talvez possamos chegar a mais alguma informao. Dois casos aqui devem ser distinguidos. O mais simples  aquele onde se ope  satisfao do propsito 
algum obstculo externo que  contornado pelo chiste. Um exemplo desse caso  a resposta recebida pelo Serenssimo  pergunta se a me de seu interlocutor houvera 
j vivido no Palcio (ver em [1]) e a repreenso do crtico aos dois ricos pilantras que lhe mostravam seus retratos: 'Mas onde est o Salvador?' (ver em [2]). No 
primeiro caso o propsito era o de responder a um insulto com outro e no ltimo tratava-se de enunciar um insulto ao invs do tributo que era solicitado. Os fatores 
opostos ao propsito so puramente externos - a posio de poder das pessoas a quem os insultos se dirigiam. Pode entretanto surpreender-nos o fato de que, embora 
esses chistes e outros de natureza anloga possam nos satisfazer, no sejam capazes de provocar muito riso.
         
         Ocorre diferentemente quando o fator que se antepe  dita realizao do propsito no  externo e sim um obstculo interno, isto , quando um impulso interno 
se contrape ao propsito. Tal condio pareceria, segundo nossa hiptese, preenchida nos chistes de Herr N., nos quais uma forte inclinao  invectiva  posta 
em xeque por uma cultura esttica altamente desenvolvida. Com o auxlio de um chiste a resistncia interna  vencida no caso particular e a inibio suspensa. De 
toda forma, como no caso do obstculo externo, a satisfao do propsito  possibilitada tanto quanto se evita sua supresso e o 'estancamento psquico' que esta 
ltima envolveria. Quanto  extenso, o mecanismo de gerao do prazer seria o mesmo nos dois casos.
         Contudo, inclinamo-nos aqui a aprofundar as distines entre a situao psicolgica nos casos de obstculo interno e externo, pois suspeitamos que a remoo 
de um obstculo interno possa fazer contribuio incomparavelmente mais alta ao prazer. Mas sugiro que aqui exeramos a moderao e nos satisfaamos por enquanto 
em estabelecer o que, para ns, permanece sendo o ponto essencial. Os casos de um obstculo externo e interno s diferem em que, no ltimo, seja suspensa uma inibio 
interna j existente e no primeiro se evite o aparecimento de uma nova. Sendo assim, no estaremos confiando demais na especulao se afirmamos que tanto para erigir 
como para manter uma inibio psquica se requer alguma 'despesa psquica'. E j que sabemos que em ambos os casos de uso dos chistes tendenciosos obtm-se prazer, 
 plausvel portanto supor que esta produo de prazer corresponde  despesa psquica que  economizada.
         Temos ento, aqui, uma vez mais defrontado o princpio da economia que encontramos primeiro ao discutir a tcnica dos chistes verbais (ver em [1]). Mas 
enquanto nesse primeiro caso parecamos encontrar a economia no uso de to poucas palavras quanto possvel ou de palavras to mais parecidas quanto possvel, suspeitamos 
agora de uma economia no sentido, muito mais compreensivo, da despesa psquica em geral; devemos considerar como possvel que uma compreenso mais detalhada do conceito 
ainda muito obscuro de 'despesa psquica' possa nos levar mais perto da natureza essencial dos chistes.
         Aquela falta de claridade, que fomos at aqui incapazes de vencer em nosso exame do mecanismo do prazer, pode ser tomada como apropriada punio por tentarmos 
desvendar o problema mais complexo antes do mais simples, ou seja os chistes tendenciosos antes dos inocentes. Devemos atentar para o fato de que 'a economia na 
despesa relativa  inibio ou  supresso' parece ser o segredo do efeito de prazer dos chistes tendenciosos e se transmite ao mecanismo dos chistes inocentes.
         Baseados em espcimens adequados de chistes inocentes, onde no tememos ter nosso juzo perturbado por algum propsito ou contedo, somos levados a concluir 
que as prprias tcnicas dos chistes constituem fontes de prazer; e tentaremos agora descobrir se  possvel concluir que o prazer remonta  economia de despesa 
psquica. Em um grupo desses chistes (jogos de palavras) a tcnica consistia em focalizar nossa atitude psquica em relao ao som da palavra em vez de seu sentido 
- em fazer com que a apresentao (acstica) da palavra tomasse o lugar de sua significao, tal como determinada por suas relaes com as representaes das coisas. 
Pode-se justificadamente suspeitar que ao fazer isso estamos operando um grande alvio no trabalho psquico e que, ao utilizar as palavras seriamente, obrigamo-nos 
a um certo esforo ao nos abstermos desse procedimento confortvel. Podemos observar que os estados patolgicos da atividade do pensamento nos quais a possibilidade 
de concentrao de despesa psquica em um ponto particular  provavelmente restrita, atribuem efetivamente maior proeminncia a esse tipo de representao fnica 
da palavra que a seu sentido e que os pacientes em tais estados procedem, em seu discurso, em termos (como reza a frmula) de associaes 'externas' mais do que 
de associaes 'internas' da representao da palavra. Notamos tambm que as crianas, ainda acostumadas a tratar as palavras como coisas tendem a esperar que palavras 
idnticas ou semelhantes tenham, subjacente, o mesmo sentido - fato que  fonte de muitos equvocos dos quais os adultos se riem. Se derivamos, portanto, inequvoco 
deleite dos chistes ao nos transportarmos de um a outro crculo de idias, por vezes remoto, atravs do uso de palavra idntica, ou semelhante (no 'Home-Roulard', 
por exemplo (ver em [1]), passamos da cozinha  poltica), este deleite deve, sem dvida, ser corretamente atribudo  economia na despesa psquica. O prazer em 
um chiste, emergente de um tal 'curto-circuito', parece ser tambm maior quanto mais diferentes sejam os dois crculos de idias conectados pela mesma palavra - 
quanto mais longe estejam, maior  a economia que o mtodo tcnico do chiste fornece ao curso do pensamento. Podemos tambm notar aqui que os chistes esto utilizando 
um mtodo de conexo das coisas, rejeitado e cuidadosamente evitado pelo pensamento srio.
         
         Em um segundo grupo de mtodos tcnicos usados nos chistes - unificao, similaridade de som, uso mltiplo, modificao de expresses familiares, aluses 
a citaes - podemos isolar como caracterstica comum o fato de que, atravs de cada um deles, algo de familiar  redescoberto, onde poderamos, pelo contrrio, 
esperar algo de novo. A redescoberta do que  familiar  gratificante e mais uma vez no nos  difcil reconhecer esse prazer como um prazer obtido pela economia, 
relacionando-o  economia na despesa psquica.
         Parece que geralmente se concorda em que a redescoberta do que  familiar, o 'reconhecimento',  gratificante. Gross (1889, 153) escreve: 'O reconhecimento 
 sempre conectado a sentimentos de prazer, a no ser que esteja mecanizado demais (por exemplo, no ato de algum se vestir...) A simples qualidade da familiaridade 
 facilmente acompanhada pela calma sensao de conforto que Fausto sentiu quando, aps um encontro misterioso, retomou outra vez seu estudo [Faust, Parte I, Cena 
3.]... Se o ato do reconhecimento suscita de tal modo o prazer, poderamos esperar que aos homens ocorra a idia de exercerem essa capacidade por ela mesma - isto 
, a experimentariam como um jogo. De fato, Aristteles considerou a alegria (procedente) do reconhecimento como o fundamento do prazer esttico, e  indiscutvel 
que no se deva desconsiderar esse princpio mesmo que ele no possua a abrangente importncia que lhe foi atribuda por Aristteles.
         Gross continua a discutir jogos cuja caracterstica consiste no fato de que intensificam a alegria (proveniente) do reconhecimento opondo obstculos a este 
ltimo - o que vale dizer, criando um 'estancamento psquico', liberado pelo ato do reconhecimento. Sua tentativa de explicao, contudo, abandona a hiptese de 
que o reconhecimento seja gratificante em si mesmo, j que, referindo esses jogos, faz remontar o prazer do reconhecimento a uma alegria de poder, uma alegria pela 
superao de uma dificuldade. Considero o ltimo fator como secundrio e no vejo razo para descartar a concepo mais simples de que o reconhecimento seja gratificante 
em si mesmo - i.e., atravs do alvio de uma despesa psquica - e que os jogos fundados neste prazer utilizem o mecanismo do estancamento apenas para aumentar o 
montante de tal prazer.
         Em geral reconhece-se tambm que as rimas, aliteraes, refres, e as outras maneiras de repetio de sons verbais semelhantes que ocorrem em versos utilizam 
a mesma fonte de prazer - a redescoberta de algo familiar. O 'sentimento de poder' no desempenha um papel perceptvel nessas tcnicas, muitssimo similares quela 
do 'uso mltiplo' nos chistes.
         Em vista da ntima conexo entre reconhecimento e rememorao, no  temerrio supor que possa haver tambm um prazer na rememorao - que o ato de recordar 
seja em si mesmo acompanhado por um sentimento de prazer de origem semelhante. Gross no parece ser avesso a tal hiptese, derivando-a entretanto, uma vez mais, 
do 'sentimento de poder', ao qual atribui (a meu ver, erradamente) a principal razo do prazer em quase todos os chistes.
         A 'redescoberta do que  familiar'  o fundamento da utilizao de um outro recurso nos chistes, ainda no mencionado. Refiro-me ao fator 'atualidade', 
frtil fonte de prazer da grande parte dos chistes, bem como explicativa de algumas peculiaridades na histria da vida dos chistes. H chistes completamente independentes 
dessa condio e, em uma monografia sobre chistes, somos obrigados a fazer uso quase exclusivo de chistes dessa espcie. No podemos esquecer que, em comparao 
com os chistes perenes, talvez nos riamos mais francamente daqueles que ora nos so de difcil uso porque requerem comentrios mais extensos e mesmo com tal ajuda 
no produziriam seu efeito original. Tais chistes contm aluses a pessoas e eventos que foram quela poca 'atuais', despertando o interesse geral e ainda o mantendo 
vivo. Quando esse interesse cessa e o assunto em questo fica sedimentado tais chistes perdem tambm parte de seu efeito gratificante, parte alis bem considervel. 
Por exemplo, o chiste feito por meu cordial anfitrio, chamando de 'Home-Roulard' o pudim que estava sendo servido (ver em [1]) no me parece hoje to bom quanto 
no dia, em que a 'Home Rule' era uma destacada manchete nas colunas polticas de nossos jornais dirios. Tentando avaliar os mritos desse chiste, agora os atribuo 
ao fato de que uma nica palavra transportou-nos em pensamento, economizando longo rodeio, do crculo de idias da cozinha para o das remotas idias polticas. Mas 
ao mesmo tempo minha descrio deveria ter sido diferente, devendo eu ter dito que aquela palavra nos transportava do crculo de idias culinrias para as polticas, 
muito distante delas, assegurando entretanto nosso vvido interesse porque estvamos constantemente envolvidos nela (na discusso poltica). Um outro chiste, 'Esta 
garota faz-me lembrar Dreyfus; ningum no exrcito acredita em sua inocncia' (ver em [2]), est hoje esmaecido, embora seus mtodos tcnicos permanecessem inalterados. 
O desconcerto causado pela comparao e o double entendre na palavra 'inocncia' no podem compensar o fato de que a aluso,  poca tocando em um evento catexizado 
de recente excitao, hoje recorda uma questo liquidada. Eis um chiste que  ainda atual: 'A Princesa Real Louise aproximou-se do crematrio em Gotha perguntando 
quanto custava uma Verbrennung [cremao]. O gerente respondeu: "Normalmente, cinco mil marcos; mas  senhora lhe custar apenas trs mil por j ter sido durchgebrannt 
[literalmente 'ter sido queimada', gria para 'ter fugido'] uma vez.".' Um chiste como esse hoje nos soa irresistvel; a curto prazo perder substancialmente nossa 
estima: pouco tempo mais tarde, a despeito de constituir um bom jogo de palavras, perder seu efeito inteiramente, sendo da impossvel repeti-lo sem acrescentar 
um comentrio explicativo de quem fora a Princesa Louise e em que sentido fora ela durchgebrannt.
         
         Assim ocorre com grande nmero de chistes em circulao durante certo perodo de sua vida: esta segue um curso que consiste em um perodo de florescimento 
e em outro de decadncia, que termina no completo esquecimento. A necessidade sentida pelos homens de derivar prazer de seus processos de pensamento est portanto 
criando constantemente novos chistes baseados nos novos interesses do dia. A fora vital dos chistes atuais no  deles prprios;  tomada por emprstimo, em virtude 
da aluso, a outros interesses, cuja expirao determina tambm o destino do chiste. O fator atualidade  uma fonte de prazer, efmera,  verdade, mas particularmente 
abundante, que suplementa as fontes inerentes ao prprio chiste. No se pode simplesmente faz-la equivaler  redescoberta do que  familiar. Antes, est envolvida 
com uma categoria particular do que  familiar, que possui alm do mais a caracterstica de ser novo, recente e intocado pelo esquecimento. Na formao dos sonhos, 
tambm, deparamos com uma especial preferncia pelo que  recente, no nos podendo escapar a suspeita de que a associao com o que  recente  recompensada, e pois 
facilitada, por uma peculiar bonificao de prazer.
         A unificao, que afinal no  outra coisa que uma repetio na esfera das conexes materiais, foi reconhecida especialmente por Fechner como fonte do prazer 
nos chistes. Este escreve (Fechner, 1897, 1, Captulo XVII): 'Em minha opinio a parte principal no campo que estamos considerando cabe ao princpio da conexo unificada 
das multiplicidades; esta, entretanto, requer apoio de determinantes auxiliares para que o prazer derivado em tais casos, com seu carter peculiar, possa transpor 
o limiar (mnimo)'.
         Em todos esses casos de repetio verbal das mesmas conexes ou do mesmo assunto, ou de redescoberta do que  familiar ou recente, parece impossvel evitar 
de derivar o prazer por sentido da economia na despesa psquica - desde que essa linha de abordagem se revele frutfera em elucidar detalhes e em alcanar novas 
generalidades. Estamos atentos para o fato de que ainda devemos esclarecer como  que a economia opera e qual o sentido da expresso 'despesa psquica'.
         O terceiro grupo de tcnicas de chistes - em sua maior parte, chistes conceptuais - que compreende raciocnios falhos, deslocamentos, absurdo, representao 
pelo oposto etc. pode,  primeira vista, parecer produzir uma impresso especial e no delatar qualquer afinidade com as tcnicas de redescoberta do que  familiar 
ou de substituio das associaes com objetos por associaes com palavras. Entretanto,  particularmente fcil fazer aqui operar a teoria da economia ou do alvio 
da despesa psquica.
         No se pe em dvida que  mais fcil e mais conveniente divergir de uma linha de pensamento que ento se assumia do que mant-la, tanto quanto  mais fcil 
confundir coisas diferentes do que contrast-las - de fato;  especialmente conveniente admitir como vlidos mtodos de inferncia que so rejeitados pela lgica 
e, finalmente, reunir palavras ou pensamentos sem respeitar a condio de que faam sentido. Disso no se pode duvidar; so precisamente essas as coisas feitas pelas 
tcnicas do chiste que estamos discutindo. No entanto, a hiptese de que um tal comportamento por parte da elaborao do chiste fornece uma fonte de prazer aparece-nos 
como estranha pois, exceto quanto aos chistes, qualquer funcionamento intelectual deficiente nos causa apenas desagradveis sentimentos defensivos.
         O 'prazer no nonsense', como podemos abreviadamente cham-lo,  encoberto na vida a srio at o ponto do desvanecimento. Para demonstr-lo, devemos investigar 
dois casos - um em que  ainda visvel, outro em que volta a tornar-se visvel: o comportamento de uma criana na aprendizagem (de sua lngua) e o comportamento 
de um adulto, cujo estado mental foi alterado toxicamente.
         O perodo em que uma criana adquire o vocabulrio da lngua materna proporciona-lhe um bvio prazer de 'experiment-lo brincando com ele', segundo as palavras 
de Gross (ver em [1]). Rene as palavras, sem respeitar a condio de que elas faam sentido, a fim de obter delas um gratificante efeito de ritmo ou de rima. Pouco 
a pouco esse prazer vai lhe sendo proibido at que s restam permitidas as combinaes significativas de palavras. Quando mais velho, tenta ainda emergir ao desrespeito 
das restries que aprendera sobre o uso de palavras. Estas so desfiguradas por pequenos acrscimos particulares que lhes faz, suas formas sendo alteradas por certas 
manipulaes (p. ex., por reduplicaes ou 'Zittersprache');  possvel mesmo a construo de uma linguagem secreta, para uso entre companheiros de brincadeira. 
Tais tentativas so reencontradas entre certas categorias de doentes mentais.
         Qualquer que seja o motivo que leva a criana a iniciar esses jogos, creio que, em seu desenvolvimento posterior, ela prpria desiste deles pela conscincia 
de que so absurdos, divertindo-se algum tempo com eles devido  atrao exercida pelo que  proibido pela razo. Usa agora tais jogos para se evadir da presso 
da razo crtica. Muito mais poderosas so as restries impostas  criana durante o processo educacional, quando se a introduz no pensamento lgico e na distino 
entre o que  falso e verdadeiro na realidade; por essa razo a rebelio contra a compulso da lgica e da realidade  profunda e duradoura. Mesmo o fenmeno da 
atividade imaginativa pode ser includo nessa categoria [rebelde]. O poder de crtica aumenta tanto na derradeira infncia e no perodo da aprendizagem, estendida 
alm da puberdade, que o prazer do 'nonsense liberado' s raramente ousa se manifestar diretamente. Ningum se aventura a dizer absurdos. Entretanto a tendncia 
caracterstica dos rapazes em dizer absurdos ou idiotices parece-me diretamente derivada do prazer no nonsense. Nos casos patolgicos vemos freqentemente essa tendncia 
ser intensificada a um tal grau que uma vez mais domina a conversa e as respostas dos escolares. Pude convencer-me, no caso de alguns garotos da escola secundria 
que desenvolveram neuroses, que as elaboraes inconscientes de seu prazer no nonsense no desempenharam parte menor em sua deficincia que a sua real ignorncia.
         Igualmente, mais tarde, os estudantes universitrios no prescindem destas demonstraes contra a compulso da lgica e da realidade, cujo domnio, entretanto, 
percebem crescentemente mais intolerante e irrestrito. Muitas das brincadeiras verbais dos estudantes fazem parte dessa reao. Pois o homem  um 'incansvel buscador 
do prazer' - esqueo-me onde deparei com essa feliz expresso -, qualquer renncia de um prazer j desfrutado  dura para ele. Com o eufrico nonsense de seu Bierschwefel, 
por exemplo, o estudante tenta recuperar seu prazer na liberdade de pensar, da qual vai sendo mais e mais privado pela aprendizagem da instruo acadmica. De fato, 
mesmo muito mais tarde, quando, j adulto, encontra outros em congressos cientficos e novamente se sente na posio de aprendiz, finda a reunio  a vez do Kneipzeitung 
que distorce em nonsense as novas descobertas, como compensao oferecida ao novo acrscimo em sua inibio intelectual.
         O Bierschwefel e o Kneipzeitung evidenciam por seus prprios nomes que o senso crtico, repressor do prazer no nonsense, tornou-se j to poderoso que s 
pode ser afastado temporariamente com ajuda txica. Uma mudana no estado de esprito  o mais precioso dom do lcool  humanidade e, devido a isso, o 'veneno' no 
 igualmente indispensvel para todos. Uma disposio eufrica, produzida endogenamente ou por via txica, reduz as foras inibidoras, entre as quais o senso crtico, 
tornado de novo acessveis fontes de prazer sobre as quais pesava a supresso.  muito instrutivo observar como os padres de chiste se extinguem  medida que o 
humor melhora. Pois bom humor substitui o chiste assim como os chistes devem tentar substituir o bom humor, onde as possibilidades de prazer - entre elas, o prazer 
no nonsense - por outra parte, inibidas, podem recuperar-se: 'Mit wenig Witz und viel Behagen'. Sob a influncia do lcool o adulto torna-se outra vez uma criana, 
tendo de novo o prazer de dispor de seus pensamentos livremente sem observar a compulso da lgica.
         Espero ter agora demonstrado que as tcnicas do chiste, que utilizam o absurdo, so uma fonte de prazer. Necessito apenas repetir que tal prazer procede 
de uma economia na despesa psquica ou de um aliviamento da compulso da crtica.
         
         Se lanamos uma vez mais os olhos sobre os trs distintos grupos de tcnicas do chiste, verificamos que o primeiro e o terceiro desses grupos - a substituio 
das associaes objetivas por associaes verbais e o uso do absurdo- podem ser unificados como procedimentos de restabelecimento de velhas liberdades e de liberao 
da carga de instruo intelectual; so alvios psquicos, em certo sentido contrastados  economia que constitui a tcnica do segundo grupo. O alvio da despesa 
psquica j existente e a economia na despesa psquica que se h de requerer - destes dois princpios derivam todas as tcnicas dos chistes, e conseqentemente todo 
o prazer que advm delas. As duas espcies de tcnicas e de obteno do prazer coincidem - em quase tudo - com a distino entre os chistes verbais e conceptuais.
         
         
         A discusso precedente concede-nos inesperadamente um insight sobre a evoluo ou a psicognese dos chistes, a qual examinaremos agora, mais detidamente. 
J entramos em contato com estgios preliminares dos chistes, e o desenvolvimento destes em chistes tendenciosos provavelmente descobrir novas relaes entre as 
vrias caractersticas dos chistes. Antes que tal coisa seja um chiste existe apenas aquilo que podemos descrever como 'jogo' ou como 'gracejo'.
         O jogo - guardemos esse nome - aparece nas crianas que esto aprendendo a utilizar as palavras e a reuni-las. Tal jogo obedece provavelmente a um dos instintos 
que compelem as crianas a exercitar suas capacidades (Gross [1889]). Ao faz-lo, deparam com efeitos gratificantes, que procedem de uma repetio do que  similar, 
de uma redescoberta do que  familiar, da similaridade do som etc. e que podem ser explicados como insuspeitadas economias na despesa psquica. No  de se admirar 
que esses efeitos gratificantes encorajem a criana a prosseguir no jogo e a continu-lo sem atentar para o sentido das palavras ou para a coerncia das sentenas. 
O jogo com palavras e pensamentos, motivado por alguns gratificantes efeitos de economia, seria pois o primeiro estgio dos chistes.
         Esse jogo chega ao fim pelo fortalecimento de um fator que merece ser descrito como faculdade crtica ou racionalidade. O jogo  agora rejeitado como sem 
sentido ou efetivamente absurdo; em conseqncia da crtica, torna-se impossvel. Agora, tambm, no se cogita mais da questo de derivar prazer das fontes de redescoberta 
do que  familiar etc., exceto acidentalmente, a no ser que o indivduo crescido seja tomado de uma disposio agradvel que,  semelhana da euforia infantil, 
suspenda a inibio crtica. Somente em tal caso torna-se novamente possvel o velho jogo de obteno do prazer; entretanto nem o indivduo quer esperar que isso 
acontea nem quer renunciar a um prazer que lhe  familiar. Assim ele trata de se tornar independente da disposio favorvel, sendo ento o ulterior desenvolvimento 
em direo aos chistes governado por dois esforos: evitar a crtica e encontrar um substitutivo para o estado de esprito.
         Com isto, assoma o segundo estgio preliminar dos chistes - o gracejo. Trata-se agora de prolongar o prazer resultante do jogo, silenciando ao mesmo tempo 
as objees levantadas pela crtica as quais no permitiriam que emergisse o sentimento gratificante. H apenas um modo de alcanar esse fim: as combinaes sem 
sentido de palavras ou as absurdas reunies de pensamentos devem, no obstante, ter um sentido. Toda a engenhosidade da elaborao do chiste  convocada para que 
essa condio seja cumprida. Todos os mtodos tcnicos dos chistes j so empregados aqui - nos gracejos; alm do mais, o uso lingstico no estabelece nenhuma 
fronteira consistente entre um gracejo e um chiste. O que distingue um gracejo de um chiste  que o significado da sentena que escapou  crtica no necessita ser 
vlido, novo, ou mesmo bom;  simplesmente permissvel dizer tal coisa daquela forma, ainda quando seja infreqente, desnecessrio ou intil diz-lo de tal forma. 
Nos gracejos o que figura em primeiro plano  a satisfao de ter tornado possvel o que era proibido pela crtica.
         , por exemplo, um gracejo a definio por Schleirmacher (ver em [1]) de que Eifersucht [o cime]  a Leidenschaft [paixo] que mit Eifer sucht [com avidez 
procura] o que Leiden schafft [causa dor].  tambm um gracejo quando o Professor Kstner, que ensinava fsica (e fazia chistes) em Gttingen, no sculo XVIII perguntou 
a um estudante chamado Kriegk, que se inscrevia para um de seus cursos, qual a sua idade. 'Trinta anos' foi a resposta, a partir de que Kstner comentou: 'Ah! tenho 
ento a honra de conhecer a Guerra [Krieg] dos Trinta Anos'. (Kleinpaul, 1890.) Foi com um gracejo que o grande Rokitansky replicou  indagao de quais as profisses 
de seus quatro filhos: 'Dois "heilen" [curam] e dois "heulen" [uivam]' (dois mdicos e dois cantores). A informao estava correta, e portanto, no vulnervel  
crtica, mas no acrescenta nada ao que podia ser expresso pelas palavras entre parnteses. No pode haver equvoco quanto ao fato de que a resposta foi dada de 
outra forma devido apenas ao prazer produzido pela unificao e pelo som similar das duas palavras.
         Penso que agora, finalmente, compreendemos com clareza o trajeto. Atravs de toda a nossa considerao das tcnicas dos chistes fomos atrapalhados pelo 
fato de que elas no eram exclusivas dos chistes; todavia, a essncia dos chistes parecia depender delas, j que quando eram descartadas por reduo, as caractersticas 
e o prazer do chiste ficavam perdidos. Vemos agora que o que descrevemos como tcnicas dos chistes - devemos, em certo sentido, continuar a descrev-las assim - 
so antes as fontes a partir das quais os chistes fornecem prazer; percebemos que no h nada de estranho em que outros procedimentos utilizem as mesmas fontes para 
fim igual. A tcnica que , entretanto, caracterstica dos chistes e peculiar a eles, consiste no procedimento de salvaguardar o uso desses mtodos de produo de 
prazer contra as objees levantadas pela crtica que poriam um fim ao prazer. H pouco que possamos dizer, de modo geral, sobre tal procedimento. A elaborao do 
chiste, como j comentamos, revela-se na escolha do material verbal e das situaes conceptuais que permitiro ao velho jogo com palavras e pensamentos resistir 
ao escrutnio da crtica; com esse fim em vista, toda peculiaridade de vocabulrio e toda combinao de seqncia de pensamento devem ser exploradas da maneira mais 
engenhosa possvel. Podemos, em um prximo passo, caracterizar a elaborao do chiste por uma propriedade particular; por enquanto, permanece inexplicado como pode 
ser feita a seleo favorvel aos chistes. O propsito e a funo dos chistes, entretanto - a saber, a proteo em relao  crtica dessas seqncias de palavras 
e pensamentos -, j pode ser vista nos gracejos como trao principal destes. Sua funo consiste, desde logo, em suspender as inibies internas e fazer fecundas 
as fontes de prazer tornadas inacessveis por tais inibies; verificaremos que eles permanecem leais a essa caracterstica no decorrer de todo o seu desenvolvimento.
         Estamos agora em condies de atribuir um lugar adequado ao fator 'sentido no nonsense ' (cf. introduo, em [1]), ao qual as autoridades atribuem importncia 
to grande como marca distintiva dos chistes e como explicao de seu efeito gratificante. Os dois pontos fixados como determinativos da natureza do chiste - seu 
propsito de continuar um jogo gratificante e seu esforo de proteg-lo da crtica da razo - explicam imediatamente por que um chiste individual, embora aparentemente 
sem sentido a partir de uma perspectiva, pode parecer razovel, ou ao menos permissvel, de uma outra. A elaborao do chiste cabe operar dessa forma; se fracassa, 
o chiste  simplesmente rejeitado como 'nonsense'. Mas no  necessrio que derivemos o efeito gratificante dos chistes do conflito entre os sentimentos dessa existncia 
e inexistncia simultnea de sentido nos chistes (seja diretamente, seja por via do 'desconcerto e esclarecimento' (ver em [2])). Nem precisamos adentrar-nos na 
questo de como  que o prazer procede da alternncia entre 'consider-lo sem sentido' e 'reconhec-lo como sensato'. A psicognese dos chistes nos ensinou que o 
prazer em um chiste deriva do jogo com as palavras ou da liberao do nonsense e que o significado nos chistes pretende simplesmente proteger o prazer contra sua 
supresso pela crtica.
         Dessa forma o problema do carter essencial dos chistes j est explicado nos gracejos. Voltemos agora ao desenvolvimento posterior dos gracejos, ao ponto 
em que estes se elevam  categoria de chistes tendenciosos. Os gracejos visam principalmente proporcionar prazer e se contentam em fazer com que aquilo que dizem 
no parea sem sentido ou completamente esvaziado de substncia. Quando um gracejo possui substncia e valor, torna-se um chiste. Um pensamento que merece nosso 
interesse mesmo se expresso na forma mais despretensiosa reveste-se agora de uma forma que nos proporciona prazer por seus prprios meios. Devemos supor que tal 
combinao no tenha ocorrido despropositadamente; devemos pois tentar descobrir a inteno subjacente  construo do chiste. Uma observao feita anteriormente 
(de passagem, ao que parece) nos por na pista. Dissemos antes (ver em [1]) que um bom chiste produz em ns como que uma impresso total de prazer, sem que possamos 
decidir de imediato qual parte do prazer procede da forma do chiste, qual procede de seu adequado contedo intelectual. Cometemos constantes erros nessa distribuio. 
Algumas vezes superestimamos a excelncia do chiste devido  nossa admirao pelo pensamento que contm; outras vezes, pelo contrrio, superestimamos o valor do 
pensamento devido ao prazer que nos foi proporcionado pelo invlucro chistoso. No sabemos o que  que nos proporciona prazer, nem de que estamos rindo. Essa incerteza 
em nosso juzo, que se deve admitir como um fato, pode ter fornecido o motivo para a construo dos chistes, no sentido prprio dessa palavra. O pensamento procura 
envolver-se em um chiste pois esta  uma forma de recomendar-se  nossa ateno e parecer mais importante e mais valioso, mas acima de tudo porque este invlucro 
suborna nossos poderes de crtica e os confunde. Inclinamo-nos a conferir ao pensamento o benefcio de nos ter agradado na forma do chiste; no nos inclinamos tambm 
a achar erro naquilo que nos divertiu, desperdiando assim a fonte de um prazer. Se o chiste nos faz rir alm do mais, h de ter se estabelecido em ns uma disposio 
mais favorvel  crtica; nesse caso, pois, algo h de nos ter imposto a disposio que anteriormente o jogo era suficiente para produzir e da qual o chiste tenta, 
por todos os meios possveis, se fazer substituto. Mesmo se afirmamos antes que tais chistes devem ser descritos como inocentes e ainda no tendenciosos no devemos 
nos esquecer de que, estritamente falando, apenas os gracejos so no tendenciosos - isto , servem exclusivamente ao propsito de produzir prazer. Os chistes nunca 
so efetivamente no tendenciosos, mesmo se o pensamento neles contido  no tendencioso e apenas serve aos interesses intelectuais tericos. Eles perseguem um segundo 
objetivo: promover o pensamento, aumentando-o e guardando-o da crtica. Aqui eles esto novamente exprimindo sua natureza original, antepondo-se ao poder inibidor 
e restritivo - que , agora, o julgamento crtico. 
         
         Esse primeiro uso dos chistes que ultrapassa a produo do prazer aponta para seus usos ulteriores. Um chiste  agora enfocado como um fator psquico munido 
de poder: seu peso, avaliado em uma ou outra escala, pode ser decisivo. Os principais propsitos e instintos da vida mental empregam-no para seus prprios fins. 
O chiste originalmente no tendencioso, que comea como jogo, pe-se secundariamente em relao com propsitos aos quais nada do que toma forma na mente pode escapar. 
J sabemos o que se pode conseguir a servio do propsito de desnudamento e dos propsitos hostis, cnicos e cticos. No caso dos chistes obscenos, derivados do 
smut, tornar a terceira pessoa, que originalmente interferia com a situao sexual, em aliado diante do qual a mulher deve sentir vergonha, subornando essa terceira 
pessoa com a ddiva do prazer produzido. Para propsitos agressivos, empregar o mesmo mtodo para tornar o ouvinte, inicialmente indiferente, em correligionrio 
de seu dio ou desprezo, criando para o inimigo um pugilo de oponentes quando, de incio, s existia um nico. No primeiro caso, supera as inibies da vergonha 
e da respeitabilidade atravs da bonificao de prazer oferecida; no segundo, subverte o julgamento crtico que, de outro modo, teria examinado a disputa. No terceiro 
e quarto casos, a servio de propsitos cnicos e cticos, despedaa o respeito pelas instituies e verdades em que o ouvinte tem acreditado, de um lado reforando 
o argumento, de outro, praticando nova espcie de ataque. Onde a argumentao tenta aliciar a crtica do ouvinte, o chiste se esfora por tir-la de campo. Sem dvida 
o chiste escolhe o mdico psicologicamente mais efetivo.
         Nesse levantamento das realizaes dos chistes tendenciosos, a maior proeminncia  assumida - como se verifica facilmente - pelo efeito dos chistes sobre 
as pessoas que os escutam. Mais importantes, entretanto, do ponto de vista de nossa compreenso so as funes cumpridas pelos chistes na mente da pessoa que os 
inventa, ou os atualiza, enfim a pessoa a quem eles ocorrem. J propusemos (ver em [1]) - temos aqui oportunidade de repetir esta noo - que devamos tentar estudar 
o fenmeno psquico dos chistes com referncia a sua distribuio entre duas pessoas. Faremos uma sugesto provisria de que o processo psquico provocado pelo chiste 
no ouvinte reproduz em muitos casos aquele que ocorre em seu criador. Ao obstculo externo a ser vencido no ouvinte corresponde uma inibio interna no elaborador 
do chiste. Pelo menos a expectativa de um obstculo externo est presente no ltimo como uma idia inibidora. Em certos casos o obstculo interno vencido pelo chiste 
tendencioso  bvio; nos chistes de Herr N., por exemplo, podemos admitir (ver em [1]) que no apenas permitem a seus ouvintes desfrutar a agressividade sob a forma 
de insultos, como, acima de tudo, permite-lhe produzi-los. Entre os vrios tipos de inibio ou supresso interna h um que merece nosso especial interesse, porque 
 o mais abrangente. D-se-lhe o nome de 'represso' e  reconhecido por sua funo de impedir que os impulsos a ele sujeitos, e seus derivativos, tornem-se conscientes. 
Os chistes tendenciosos, como veremos, so capazes de liberar prazer mesmo de fontes que j sofreram represso. Se, como sugerido acima, a superao de obstculos 
externos pode ser, dessa forma, referida  superao de inibies e represses internas, podemos dizer que os chistes tendenciosos exibem a principal caracterstica 
da elaborao do chiste - a de liberar prazer pelo descarte das inibies - mais claramente que quaisquer outros dos estgios do desenvolvimento dos chistes. Ou 
fortalecem os propsitos a que servem, transmitindo-lhes apoio procedente dos impulsos mantidos suprimidos, ou pem-se inteiramente a servio dos propsitos suprimidos.
         J estamos prontos a admitir que  isso o que realizam os chistes tendenciosos mas devemos ter em mente que no compreendemos ainda como podem obter esses 
resultados. Seu poder consiste na produo do prazer que extraem das fontes do jogo de palavras e da liberao do nonsense; mas se vamos emitir juzos a partir das 
impresses que nos fazem os gracejos no tendenciosos, no poderemos considerar o montante desse prazer grande bastante para lhe atribuir a fora de suspender inibies 
e represses profundamente arraigadas. O que temos diante de ns  efetivamente no um simples efeito de fora mas uma mais complexa situao de liberao. Em vez 
de expor o longo rodeio pelo qual atingimos uma compreenso da situao, tentarei fazer uma breve exposio sinttica dela.
         Fechner (1897, 1, Captulo V) apresenta um 'princpio de cooperao ou de intensificao esttica', expresso como segue: 'Se os determinantes do prazer, 
que por si mesmo produzem um pequeno efeito, convergem sem contradio mtua, resulta um montante de prazer maior, freqentemente muito maior, que o correspondente 
ao valor-prazer dos determinantes separados - um prazer maior que pode ser explicado como sendo a soma dos efeitos separados. De fato, uma convergncia dessa espcie 
pode levar mesmo a uma resultante positiva de prazer e o limiar do prazer pode ser ultrapassado onde os fatores separados seriam dbeis demais para faz-lo, embora 
eles devam, comparativamente, apresentar uma perceptvel vantagem em deleitabilidade'. (Ibid, 51. Os grifos so de Fechner.)
         Penso que o tpico dos chistes no nos d grande oportunidade de confirmar a correo desse princpio, cuja excelncia pode ser demonstrada em muitas outras 
estruturas estticas. No que toca aos chistes, j sabemos algo mais, que pelo menos bordeja esse princpio: a saber, que onde vrios fatores proporcionadores de 
prazer operam juntos no podemos atribuir a cada um deles a parte que realmente lhes cabe na consecuo do resultado. (Ver em [1].) Podemos, entretanto, variar a 
situao admitida no 'princpio da cooperao', e como conseqncia dessas novas condies, chegar a algumas questes merecedoras de resposta. O que em geral acontece 
se, em uma combinao, convergem determinantes de prazer e determinantes de desprazer? De que depende o resultado e que fator decide se preponderar o prazer ou 
o desprazer?
         O caso dos chistes tendenciosos  um caso especial entre essas possibilidades. Um impulso ou tendncia presente procura liberar prazer de uma fonte particular 
e, se lhe fosse permitido trnsito livre, de fato o liberaria. Alm disso, est presente outra tendncia que labora contra essa gerao de prazer - inibindo-o ou 
suprimindo-o. A corrente supressiva deve, pois, como o demonstra o resultado, ser em certo grau mais forte que a suprimida, que no , entretanto, por essa razo, 
abolida. Suponhamos agora que aparece ainda uma outra tendncia que liberaria o prazer pelo mesmo processo, embora a partir de outra fonte, operando pois no mesmo 
sentido que a tendncia suprimida. Qual seria o resultado nesse caso?
         Um exemplo nos posicionar melhor que esta discusso esquemtica. Admitamos que existe o impulso de insultar certa pessoa; isso, entretanto, ope-se to 
fortemente a nossos sentimentos de propriedade ou de cultura esttica que o insulto no pode se consumar. Se pudssemos, por exemplo, transgredi-los em conseqncia 
de alguma mudana da condio ou disposio emocional sentiramos subseqentemente essa transgresso com propsito insultante com desprazer. Portanto o insulto no 
ocorre. Suponhamos, agora, entretanto, que se apresenta a possibilidade pela derivao de um bom chiste a partir do material verbal e conceptual usado para o insulto 
- ou seja, a possibilidade de liberar prazer de outras fontes no obstrudas pela mesma supresso. Esse segundo desenvolvimento do prazer no poderia apesar disso 
ocorrer a no ser que o insulto fosse permitido; to logo este ltimo seja permitido, uma nova liberao de prazer lhe  acrescentada. A experincia com chistes 
tendenciosos revela que em tais circunstncias o propsito suprimido pode, com a colaborao do prazer derivado do chiste, ganhar fora suficiente para superar a 
inibio, que, de outra forma, a sobrepujaria em fora. O insulto portanto ocorre j que o chiste o tornou possvel. Mas o prazer obtido no  apenas aquele produzido 
pelo chiste:  incomparavelmente maior.  to superior ao prazer originrio do chiste que devemos supor que o propsito, at aqui suprimido, tenha conseguido esgueirar-se, 
talvez sem a mnima diminuio. Em tais circunstncias  que o chiste  recebido com a melhor gargalhada.
         Um exame dos determinantes do riso nos levar talvez a uma idia mais simples do que acontece quando um chiste recebe colaborao contra sua supresso. 
(ver em [1]) Mesmo agora, entretanto, podemos verificar que o caso dos chistes tendenciosos  um caso especial do 'principio da colaborao'. Uma possibilidade de 
gerar prazer sobrevm em situao em que uma outra possibilidade de prazer est obstruda, de modo que, no que concerne a esta ultima, isoladamente, nenhum prazer 
 gerado. O resultado  uma gerao de prazer muito maior que a oferecida pela possibilidade superveniente. Essa age como se fora uma bonificao de incentivo; com 
a colaborao da oferta de uma pequena taxa de prazer, obtm-se um montante bem maior e que de outra forma teria sido bastante difcil. Tenho boas razes para suspeitar 
que este princpio corresponde a um arranjo que se mantm igualmente para muitos dos departamentos da vida mental, amplamente separados, e creio que ser vantajoso 
descrever o prazer que serve para iniciar a grande liberao de prazer como 'prazer preliminar' e o princpio que se lhe refere como 'princpio do prazer preliminar'.
         Podemos agora postular a frmula relativa ao modo de operao dos chistes tendenciosos. Estes se pem a servio de propsitos de modo que, utilizando o 
prazer originrio dos chistes como prazer preliminar, possam produzir novo prazer suspendendo as supresses e represses. Se fazemos agora um levantamento do curso 
do desenvolvimento do chiste, podemos dizer que, do comeo ao fim, ele permanece fiel a sua natureza essencial. Comea como o jogo de derivar prazer do livre uso 
das palavras e pensamentos. To logo o fortalecimento da razo ponha um fim ao jogo com as palavras, como sendo sem sentido, ou ao jogo com os pensamentos, como 
sendo absurdo, muda-se este em gracejo para que possa reter essas fontes de prazer e ser capaz de obter novo prazer pela liberao do nonsense. A seguir, como chiste 
propriamente dito, mas ainda no tendencioso, d apoio aos pensamentos e fortalece-os contra o desafio do juzo crtico, processo em que se utiliza o 'princpio 
da confuso das fontes de prazer'. Finalmente, vem em socorro dos principais propsitos que combatem a supresso, suspendendo as inibies pelo 'princpio do prazer 
preliminar'. Razo, julgamento crtico, supresso - eis as foras contra as quais sucessivamente se luta; conserva-se fiel s fontes originais do prazer verbal, 
e do estgio de gracejo em diante abre por si mesmo novas fontes de prazer, suspendendo as inibies. O prazer que produz, seja prazer no jogo ou na suspenso das 
inibies, pode ser invariavelmente referido  economia na despesa psquica, desde que esta concepo no contradiga a natureza essencial do prazer e se comprove 
fecunda em outras direes.
         
         V - OS MOTIVOS DOS CHISTES: OS CHISTES COMO PROCESSO SOCIAL
         
         Poderia parecer suprfluo falar sobre os motivos dos chistes j que o objetivo de conseguir prazer deve ser reconhecido como motivo suficiente da elaborao 
do chistes. Mas por um lado no se pode excluir a possibilidade de que a produo dos chistes tambm partilhe outros motivos e, por outro lado, tendo em mente algumas 
experincias familiares, devemos levantar a questo geral dos determinantes subjetivos do chiste.
         Dois fatos em particular tornam essa atitude necessria. Embora a elaborao do chiste seja um excelente mtodo de derivar prazer dos processos psquicos, 
, no obstante, evidente que nem todas as pessoas sejam capazes de utilizar tal mtodo: a elaborao do chiste no est ao dispor de todos e apenas alguns dispem 
dela consideravelmente; estes ltimos so distinguidos como tendo 'esprito' [Witz]. O 'esprito' aparece nessa conexo como uma capacidade especial - mais do que 
como uma das velhas 'faculdades' mentais; parece emergir inteiramente independente das outras, tais como a inteligncia, imaginao, memria etc. Devemos, portanto, 
presumir, nessas pessoas 'espirituosas', a presena de disposies especiais herdadas ou de determinantes psquicos que permitem ou favorecem a elaborao do chiste.
         Temo no ir muito longe explorando essa questo. Podemos ter sucesso em apenas algumas ocasies ao avanar da compreenso de um chiste particular ao conhecimento 
dos determinantes subjetivos na mente da pessoa que o faz.  uma notvel coincidncia que precisamente o chiste pelo qual comeamos nossas investigaes da tcnica 
dos chistes nos fornea um vislumbre dos determinantes subjetivos do chiste. Refiro-me ao chiste de Heine, tambm considerado por Heymans e Lipps (ver em [1]):
         '...sentei-me ao lado de Salomon Rothschild e ele tratou-me como um seu igual - bem familionariamente.' ('Bader von Lucca.')
         Heine pe esse comentrio na boca de um personagem cmico, Hirsch-Hyacinth, um vendedor de loterias em Hamburgo, calista e valete profissional do aristocrtico 
Baro Cristoforo Gumpelino (inicialmente Gumpel). O poeta evidentemente se compraz na criao de um Hirsch-Hyacinth extremamente loquaz em discursos os mais divertidos 
e ousados, permitindo-lhe mesmo mostrar a filosofia prtica de um Sancho Pana.  pena que Heine, que, ao que parece, no tinha gosto pela criao dramtica, abandonasse 
to cedo esse delicioso personagem. No h apenas algumas passagens em que o poeta parece estar falando de si prprio, sob um dbil disfarce, atravs da boca de 
Hirsch-Hyacinth; em breve, aparece a certeza de que o personagem  simplesmente uma autopardia. Hirsch explica as razes que o levaram a desistir de seu antigo 
nome fazendo-se agora chamar 'Hyacinth'. Continua: 'H a ulterior vantagem de que j tenho um "H" em meu sinete, de modo que no preciso gravar um novo'. Mas Heine 
efetuou a mesma economia quando, em seu batismo, trocou seu primeiro nome de 'Harry' para 'Heinrich'. Alm disso, todos que conhecem a biografia do poeta lembraro 
que Heine tinha um tio do mesmo nome em Hamburgo (lugar que fornece outra conexo com a figura de Hirsch-Hyacinth), tio que, sendo o rico da famlia, desempenhou 
papel importante em sua vida. Esse tio era tambm chamado 'Salomon' tal como o velho Rothschild que tratava Hirsch to familionariamente. O que, na boca de Hirsch-Hyacinth 
no parece mais que um gracejo, revela um fundamento de grave amargura, se o atribumos agora a seu sobrinho, Harry-Heinrich. Afinal este era da famlia e sabemos 
que nutria um ardente desejo de casar-se com a filha do tal tio; mas a prima o rejeitou e o tio sempre o tratou bem familionariamente, como a um parente pobre. Seus 
primos ricos de Hamburgo nunca o levaram a srio. Lembro-me de uma histria contada por velha tia minha, que se casara na famlia de Heine, a qual, certo dia, quando 
era uma jovem atraente, sentada  mesa de jantar familiar, surpreendera-se com a presena de uma pessoa que lhe parecia indesejada e tratada com desprezo pelo resto 
dos convivas. Ela prpria no encontrou nenhuma razo para mostrar-se mais afvel com ele. Poucos anos depois percebeu que o negligente e negligenciado primo era 
o poeta Heinrich Heine. No h pouca evidncia do sofrimento de Heine devido  sua rejeio por parte de seus parentes ricos, na juventude e mesmo depois. Este o 
solo da emoo subjetiva que o chiste 'familionariamente' faz saltar.
         A presena de determinantes subjetivos similares pode ser suspeitada nos chistes de algum outro grande zombador, mas no sei de nenhum outro em que isso 
possa ser demonstrado to convincentemente. Por esta razo no  fcil tentar fazer assero mais definida sobre a natureza desses determinantes pessoais. Na verdade, 
em geral no me inclino a reivindicar complicados determinantes para a origem de todo chiste individual. Nem so os chistes produzidos por outros homens famosos 
mais facilmente acessveis a nosso exame. Temos a impresso de que os determinantes subjetivos da elaborao do chiste com freqncia no se situam muito longe daqueles 
determinantes das doenas neurticas - basta considerarmos, por exemplo, Lichtenberg, homem gravemente hipocondraco, com toda espcie de excentricidades. A grande 
maioria dos chistes, entretanto, em especial aqueles constantemente produzidos em conexo com os eventos do dia, circulam anonimamente: seria curioso saber de que 
tipo de gente se originam tais produes. Se, como mdico, tem-se ocasio de travar conhecimento com uma dessas pessoas que, no sendo notveis sob outros aspectos, 
so bem conhecidas em seu meio como piadistas ou inventores de muitos chistes viveis, pode ser surpreendente descobrir que o piadista  uma personalidade dividida, 
propensa a doenas neurticas. A insuficincia de evidncia documentria, entretanto, decerto h de impedir que postulemos a hiptese de que uma constituio psiconeurtica 
desse tipo  uma condio subjetiva necessria ou habitual para a construo de chistes.
         Um caso mais transparente , uma vez mais, oferecido pelos chistes de judeus que, como j mencionei (ver em [1]), so ordinariamente feitos pelos prprios 
judeus, enquanto as histrias sobre eles provenientes de outras fontes dificilmente ultrapassam o nvel das histrias cmicas ou da derriso brutal. O que determina 
a participao deles nos chistes parece ser o mesmo fator que ocorre no caso do chiste de Heine 'familionariamente'; sua importncia parece consistir no fato de 
que a pessoa envolvida considera difcil a crtica ou a agressividade na medida em que estas sejam diretas, sendo possvel apenas ao longo de trajetos tortuosos.
         Outros fatores subjetivos que determinam ou favorecem a elaborao do chiste esto menos envoltos na obscuridade. O motivo que fora a produo de chistes 
inocentes , no sem freqncia, uma ambiciosa vontade de mostrar a prpria inteligncia, exibir-se - um instinto que pode ser equiparado ao exibicionismo no campo 
sexual. A presena de numerosos instintos inibidos, cuja supresso reteve certo grau de instabilidade, fornecer a disposio mais favorvel  produo de chistes 
tendenciosos. Assim os componentes individuais da constituio sexual de uma pessoa podem, particularmente, aparecer como motivos para a construo de um chiste. 
Toda uma classe de chistes obscenos permite que se infira a presena de uma inclinao oculta ao exibicionismo em seus inventores; chistes tendenciosos agressivos 
tm melhor sorte com pessoas em cuja sexualidade  demonstrvel um poderoso componente sdico, mais ou menos inibido na vida real.
         O segundo fato que requer uma investigao da determinao subjetiva dos chistes  a experincia geralmente reconhecida de que ningum se contenta em fazer 
um chiste apenas para si. Um impulso de contar o chiste a algum est inextricavelmente ligado  elaborao do chiste; de fato, o impulso  to forte que freqentemente 
se processa a despeito de srias apreenses. Tambm no caso do cmico, cont-lo a mais algum produz prazer, mas a solicitao no  to peremptria. Se algum acha 
alguma coisa cmica, pode divertir-se consigo mesmo. Um chiste, pelo contrrio, deve ser contado a algum mais. O processo psquico da construo de um chiste no 
parece terminado quando o chiste ocorre a algum: permanece algo que procura, pela comunicao da idia, levar o desconhecido processo de construo do chiste a 
uma concluso.
         No podemos em primeira instncia adivinhar qual possa ser a base do impulso de comunicar o chiste. Podemos, porm, constatar outra peculiaridade nos chistes 
que os distingue do cmico. Se encontro algo cmico, posso rir gostosamente, embora seja verdade que tambm me satisfao se posso fazer algum mais rir, contando-lhe 
o fato. Mas eu prprio no posso rir de um chiste que me tenha ocorrido, ou que eu tenha inventado, a despeito do inequvoco prazer que o chiste me d.  possvel 
que minha necessidade de comunicar o chiste a mais algum esteja de algum modo conectada  gargalhada que produz, gargalhada esta que me  negada mas que se manifesta 
em outra pessoa.
         Por que  ento que no me rio de meu prprio chiste? Que parte nele  desempenhada pela outra pessoa?
         Examinemos primeiramente a segunda questo. No caso do cmico, duas pessoas em geral so envolvidas: alm de mim a pessoa em quem constato algo de cmico. 
Se as coisas inanimadas parecem-me cmicas, isto se deve a uma espcie de personificao que no  de ocorrncia rara em nossa vida ideacional. O processo cmico 
se satisfaz com essas duas pessoas: o eu e a pessoa que  o objeto; uma terceira pessoa pode intervir mas no  essencial. O chiste, no estgio inicial, enquanto 
jogo com as palavras e pensamentos, prescinde de uma pessoa como objeto. Mas j no estgio preliminar de gracejo, se se consegue salvar o jogo e o nonsense dos protestos 
da razo, isso requer uma outra pessoa a quem se possa comunicar o resultado. Essa segunda pessoa no caso dos chistes no corresponde  pessoa que  o objeto, mas 
 terceira pessoa,  'outra' pessoa no caso do cmico.  como se, no caso do gracejo, a outra pessoa transmitisse a avaliao da tarefa de elaborao do chiste - 
como se o eu no se sentisse, nesse ponto, seguro de seu julgamento. Tambm os chistes inocentes, chistes que servem para reforar um pensamento, requerem uma outra 
pessoa para provar se acaso alcanaram seu objetivo. Se um chiste entra a servio de um propsito de desnudamento ou de um propsito hostil, pode-se descrev-lo 
como um processo psquico entre trs pessoas, as mesmas que participam no caso do cmico, embora seja diferente a parte desempenhada pela terceira pessoa; o processo 
psquico nos chistes se cumpre entre a primeira pessoa (o eu) e a terceira (a pessoa de fora) e no, como no caso do cmico, entre o eu e a pessoa que  o objeto.
         Os chistes so confrontados pelos determinantes subjetivos tambm no caso da terceira pessoa, podendo estes determinantes tornar inatingvel sua meta de 
produzir excitao gratificante. Como nos lembra Shakespeare (Love's Labour's, Lost, V, 2):
         
         A jest's prosperity lies in the ear
         Of him that hears, never in the tongue
         Of him that makes it...
         
         (A fortuna de um gracejo reside no ouvido
         De quem o escuta, nunca na lngua
         De quem o faz...)
         
         Uma pessoa dominada por uma disposio, voltada para pensamentos srios, no serve para confirmar o sucesso de um gracejo na liberao do prazer verbal. 
Ela deve estar em um estado de nimo eufrico, ou, ao menos, indiferente, para que possa agir como a terceira pessoa do gracejo. O mesmo obstculo aplica-se aos 
chistes inocentes e tendenciosos; nos ltimos h, entretanto, um obstculo adicional: a oposio ao propsito a servio do qual tenta-se o chiste. A terceira pessoa 
pode no estar pronta para rir de um excelente chiste obsceno se a desnudao aplica-se a um seu parente, altamente respeitado; diante de uma assemblia de padres 
e ministros, ningum se aventuraria a reproduzir a comparao de Heine entre os clrigos catlicos e protestantes e os vendedores retalhistas e os empregados de 
um negcio por atacado (ver em [1]); uma audincia composta de devotados amigos de um meu adversrio receberiam meus felizes excertos de invectiva chistosa contra 
ele, no como chistes mas como invectivas e eu me defrontaria com sua indignao antes que com seu prazer. Algum grau de benevolncia ou uma espcie de neutralidade, 
uma ausncia de qualquer fator que pudesse provocar sentimentos opostos ao propsito do chiste, constituem a condio indispensvel para que uma terceira pessoa 
colabore na completao do processo de realizao do chiste.
         Onde no existem obstculos como estes  operao do chiste, emerge o fenmeno que tomamos agora como tema de nossa investigao: o prazer que o chiste 
produz  mais evidente na terceira pessoa que no criador do chiste. Devemos nos contentar em dizer mais 'evidente' onde nos inclinaramos a perguntar se o prazer 
do ouvinte no  mais 'intenso' que o do autor do chiste, j que naturalmente no dispomos de meios de medir e comparar. Vemos, entretanto, que o ouvinte evidencia 
seu prazer com uma exploso de riso, depois que a primeira pessoa, via de regra, prope o chiste com uma aparncia tensamente sria. Se repito o chiste que eu prprio 
ouvi, devo, se no quero estragar seu efeito, comportar-me contando-o exatamente como a pessoa que o fez primeiro. A questo que ora se coloca diz respeito a se 
devemos extrair qualquer concluso sobre os processos psquicos de construo de chistes a partir deste fator: o riso nos chistes.
         No podemos pretender considerar aqui tudo o que se props e foi publicado sobre a natureza do riso. Podemos ser demovidos de tal plano pelos comentrios 
com que Dugas, um discpulo de Ribot, prefacia seu livro La Psychologie du Rire (1902,1): 'Il n'est pas de fait plus banal et plus tudi que le rire; il n'en est 
pas qui ait eu le don d'exciter davantage la curiosit du vulgaire et celle des philosophes; il n'en est pas sur lequel on est recueilli plus d'observations et bti 
plus de thories, et avec cela il n'en est pas qui demeure plus inexpliqu. On serait tent de dire avec les sceptiques qu'il faut tre content de rire et de ne 
pas chercher  savoir pourquoi on rit, d'autant que peut-tre la rflexion tue le rire, et qu'il serait alors contradictoire que'elle en dcouvrt les causes'.
         Por outro lado, no nos faltar a oportunidade de utilizar para nossos propsitos uma opinio sobre o mecanismo do riso que se adeqe excelentemente a nossa 
linha de pensamento. Tenho em mente a tentativa de explicao feita por Herbert Spencer em seu ensaio sobre 'The Phisiology of Laughter (A Fisiologia do Riso)' (1860). 
De acordo com Spencer, o riso  um fenmeno de descarga da excitao mental a uma prova de que o emprego psquico dessa excitao tropea repentinamente contra um 
obstculo. Descreve a situao psicolgica que termina no riso com as seguintes palavras: 'O riso resulta naturalmente apenas quando a conscincia , inesperadamente, 
transferida das grandes coisas para as pequenas - apenas quando h o que podemos chamar de incongruncia descendente'.
         Em um sentido bastante similar autores franceses (e.g. Dugas) descrevem o riso como um 'dtente', um fenmeno de relaxamento da tenso. Assim tambm a frmula 
proposta por Bain [1865, 250] - 'o riso como liberao de uma restrio' - parece divergir da concepo de Spencer muito menos do que algumas autoridades nos fariam 
acreditar.
         No obstante, sentimos necessidade de modificar a noo de Spencer, em parte para dar forma mais definitiva s idias nela contidas e em parte para modific-las. 
Devamos dizer que o riso se d quando uma cota de energia psquica, usada anteriormente para a catexia de trajetos psquicos particulares, torna-se inutilizvel, 
de modo que essa (energia) pode encontrar descarga livre. Bem sabemos dos 'maus espritos' que estamos convocando com tal hiptese, mas nos aventuraremos a citar 
em nossa defesa uma sentena apropriada do livro de Lipps, Komik und Humor (1898, 71), da qual deriva esclarecimento para outros assuntos que no somente o cmico 
e o humor: 'Finalmente, problemas psicolgicos especficos sempre levam a um aprofundamento na psicologia, de modo que, no fundo, nenhum problema psicolgico pode 
ser tratado isoladamente'. Os conceitos de 'energia psquica' e de 'descarga', tanto como o tratamento da energia psquica enquanto quantidade, tm sido habituais 
em minhas reflexes, desde que comecei a organizar os fatos da psicopatologia filosoficamente; j em meu livro A Interpretao de Sonhos (1900a), tentei (no mesmo 
sentido que Lipps) estabelecer o fato de que 'realmente efetivos psiquicamente' so os processos psquicos em si mesmos inconscientes, no o contedo da conscincia. 
Somente qundo falo da 'catexia dos trajetos psquicos'  que pareo me afastar das analogias comumente usadas por Lipps. Minhas experincias da capacidade de deslocamento 
da energia psquica ao longo de certos trajetos associativos, minha experincia da quase indestrutvel persistncial de vestgios dos processos psquicos, sugeriram-me 
de fato uma tentativa de figurar de uma outra forma o desconhecido. Para evitar incompreenses, devo acrescentar que no fao qualquer tentativa de proclamar que 
tais trajetos psquicos so as clulas e fibras nervosas, ou os sistemas de neurnios que hoje esto tomando seu lugar, mesmo que fosse possvel representar tais 
trajetos de alguma forma, ainda no indicada, atravs de elementos orgnicos do sistema nervoso.
         Segundo nossa hiptese, portanto, encontram-se no riso as condies sob as quais uma soma de energia psquica, usada at ento para a catexia, encontra 
livre descarga. E j que o riso - no todo o riso,  verdade, mas certamente o riso originrio do chiste -  uma indicao de prazer, inclinamo-nos por relacionar 
este prazer com a suspenso da catexia que fora previamente apresentada. Se verificamos que o ouvinte de um chiste ri, mas que seu criador no pode rir, isto pode 
nos levar a dizer que no ouvinte uma despesa catxica foi suspensa e descarregada, enquanto na construo do chiste tambm encontramos obstculos tanto  suspenso 
quanto  possibilidade de descarga. O processo psquico no ouvinte, a terceira pessoa do chiste, dificilmente ser mais bem descrito que pela acentuao do fato 
de que o prazer do chiste  adquirido com muito pequena despesa de sua parte. Pode-se dizer que o chiste lhe  presenteado. As palavras do chiste por ele ouvidas 
trazem-lhe necessariamente a idia ou o curso de pensamentos cuja construo sofreu a oposio de graves inibies internas. Ele teria que fazer esforo prprio 
para execut-lo espontaneamente como primeira pessoa: teria que utilizar, pelo menos, tanta energia psquica quanta correspondesse  fora da inibio, supresso 
ou represso da idia. Economizou, portanto, esta despesa psquica.  base de nossas discusses anteriores (ver em [1]) dissemos que o prazer (do chiste) correspondia 
a essa economia. Nosso insight do mecanismo do riso leva-nos antes a dizer que, devido  introduo da idia proscrita atravs da percepo auditiva, a energia catxica 
usada para a inibio torna-se agora subitamente suprflua, sendo pois suspensa e portanto descarregada pelo riso. Os dois modos de exprimir os fatos concernem essencialmente 
 mesma coisa j que a despesa economizada corresponde exatamente  inibio tornada suprflua. Mas o segundo mtodo de expresso  mais esclarecedor, j que nos 
permite dizer que o ouvinte do chiste se ri com a cota de energia psquica liberada pela suspenso da catexia inibitria; podamos dizer que seu riso esgota essa 
cota.
         Se a pessoa em quem o chiste se forma no pode rir, esse fato, como j dissemos (ver em [1]), indica uma divergncia com aquilo que acontece na terceira 
pessoa: isto , ou a suspenso da catexia inibitria ou a possibilidade de sua descarga. Mas a primeira dessas alternativas no se verificar, como constataremos 
imediatamente. A catexia inibitria deve ter sido suspensa tambm na primeira pessoa, ou o chiste no viria  tona j que sua formao visava precisamente superar 
uma resistncia desse tipo; por outro lado, seria tambm impossvel para a primeira pessoa sentir prazer no chiste, prazer que nos obrigamos a referir precisamente 
 suspenso da inibio. Tudo que perdura, ento,  a outra alternativa, a saber, que a primeira pessoa no pode rir embora sinta prazer, porque h uma interferncia 
com a possibilidade de descarga. Uma tal interferncia com a possibilidade de descarga, necessria precondio do riso, pode proceder de que a energia catxica liberada 
seja imediatamente aplicada a outra utilizao endopsquica.  bom que nossa ateno tenha-se desviado para tal possibilidade, na qual em breve ocuparemos nosso 
interesse. Entretanto, uma outra condio, que leva ao mesmo resultado, pode ser percebida na primeira pessoa do chiste.  possvel que nenhuma cota de energia, 
capaz de tornar-se manifesta, possa ser liberada a despeito da suspenso da catexia inibitria. Na primeira pessoa de um chiste executa-se a elaborao do chiste, 
 qual deve corresponder certa cota de nova despesa psquica. Assim a prpria primeira pessoa produz a fora que suspende a inibio. Isso, sem dvida, resulta em 
prazer para si e mesmo, no caso dos chistes tendenciosos, um prazer bem considervel, j que o prazer preliminar obtido pela elaborao do chiste toma a seu cargo 
a suspenso de outras inibies; mas a despesa na elaborao do chiste , em qualquer caso, deduzida da produo (do prazer) resultante da suspenso da inibio 
- uma despesa que  idntica  evitada pelo ouvinte do chiste. O que acabei de dizer pode ser confirmado pela observao de que um chiste perde seu efeito de riso, 
mesmo em uma terceira pessoa, to logo requeira uma despesa ou um trabalho intelectual conexo. As aluses feitas em um chiste devem ser bvias e as omisses facilmente 
preenchveis; um despertar do interesse intelectual consciente usualmente impossibilita o efeito do chiste. H aqui uma importante distino entre os chistes e os 
enigmas. Talvez a constelao psquica no seja favorvel  livre descarga do que se ganhou durante a elaborao do chiste. Parece que no estamos em condies de 
ir alm desse ponto; conseguimos maior xito em lanar luz sobre uma parte de nosso problema - porque ri a terceira pessoa - do que em esclarecer outra parte - porque 
a primeira pessoa no ri.
         Contudo, se aceitamos firmemente essa concepo dos determinantes do riso e do processo psquico na terceira pessoa, estamos agora em condies de prover 
uma explicao satisfatria de toda uma classe de peculiaridades dos chistes que no tm sido bem compreendidas. Se uma cota da energia catxica capaz de descarga 
vai ser liberada na terceira pessoa, h vrias condies que devem ser preenchidas ou que seria desejvel fazer operar como encorajamentos: (1) Deve ser assegurado 
que a terceira pessoa esteja realmente fazendo esta despesa catxica. (2)  necessrio evitar que a despesa catxica, quando liberada, encontre algum outro uso psquico 
em vez de se oferecer para a descarga motora. (3)  muito vantajoso que a catexia liberada na terceira pessoa seja previamente intensificada, elevada a uma maior 
altura. Todos esses objetivos so servidos por mtodos particulares de elaborao do chiste, que podem ser classificados como tcnicas auxiliares ou secundrias:
         [1] A primeira destas condies constitui-se em uma das qualificaes necessrias  terceira pessoa enquanto ouvinte do chiste.  essencial que esta esteja 
em suficiente acordo psquico com a primeira pessoa quanto a possuir as mesmas inibies internas, superadas nesta ltima pela elaborao do chiste. Uma pessoa receptiva 
ao smut ser incapaz de derivar qualquer prazer dos espirituosos chistes de desnudamento; os ataques de Herr N. no sero entendidos por pessoas sem cultura, acostumadas 
a dar livre trnsito a seu desejo de insultar. Assim todo chiste requer seu prprio pblico: partilhar o riso diante dos mesmos chistes evidencia uma abrangente 
conformidade psquica. Aqui, alm disso, chegamos a um ponto que nos capacita adivinhar ainda mais precisamente o que ocorre na terceira pessoa. Esta deve poder, 
por fora do hbito, erigir em si mesma aquela inibio que o chiste da primeira pessoa superou, de modo que, to logo escute um chiste, a disposio para a inibio 
seja compulsiva ou automaticamente despertada. Esta disposio  inibio, que devo considerar como despesa real, anloga  mobilizao no campo militar, ser neste 
mesmo momento reconhecida como suprflua ou tardia, e portanto descarregada in statu nascendi pelo riso.
         [2] A segunda condio que possibilita a livre descarga - o impedimento de que a energia liberada seja utilizada de algum outro modo - parece de longe a 
mais importante. Ela fornece a explicao terica da incerteza quanto ao efeito dos chistes quando os pensamentos expressos pelo chiste suscitam no ouvinte idias 
poderosamente excitantes; neste caso, a concordncia ou discordncia entre os propsitos do chiste e o crculo de pensamentos dominante no ouvinte decidir se a 
sua ateno permanecer no processo chistoso ou lhe ser retirada. De interesse terico ainda maior  uma classe de tcnicas auxiliares que claramente servem  finalidade 
de deslocar do processo chistoso a ateno do ouvinte e permitir que tal processo siga seu curso automaticamente. Digo deliberadamente 'automtica' em vez de 'inconscientemente' 
porque a ltima caracterizao seria enganosa. Trata-se aqui apenas da manuteno de uma catexia aumentada da ateno, derivada do processo psquico quando o chiste 
 escutado; a utilidade dessas tcnicas auxiliares leva-nos diretamente a suspeitar que precisamente a catexia da ateno partilhe grande parte da tarefa de superviso 
e novo emprego da energia catxica liberada.
         Bem pouco fcil parece ser evitar o emprego endopsquico das catexias tornadas suprfluas pois em nossos processos mentais temos o freqente hbito de substituir 
tais catexias de um trajeto a outro sem perder qualquer parte da energia a ser descarregada. Os chistes utilizam os seguintes mtodos visando aquele propsito. Primeiro, 
tentam abreviar sua expresso tanto quanto possvel, de modo a oferecer  ateno mnimos pontos de ataque. Em segundo lugar, observam a condio da facilidade de 
entendimento (ver em [1]); to logo requeressem trabalho intelectual demandariam uma escolha entre diferentes trajetos de pensamento, arriscando-se assim no apenas 
a um inevitvel dispndio de pensamento como tambm a um despertar da ateno. Mas alm disso empregam o artifcio de distrair a ateno, apresentando na forma da 
expresso do chiste algo que a capte, de modo que a liberao da catexia inibitria e sua descarga possam, nesse nterim, ser completadas sem interrupo. Este objetivo 
j  satisfeito pelas omisses na verbalizao do chiste; estas oferecem um estmulo ao preenchimento das lacunas, conseguindo assim subtrair da ateno o processo 
chistoso. Aqui, a tcnica dos enigmas, que atrai a ateno (ver em [1]),  convocada ao servio da elaborao do chiste. Mesmo muito mais efetivas so as fachadas 
que encontramos especialmente em alguns grupos de chistes tendenciosos (ver em [2]). As fachadas silogsticas preenchem admiravelmente o papel de prender a ateno, 
fornecendo-lhe uma tarefa. Enquanto comeamos a imaginar o que h de errado com a rplica, j estamos rindo; nossa ateno  apanhada desprevenida e a descarga da 
catexia inibitria liberada se completa. O mesmo  verdade para os chistes com uma fachada cmica, onde o cmico vem em ajuda da tcnica do chiste. Uma fachada cmica 
encoraja a efetividade de um chiste por mais de uma maneira; no apenas possibilita o automatismo do processo chistoso, prendendo a ateno, mas tambm facilita 
a descarga pelo chiste, remetendo-a a uma descarga do tipo cmico. O cmico opera aqui exatamente como um prazer preliminar subornador e podemos, desta forma, compreender 
como  que alguns chistes podem renunciar inteiramente ao prazer preliminar produzido pelos mtodos ordinrios, utilizando apenas o cmico como prazer preliminar. 
Entre as tcnicas do chiste propriamente ditas, so particularmente o deslocamento e a representao por algo absurdo que, alm de suas outras qualificaes, suscitam 
tambm uma distrao da ateno desejvel para o curso automtico do processo chistoso.
         
         Como j podemos adivinhar, e como depois constataremos mais claramente, descobrimos na condio da distrao da ateno um trao que no , em absoluto, 
suprfluo ao processo psquico no ouvinte de um chiste. Em conexo com essa h ainda outras coisas que podemos entender. Em primeiro lugar, a questo de por que 
dificilmente identificamos o que causa riso em um chiste, embora isso se possa descobrir pela investigao analtica. O riso , de fato, o produto de um processo 
automtico tornado possvel apenas pelo descarte de nossa ateno consciente. Em segundo lugar, somos capazes de compreender o peculiar fato de que os chistes s 
produzem efeito integral no ouvinte se forem novidade para este, se lhes chegam como uma surpresa. Esta caracterstica dos chistes (que determina a brevidade de 
suas vidas e estimula sua constante renovao) deve-se evidentemente ao fato de que a prpria natureza do ato de surpreender algum ou peg-lo desprevenido implica 
que no se possa ter xito uma segunda vez. Quando um chiste  repetido, a ateno retrocede  primeira ocasio em que o escutou, tal como esta procede de memria. 
Da nos encaminhamos para a compreenso do impulso de contar a algum mais, que ainda no o conhea, um chiste j ouvido. Provavelmente recobra-se da impresso que 
o chiste faz em um recm-vindo algo da possibilidade de prazer, perdida devido a sua falta de novidade. Pode ser que seja esse o mesmo motivo que leva o criador 
do chiste, em primeira instncia, a cont-lo a mais algum.
         [3] Em terceiro lugar devo apresentar - agora, no mais como condio necessria mas apenas como encorajamento ao processo chistoso - os mtodos tcnicos 
auxiliares de elaborao do chiste, calculados para aumentar a cota que obtm a descarga, intensificando assim o efeito do chiste. Em sua maior parte, aumentam tambm 
a ateno que  prestada ao chiste, mas tornam esse efeito incuo, uma vez mais, pela simultnea reteno e inibio de sua mobilidade. Qualquer coisa que provoque 
interesse e desconcertamento opera nestas duas direes - assim, particularmente, o nonsense e a contradio, e tambm o 'contraste de idias' (ver em [1]), que 
algumas autoridades tentaram tornar a caracterstica essencial dos chistes, mas que considero apenas como recursos intensificadores de seu efeito. Tudo que desconcerta 
suscita no ouvinte o estado de distribuio de energia que Lipps denominou 'estancamento psquico' (ver em [2]); sem dvida ele supe corretamente que quanto mais 
poderosa a descarga, mais alto o precedente estancamento. A exposio de Lipps, de fato, no se relaciona especificamente ao chiste, mas ao cmico em geral; podemos, 
porm, considerar tambm como mais provvel nos chistes a descarga de uma catexia inibitria, similarmente aumentada pela altura do estancamento.
         Comea agora a raiar em ns a suspeita de que a tcnica dos chistes seja em geral determinada por duas espcies de propsitos - aqueles que possibilitam 
a construo do chiste na primeira pessoa e aqueles que pretendem garantir ao chiste um efeito maximamente agradvel na terceira pessoa. Pertencem ao primeiro destes 
propsitos tanto o dplice (como Jnus) carter dos chistes, que protege sua produo original de prazer dos ataques da razo crtica, quanto o mecanismo do prazer 
preliminar; a ulterior complicao da tcnica pelas condies enumeradas no presente captulo ocorre em funo da terceira pessoa do chiste. O chiste  assim um 
velhaco hipcrita, servidor, a um s tempo, de dois amos. Tudo que nos chistes objetiva a obteno de prazer,  calculado visando a terceira pessoa como se houvesse 
na primeira pessoa obstculos internos intransponveis. Isso nos d uma inteira impresso de quanto  indispensvel a terceira pessoa para a complementao do processo 
chistoso. Mas enquanto podemos obter um insight bastante bom sobre a natureza deste processo na terceira pessoa, o processo correspondente na primeira pessoa parece 
ainda velado em obscuridade. Das duas questes que colocamos (ver a partir de [1]), 'Por que no conseguimos rir de um chiste feito por ns prprios?' e 'Por que 
somos levados a contar nosso prprio chiste a mais algum?', a primeira escapou at aqui de nossa resposta. Podemos apenas suspeitar que haja uma ntima conexo 
entre os dois fatos explicados: somos compelidos a contar nosso chiste para mais algum porque somos incapazes de rir dele, ns mesmos. Nos insight das condies 
de obteno e descarga de prazer que prevalecem na terceira pessoa nos capacita a inferir, no que concerne  primeira pessoa, que nesta faltam as condies de descarga, 
sendo cumpridas apenas parcialmente as condies relativas  obteno de prazer. Sendo assim, no se pode negar que suplementemos nosso prazer atingindo o riso que 
nos  impossvel atravs de um desvio: atravs da impresso que nos causa a pessoa que fazemos rir. Como afirma Dugas, rimos como se fora 'par ricochet [por ricochete]'. 
O riso est entre as expresses de estados psquicos mais altamente contagiosas. Quando fao alguma pessoa rir, contando-lhe meu chiste, estou de fato utilizando-a 
para suscitar meu prprio riso e  possvel, de fato, observar que a pessoa que comeou a contar o chiste, com a face sria, rene-se depois  gargalhada do outro 
com um riso moderado. Conseqentemente, contar meu chiste a outra pessoa serviria a vrios propsitos: primeiro, dar-me a certeza objetiva de que a elaborao do 
chiste foi bem-sucedida; segundo, completar meu prprio prazer pela reao que provoco na outra pessoa; terceiro - onde entra a questo da repetio de um chiste 
que no foi produzido pelo prprio narrador -, compensar-se da perda de prazer causada pela falta de novidade do chiste.
         
         Como concluso das discusses dos processos psquicos nos chistes, enquanto estes se passam entre duas pessoas, podamos reconsiderar o fator economia, 
cuja importncia para chegar a uma concepo psicolgica dos chistes nos tem aparecido desde a primeira explicao de sua tcnica. J h muito abandonamos a concepo 
mais simples e bvia dessa economia - evitar a despesa psquica em geral, tal como a envolveria a maior restrio possvel ao uso de palavras e ao estabelecimento 
de nexos de pensamento. Mesmo nesse estgio dissemos que no bastaria ser conciso ou lacnico para fazer um chiste (ver em [1]). A brevidade do chiste  de espcie 
peculiar - brevidade 'chistosa'.  verdade que a produo original de prazer, obtida pelo jogo de palavras e pensamentos, derivava de simples economia na despesa; 
mas, com o desenvolvimento do jogo em chiste, a tendncia  economia teve tambm que alterar seus objetivos, pois o montante que se economizava pelo uso da mesma 
palavra ou pela redundncia diante de uma nova maneira de reunir idias no valeria nada, se comparado ao imenso dispndio de energia em nossa atividade intelectual. 
Posso talvez me aventurar a uma comparao entre a economia psquica e um empreendimento comercial. Na medida em que o movimento do negcio  pequeno, o que importa 
 que a despesa em geral se mantenha baixa, os custos administrativos reduzidos a um mnimo. A economia se refere ao valor absoluto da despesa. Mais tarde, quando 
o negcio se expande, a importncia do custo administrativo diminui; a altura alcanada pelo montante da despesa no  o mais importante, desde que o movimento e 
os lucros sejam suficientemente aumentados. Redundaria em sovinice, e mesmo em positivo prejuzo, manter-se conservador quanto  despesa na administrao do negcio. 
Entretanto, erraramos em admitir que diante de uma despesa absolutamente grande no houvesse mais lugar para tendncia  economia. A mente do gerente, se inclinada 
 economia, se voltaria agora para a economia nos detalhes. Ele sentir satisfao se certo trabalho for executado a custo menor que anteriormente, ainda que a economia 
parea pequena em comparao s dimenses da despesa total. De modo bastante anlogo em nosso complexo negcio psquico, tambm a economia nos detalhes persiste 
como fonte de prazer, o que se pode verificar pelos acontecimentos cotidianos. Quem quer que tivesse sua casa iluminada a gs e tem agora a instalao eltrica perceber, 
por algum tempo, um definido sentimento de prazer ao acender a luz eltrica; tal sentimento assomar enquanto for revivida a lembrana das complexas manobras exigidas 
para obteno da luz a gs. Do mesmo modo, as economias na despesa psquica inibitria operadas pelo chiste - embora pequenas comparativamente  totalidade de nossa 
despesa psquica - permanecero para ns uma fonte de prazer porque nos poupam uma despesa particular a que estvamos acostumados e que j nos preparvamos para 
fazer tambm naquela ocasio. O fator de expectativa e preparao para a despesa move-se inequivocamente em primeiro plano.
         Uma economia localizada, tal como a que estamos considerando, no deixar de nos proporcionar um prazer momentneo, mas no acarretar um alvio duradouro 
na medida em que o que  poupado neste ponto pode ser reutilizado em outra parte. Somente quando essa disposio  evitada, a economia especializada transforma-se 
em um alvio geral da despesa psquica. Assim, quando chegamos a uma melhor compreenso dos processos psquicos do chiste, o fator alvio toma o lugar da economia. 
 bvio que o primeiro fornece um maior sentimento de prazer. O processo de chiste na primeira pessoa produz prazer pela suspenso da inibio e diminuio da despesa 
local; no parece entretanto chegar ao fim seno por intermdio de uma terceira pessoa interpolada, obtendo o alvio geral atravs da descarga.
         
         
         
         
       
       
       C. PARTE TERICA
         
         VI - A RELAO DOS CHISTES COM OS SONHOS E O INCONSCIENTE
         
         Ao fim do captulo em que me ocupei da descoberta da tcnica dos chistes, observei (ver em [1]) que os processos de condensao, com ou sem formao de 
substitutivos, de representao pelo nonsense ou pelo oposto, de representao indireta etc., os quais, como constatei, desempenham uma parte na produo dos chistes, 
mostram uma concordncia muito abrangente com os processos de 'elaborao onrica'. Prometi, por um lado, que posteriormente estudaramos essas similaridades mais 
de perto e, por outro lado, examinaramos o elemento comum nos chistes e nos sonhos, o qual me parece assim sugerido. Seria mais fcil para mim operar essa comparao 
se pudesse assumir que um de seus dois objetos - a 'elaborao onrica' - fosse j familiar a meus leitores. Entretanto ser provavelmente mais sbio no fazer tal 
suposio. Tenho a impresso de que meu A Interpretao de Sonhos, publicado em 1900, provocou mais 'desconcerto' que 'esclarecimento' entre meus colegas especialistas; 
sei que crculos maiores de leitores contentaram-se em reduzir o contedo do livro a uma frmula ('realizao do desejo') que pode ser facilmente recordada e convenientemente 
mal-usada.
         O contnuo interesse pelos problemas l tratados - pois disso me tem dado larga oportunidade minha prtica mdica como psicoterapeuta - no me conduziu 
a nada que pudesse ter exigido alteraes ou melhorias nas linhas de meu pensamento; posso portanto esperar tranqilamente at que a compreenso de meus leitores 
me alcance ou at que uma crtica judiciosa demonstre os erros fundamentais em minha concepo. Para o propsito de efetuar a comparao com os chistes repetirei 
agora, breve e concisamente, a informao mais essencial sobre os sonhos e a elaborao onrica.
         Sabemos de um sonho aquilo que, via de regra, se parece a uma lembrana fragmentria que nos ocorre depois de despertar. Tal lembrana aparece como uma 
miscelnea de impresses sensoriais, principalmente visuais mas tambm de outros tipos, que simula uma experincia e  qual podem ser misturados processos de pensamento 
(o 'saber' no sonho) e expresses de afeto. O que, desse modo, recordamos do sonho chamo 'contedo manifesto do sonho'. , freqentemente, absurdo e confuso - algumas 
vezes, apenas um ou outro. Mas mesmo se  bastante coerente, como no caso de alguns sonhos de ansiedade, confronta nossa vida mental com algo diferente, cuja origem 
no podemos explicar de nenhuma maneira. A explicao dessas caractersticas dos sonhos tem at agora sido pesquisada nos prprios sonhos, considerando-os como indicaes 
de uma atividade dos elementos nervosos desordenada, dissociada e, como que, 'adormecida'.
         Demonstrei, contrariamente, que o estranho contedo 'manifesto' dos sonhos pode ser tornado regularmente inteligvel como sendo a transcrio mutilada e 
alterada das estruturas psquicas racionais, que merecem o nome de 'pensamentos onricos latentes'. Chegamos ao conhecimento destes dividindo o contedo manifesto 
do sonho em seus componentes, sem considerar qualquer sentido aparente que possam ter [como um todo] e seguindo ento os fios de associao que procedem de cada 
um dos elementos agora isolados. Estes entretecem-se e levam finalmente a uma trama de pensamento que no so perfeitamente racionais mas podem facilmente se adequar 
no conhecido contexto de nossos processos mentais. No curso dessa 'anlise', teremos descartado o contedo do sonho de todas as peculiaridades que nos intrigam. 
Mas se a anlise alcana xito, devemos, enquanto ela opera, rejeitar firmemente as objees crticas que sem cessar opem-se  reproduo das vrias associaes 
intermedirias.
         A comparao do contedo manifesto do sonho recordado com os pensamentos onricos latentes assim descobertos d  luz o conceito de 'elaborao onrica'. 
A elaborao onrica  o nome de toda a soma de processos transformadores que convertem os pensamentos onricos latentes em sonho manifesto. A surpresa com que inicialmente 
consideramos o sonho associa-se agora  elaborao onrica.
         Os empreendimentos da elaborao onrica podem ser descritos como segue. Uma trama de pensamentos, usualmente muito complicada, elaborada durante o dia 
mas incompletamente manipulada - um 'resduo diurno' - continua durante a noite a reter a cota de energia e 'interesse' - que reclama, ameaando perturbar o sono. 
Este 'resduo diurno'  transformado em sonho pela elaborao onrica, tornado assim incuo ao sono. Para fornecer um fulcro  elaborao onrica, o 'resduo diurno' 
deve ser capaz de construir um desejo - o que no  condio muito difcil de se cumprir. O desejo originrio dos pensamentos onricos forma o estgio preliminar 
e, mais tarde, o ncleo do sonho. A experincia derivada das anlises - e no da teoria dos sonhos - informa que nas crianas qualquer desejo restante da vida desperta 
 suficiente para suscitar um sonho que emerge, conectado e engenhoso embora usualmente breve, e facilmente reconhecvel como 'realizao do desejo'. No caso dos 
adultos parece ser uma condio geralmente obrigatria que o desejo criador do sonho seja alheio ao pensamento consciente - um desejo reprimido - ou, ao menos, ter 
possivelmente reforos desconhecidos da conscincia. Sem admitir a existncia do inconsciente no sentido explanado acima (ver em [1]), no poderei desenvolver mais 
longe a teoria dos sonhos nem interpretar o material encontrado nas anlises de sonhos. A ao deste desejo inconsciente sobre o material conscientemente racional 
dos pensamentos onricos produz o sonho. Enquanto isso acontece, o sonho  como que dragado pelo inconsciente ou, mais precisamente,  submetido a um tratamento 
tal como o encontrado no nvel dos processos de pensamentos inconscientes, tratamento caracterstico desse nvel. At aqui, somente os resultados da 'elaborao 
onrica' apresentam efetivamente as caractersticas do pensamento inconsciente e as suas diferenas em relao ao pensamento capaz de tornar-se consciente - o pensamento 
'pr-consciente'.
         Uma teoria nova,  qual falta simplicidade e que enfrenta nossos hbitos de pensamentos, dificilmente h de ganhar clareza em uma apresentao concisa. 
Tudo que posso pretender com esses comentrios  chamar a ateno para o mais completo tratamento do inconsciente em meu A Interpretao de Sonhos e nos escritos 
de Lipps, que me parecem da mais alta importncia. Bem sei que aqueles, enfeitiados por uma boa educao filosfica acadmica ou que extraem em larga escala suas 
opinies de algum, assim chamado, sistema filosfico ho de se opor  admisso de um 'inconsciente psquico' no sentido em que Lipps e eu usamos o termo e preferiro 
provar sua impossibilidade  base de uma definio do psquico. Mas as definies so matria de conveno e podem ser alteradas. Tenho com freqncia verificado 
que as pessoas que discutem o inconsciente como algo absurdo e impossvel no formaram suas opinies nas fontes que me levaram, ao menos,  necessidade de reconhec-lo. 
Tais adversrios do inconsciente nunca testemunharam o efeito de uma sugesto ps-hipntica e quando lhes disse de minhas experincias com neurticos no-hipnotizados 
foram tomados de grande perplexidade. Nunca perceberam a idia de que o inconsciente  algo que realmente no conhecemos, mas que somos obrigados a admitir atravs 
de compulsivas inferncias; compreenderam-no como algo capaz de tornar-se consciente embora no estivesse sendo pensado em tal momento, no ocupasse 'o ponto focal 
da ateno'. Nem tentaram nunca se convencer da existncia, em suas prprias mentes, de pensamentos inconscientes como esses pela anlise de um de seus prprios 
sonhos; quando tentei faz-lo, puderam apenas acolher suas prprias associaes com surpresa e confuso. Penso que resistncias emocionais fundamentais obstam o 
caminho da aceitao do inconsciente, fundadas no fato de que no se quer conhecer o prprio inconsciente, sendo ento o plano mais conveniente a negao completa 
de tal possibilidade.
         A elaborao onrica -  qual retorno aps essa digresso - submete o material dos pensamentos, apresentados no modo optativo,  mais estranha das revises. 
Primeiro, passa do optativo ao presente do indicativo; substitui o 'Oh! se ao menos...' pelo ''. Confere-se ento ao '' uma representao alucinatria; aquilo 
que chamei de 'regresso' na elaborao onrica - o trajeto que leva dos pensamentos s imagens conceptuais, ou, para usar a terminologia da ainda desconhecida topografia 
do aparato mental (no entendido anatomicamente), da regio das estruturas dos pensamentos s percepes sensoriais. Neste caminho, inverso ao curso tomado pelo 
desenvolvimento das complicaes mentais, d-se aos pensamentos onricos um carter pictorial; eventualmente, chega-se a uma situao plstica que  o ncleo do 
manifesto 'quadro onrico'. Para que seja possvel aos pensamentos onricos serem representados em forma sensorial, sua expresso deve sofrer modificaes abrangentes. 
Mas enquanto os pensamentos esto sendo restitudos s imagens sensoriais, ocorrem neles ainda outras alteraes, umas comprovadamente necessrias mas outras, surpreendentes. 
Podemos entender que, como resultado subsidirio da regresso, quase todas as relaes internas entre os pensamentos interconectados sejam perdidas no sonho manifesto. 
A elaborao onrica, como poderamos verificar, s empreende a representao do material bruto das idias e no das relaes lgicas em que estas se dispunham; 
ou, em todo o caso, reserva-se a liberdade de desrespeitar essas ltimas. Por outro lado, h uma outra parte da elaborao onrica que no pode ser atribuda  regresso, 
 restituio em imagens sensrias;  precisamente esta parte que ocupa importante lugar em nossa analogia com a formao dos chistes. No decorrer da elaborao 
onrica o material dos pensamentos onricos  sujeito a uma muito extraordinria compresso ou condensao. Um ponto de partida lhe  fornecido por quaisquer elementos 
comuns que possam estar presentes nos pensamentos onricos, seja por acaso, ou devido  natureza de seu contedo. J que esses no so em geral suficientes para 
qualquer condensao considervel, novos elementos artificiais e transitrios so criados na elaborao onrica e, em vista deste fim, h realmente uma preferncia 
por palavras cujo som exprima diferentes significados. Os elementos comuns, recm-criados, de condensao penetram no contedo manifesto do sonho como representantes 
dos pensamentos onricos, de modo que um elemento no sonho corresponde a um ponto nodal ou a uma juno nos pensamentos onricos, e, comparativamente a estes ltimos, 
deve ser descrito geralmente como 'superdeterminado'. A condensao  a pea da elaborao onrica mais facilmente reconhecvel; basta comparar o texto de um sonho, 
quando  anotado, com o registro dos pensamentos onricos a que se chega pela anlise para que nos impressionemos com a extensividade da condensao onrica.
          menos fcil convencer-nos da modificao de segundo grau dos pensamentos onricos, operada pela elaborao onrica - o processo que denominei 'deslocamento 
no sonho'. Este  demonstrado pelo fato de que as coisas que esto situadas na periferia dos pensamentos onricos, e que so de importncia menor, passam a ocupar 
uma posio central, aparecendo com grande intensidade sensria no sonho manifesto, e vice-versa. Isto d ao sonho a aparncia de estar deslocado em relao aos 
pensamentos onricos, sendo tal deslocamento precisamente o revelador de que o sonho confronta a vida mental desperta com algo estranho e incompreensvel. Para que 
possa ocorrer um deslocamento como esse, deve ser possvel que a energia catxica se desloque sem inibies das idias importantes s desimportantes - o que, no 
pensamento normal, capaz de ser consciente, daria apenas a impresso de 'raciocnio falho'.
         A transformao, visando  possibilidade de representao, a condensao e o deslocamento so as trs principais realizaes que se pode atribuir  elaborao 
do sonho. Uma quarta, talvez considerada com excessiva brevidade em A Interpretao de Sonhos, no  relevante para nossos propsitos atuais. Se as idias da 'topografia 
do aparato mental' e da 'regresso' forem consistentemente desenvolvidas (e somente dessa forma essas hipteses de trabalho podero ter alguma valia), devemos tentar 
determinar os estgios da regresso em que ocorrem as vrias transformaes dos pensamentos onricos. Tal tentativa ainda no foi empreendida seriamente mas pode-se 
ao menos afirmar com certeza que o deslocamento no material onrico deve ocorrer enquanto este se encontra no estgio dos processos inconscientes, enquanto a condensao 
deve ser provavelmente representada como um processo que se estende por todo o curso dos eventos at atingir a regio perceptual. Mas, em geral, devemos nos contentar 
em admitir que todas as foras que tomam parte na formao dos sonhos operam simultaneamente. Embora, como h de se perceber, devamos manter certas reservas ao lidar 
com tais problemas e embora persistam dvidas fundamentais, que no podem ser apresentadas aqui, quanto  esquematizao da questo desta maneira, gostaria entretanto 
de me aventurar a afirmar que o processo de elaborao onrica preparatrio ao sonho deve se localizar na regio do inconsciente. Assim, a falar grosseiramente, 
haveria ao todo trs estgios a ser distinguidos na formao de um sonho: primeiro, o transplante dos resduos diurnos pr-conscientes ao inconsciente, no qual devem 
operar as condies que governam o estado de sono; depois, d-se a elaborao onrica propriamente dita no inconsciente; e em terceiro lugar, a regresso do material 
onrico, assim revisto,  percepo onde o sonho se torna consciente.
         Pode-se reconhecer as seguintes foras como tomando parte na formao dos sonhos: o desejo de dormir, a catexia da energia remanescente nos resduos diurnos, 
depois que a energia  diminuda pelo estado de sono, a energia psquica do desejo inconsciente construtor do sonho e a oponente fora da 'censura' que domina a 
vida diria e no  completamente suspensa durante o sono. A tarefa da formao do sonho , acima de tudo, superar a inibio da censura e precisamente esta tarefa 
 resolvida pelos deslocamentos de energia psquica dentro do material dos pensamentos onricos.
         Recordemos agora o que  que, em nossa investigao dos chistes, nos d ocasio de pensar nos sonhos. Constatamos que as caractersticas e efeitos dos chistes 
conectam-se com certas formas de expresso ou mtodos tcnicos, entre os quais os mais surpreendentes so a condensao, o deslocamento e a representao indireta. 
Processos, entretanto, que levam aos mesmos resultados - condensao, deslocamento e representao indireta - foram por ns reconhecidos como peculiaridades da elaborao 
onrica. No sugerir essa concordncia a concluso de que a elaborao do chiste e a elaborao onrica devem ser idnticas, pelo menos em alguns aspectos essenciais? 
Ao que penso, a elaborao onrica nos foi revelada no que tange s suas mais importantes caractersticas. Entre os processos psquicos nos chistes, a parte que 
nos  ocultada corresponde precisamente  outra, comparvel, na elaborao onrica - a saber, aquilo que acontece, durante a formao de um chiste na primeira pessoa. 
Deveremos no ceder  tentao de hipostasiar um tal processo  semelhana do que acontece na formao de um sonho? Algumas das caractersticas dos sonhos so to 
estranhas aos chistes que a parte da elaborao onrica correspondente a tais caractersticas no pode ser transferida  formao dos chistes. Sem dvida a regresso 
do curso do pensamento  percepo est ausente dos chistes. Mas os outros dois estgios da formao onrica, o mergulho de um pensamento pr-consciente no inconsciente 
e sua reviso inconsciente, desde que ocorram na formao do chiste, apresentariam o mesmo resultado que podemos observar nos chistes. Decidamo-nos, ento, a adotar 
a hiptese de que  dessa forma que os chistes so formados na primeira pessoa: um pensamento pr-consciente  abandonado por um momento  reviso do inconsciente 
e o resultado disso  imediatamente capturado pela percepo consciente.
         Antes de examinarmos em detalhe essa hiptese, consideremos uma objeo que pode ameaar nossa premissa. Partimos do fato de que as tcnicas dos chistes 
indicam os mesmos processos conhecidos como peculiaridades da elaborao onrica. Ora,  fcil discordar disso, afirmando que no teramos descrito as tcnicas dos 
chistes como condensao, deslocamento etc., nem chegado a postular conformidades to abrangentes entre chistes e sonhos, caso nosso prvio conhecimento da elaborao 
onrica no tivesse influenciado nossa concepo da tcnica dos chistes; portanto, no fundo, o que estamos fazendo  apenas encontrar nos chistes uma confirmao 
das expectativas procedentes dos sonhos e com as quais os abordamos. Se  este o fundamento da conformidade, no haveria qualquer outra garantia de sua existncia 
afora nosso preconceito. De fato, a condensao, o deslocamento e a representao indireta no foram considerados por qualquer outro autor como explicativas das 
formas de expresso dos chistes. Esta seria uma objeo possvel, mas no por isso uma objeo justa. Seria igualmente possvel que fosse indispensvel que nossas 
concepes fossem aguadas pelo conhecimento da elaborao onrica antes que pudssemos reconhecer uma conformidade real. Afinal, a deciso quanto a esse dilema 
depender apenas do que possa provar o exame crtico  base de exemplos individuais: ou essa  uma forada concepo da tcnica dos chistes, a favor da qual foram 
suprimidas concepes mais plausveis e mais aprofundadas ou tal exame nos obrigar a admitir que as expectativas derivadas dos sonhos podem ser de fato confirmadas 
nos chistes. Sou de opinio que nada temos a temer dessa crtica e que nosso procedimento de 'reduo' (ver em [1]) mostrou-nos confiavelmente em que formas de expresso 
procurar as tcnicas dos chistes. Se damos a estas tcnicas nomes que antecipam a descoberta da conformidade entre a elaborao do chiste e a elaborao onrica, 
temos todo o direito de faz-lo, tratando-se apenas de uma simplificao facilmente justificvel.
         H uma outra objeo que no nos afetaria seriamente mas que tambm no est to aberta a uma refutao fundamental. Poder-se-ia dizer que embora seja verdade 
que as tcnicas do chiste, que to bem se adequam a nosso esquema, meream ser reconhecidas, elas no so, apesar disso, as nicas tcnicas chistosas, nem as nicas 
usadas na prtica. Seria possvel dizer que sob a influncia do modelo da elaborao onrica procuramos tcnicas do chiste que se lhe adeqem enquanto que outras, 
por ns desconsideradas, teriam provado que esta conformidade no est invariavelmente presente. No posso realmente me aventurar a afirmar que consegui elucidar 
a tcnica de todos os chistes em circulao; devo portanto deixar em aberto a possibilidade de que minha enumerao das tcnicas de chiste deixe ainda alguma lacuna. 
Mas no exclu intencionalmente da discusso qualquer tipo de tcnica que me fosse clara e posso declarar que no me escaparam  ateno os mtodos do chiste mais 
comuns, mais importantes e caractersticos.
         Os chistes possuem ainda outra caracterstica que se adequa satisfatoriamente  concepo da elaborao do chiste que derivamos dos sonhos. Falamos,  verdade, 
de 'fazer' um chiste, mas estamos cnscios da diferena (que se inscreve) em nosso comportamento quando fazemos um julgamento ou uma objeo. O chiste tem em alto 
grau a caracterstica de ser uma noo que nos ocorre 'involuntariamente'. No acontece que saibamos, um momento antes, que chiste vamos fazer, necessitando, apenas, 
vesti-lo em palavras. Temos, antes, um indefinvel sentimento, cuja melhor comparao  com uma 'absence', um repentino relaxamento da tenso intelectual, e ento, 
imediatamente, l est o chiste - em regra, j vestido em palavras. Algumas tcnicas dos chistes podem ser empregadas, fora destes, na expresso de um pensamento 
- por exemplo, as tcnicas de analogia ou de aluso. Posso deliberadamente me decidir a fazer uma aluso. Em tal caso comeo por ter uma expresso direta do pensamento 
em minha mente (em meu ouvido interno); inibo essa expresso devido a algum receio relacionado  situao externa, e quase se pode dizer que preparo minha mente 
para substituir a expresso direta por uma outra forma de expresso indireta; produzo ento uma aluso. Mas a aluso que emerge desse modo, formada sob minha contnua 
superviso, nunca  um chiste ainda que se preste a outras utilizaes. Uma aluso chistosa, por outro lado, emerge sem que eu possa seguir esses estgios preparatrios 
em meus pensamentos. No atribuirei importncia grande demais a esse comportamento; dificilmente ser ele decisivo, embora concordante com nossa hiptese de que, 
na formao do chiste, um curso de pensamento seja por um instante abandonado, emergindo ento repentinamente como chiste.
         
         Com respeito  associao, os chistes apresentam tambm um comportamento especial. Freqentemente no esto disponveis em nossa memria quando precisamos 
deles; mas de outras vezes aparecem, como que involuntariamente, em pontos no nosso curso de pensamentos onde no vemos sua relevncia. Estas so, novamente, apenas 
pequenas caractersticas indicativas de sua origem no inconsciente.
         Vamos agora reunir as caractersticas dos chistes que se refiram a sua formao no inconsciente. Primeiro, e antes de tudo, h a peculiar brevidade dos 
chistes - um trao que no  na verdade essencial, mas extremamente distintivo. Quando primeiro o encontramos, inclinamo-nos a consider-lo como expresso da tendncia 
 economia, mas esta concepo foi abandonada devido a suas bvias objees (ver em [1]). Parece-nos agora, antes, uma marca da reviso inconsciente a que o pensamento 
do chiste foi submetido pois no podemos conectar o fator correspondente nos sonhos, a condensao, com algo diferente da localizao no inconsciente; devemos supor 
tambm que os determinantes de tais condensaes, ausentes no pr-consciente, estejam presentes nos processos inconscientes do pensamento. Espera-se que no processo 
de condensao alguns dos elementos a ele submetidos se percam, enquanto outros, que extraem energia catxica dos primeiros, sejam intensificados atravs da condensao. 
Assim, a brevidade dos chistes, como a dos sonhos, seria uma necessidade concomitante das condensaes que ocorrem em ambos - sendo nos dois casos uma conseqncia 
do processo da condensao. Essa origem explicaria tambm o carter especial da brevidade dos chistes que no pode ser ulteriormente definida, mas que  sentida 
como surpreendente.
         Em passagem anterior (ver em [1]) consideramos um dos resultados da condensao - uso mltiplo do mesmo material, jogo de palavras, e similaridade fnica 
- como uma economia localizada, procedendo dessa economia o prazer produzido por um chiste (inocente); mais tarde (ver em [2]) inferimos que a inteno original 
dos chistes era obter das palavras um prazer dessa espcie - coisa permitida no estgio do jogo mas estancada pela crtica racional no curso do desenvolvimento intelectual. 
Adotamos agora a hiptese de que condensaes como essas, que servem  tcnica dos chistes, emergem automaticamente, sem qualquer inteno particular, durante os 
processos do pensamento no inconsciente. Teremos diante de ns duas concepes diferentes do mesmo fato, as quais parecem mutuamente incompatveis? No creio que 
o sejam.  verdade que estas so duas concepes diferentes, cuja harmonia no  necessria, mas no so concepes contraditrias. Uma  simplesmente estranha  
outra; quando estabelecermos entre ambas uma conexo teremos provavelmente feito algum avano no conhecimento. O fato de que tais condensaes sejam fonte de prazer 
est longe de incompatibilizar-se com a hiptese de que as condies de sua produo so facilmente encontrveis no inconsciente. Podemos, inversamente, ver uma 
razo para o mergulho no inconsciente na circunstncia de que as condensaes produtoras de prazer, das quais o chiste necessita, originam-se l facilmente. H, 
alm do mais, dois outros fatores que,  primeira vista, parecem ser completamente estranhos entre si e se renem, como por um acaso indesejado, mas que, investigados 
mais profundamente, revelam-se intimamente conectados e mesmo essencialmente idnticos. Tenho em mente duas asseres: por um lado, os chistes durante seu desenvolvimento, 
no estgio de jogo (isto , durante a infncia da razo), podem efetuar essas condensaes agradveis e, por outro lado, em estgios mais adiantados, cumprem o mesmo 
efeito mergulhando o pensamento no inconsciente. Pois o infantil  a fonte do inconsciente e os processos de pensamento inconscientes so exatamente aqueles produzidos 
na tenra infncia. O pensamento que, com a inteno de construir um chiste, mergulha no inconsciente est meramente procurando l a antiga ptria de seu primitivo 
jogo com as palavras. O pensamento retroage por um momento ao estgio da infncia de modo a entrar na posse, uma vez mais, da fonte infantil de prazer. Se j sabemos 
disso atravs da nossa pesquisa da psicologia das neuroses, devemos ser conduzidos pelos chistes  suspeita de que a estranha reviso inconsciente nada mais  que 
o tipo infantil de atividade do pensamento. Simplesmente, no nos  muito fcil captar nas crianas um lampejo deste modo infantil de pensar, cujas peculiaridades 
ficam retidas no inconsciente do adulto, porque em sua maior parte, este modo de pensar  retificado como que in statu nascendi. Mas conseguimos faz-lo em inmeros 
casos e nos rimos ento desta 'bobagem' infantil. Qualquer descoberta de material inconsciente desta espcie parece-nos 'cmica'.
         
          mais fcil perceber as caractersticas destes processos do pensamento inconsciente nos comentrios dos pacientes de certas doenas mentais. Muito provavelmente, 
devemos poder compreender (como Griesinger sugeriu, h muito) os delrios dos insanos utilizando-os como informao, se cessamos de lhes aplicar os requisitos do 
pensamento consciente e se os tratamos, como sonhos, com nossa tcnica interpretativa. Na verdade confirmamos o fato de que 'nos sonhos h um retorno da mente a 
um ponto de vista embrionrio'.
         J penetramos to intimamente, em conexo com os processos de condensao, na importncia da analogia entre os sonhos e chistes que podemos, agora, ser 
mais breves no que se segue. Como sabemos, os deslocamentos na elaborao onrica apontam para a operao da censura pelo pensamento consciente e, em conseqncia, 
quando encontramos o deslocamento entre as tcnicas dos chistes, inclinamo-nos a supor que uma fora inibitria operava tambm na formao dos chistes. J sabemos 
que isso ocorre muito generalizadamente. O esforo, feito pelos chistes, de recobrar o antigo prazer no nonsense ou o antigo prazer nas palavras encontra-se inibida, 
nas disposies normais, pelas objees levantadas pela razo crtica; esta tem que ser superada em cada caso individual. Mas o modo pelo qual a elaborao do chiste 
cumpre essa tarefa mostra uma decisiva distino entre chistes e sonhos. Na elaborao onrica (a tarefa)  habitualmente cumprida pelos deslocamentos, pela seleo 
de idias suficientemente remotas daquela objetvel, de modo que a censura lhes permite passar, sendo (tais idias), no obstante, derivativas daquela e transmissoras 
de sua catexia psquica atravs de uma completa transferncia. Por esta razo os deslocamentos nunca esto ausentes do sonho e so mesmo muito mais compreensivos.
         Entre os deslocamentos devem ser contados no meramente os desvios de um curso de pensamentos mas tambm toda sorte de representao indireta, em particular, 
o deslocamento de um elemento importante, mas objetvel, por outro que  indiferente e que parece inocente  censura, algo semelhante a uma aluso muito remota - 
substituio por um simbolismo, ou uma analogia, ou por algo menor. No se pode negar que pores de tais representaes indiretas j estejam presentes nos pensamentos 
pr-conscientes do sonho - por exemplo, a representao por smbolos ou analogias - porque, de outra forma, o pensamento no lograria em absoluto o estgio de expresso 
pr-consciente. As representaes indiretas como essa, e as aluses cuja referncia  coisa pretendida  fcil de descobrir, so na verdade mtodos permissveis 
e muito usados na expresso tambm de nosso pensamento consciente. A elaborao onrica, entretanto, exagera esse mtodo de representao indireta alm de todos 
os limites. Sob a presso da censura, qualquer espcie de conexo  bastante boa para servir como substitutivo por aluso, permitindo-se o deslocamento de um a outro 
elemento. A substituio de associaes internas (similaridade, conexo causal etc.) por outras, conhecidas como externas (simultaneidade no tempo, contigidade 
espacial, similaridade fnica),  muito especialmente notvel e peculiar  elaborao onrica.
         Todos esses mtodos de deslocamento ocorrem tambm como tcnicas do chiste. Mas quando aparecem, usualmente respeitam os limites impostos a seu emprego 
pelo pensamento consciente; podem estar mesmo completamente ausentes, embora os chistes tenham tambm, invariavelmente, a tarefa de lidar com uma inibio. Podemos 
compreender o lugar subordinado, assumido pelos deslocamentos na elaborao do chiste, quando recordamos que os chistes dispem de uma outra tcnica para descartar 
a inibio, tcnica que consideramos precisamente o mais caracterstico de seus traos. Pois, diferentemente dos sonhos, os chistes no criam compromissos; eles 
no evitam a inibio, mas insistem em manter inalterado o jogo com as palavras ou com o nonsense. Restringem-se entretanto a uma escolha das ocasies em que esse 
jogo ou esse nonsense possam ao mesmo tempo parecer permissveis (nos gracejos) ou sensatos (nos chistes), graas  ambigidade das palavras ou  multiplicidade 
das relaes conceptuais. Nada distingue os chistes mais nitidamente de todas as outras estruturas psquicas do que essa bilateralidade e essa duplicidade verbal. 
Desse ponto de vista, pelo menos, as autoridades se aproximaram de uma compreenso da natureza do chiste, quando puseram nfase sobre o 'sentido no nonsense' (ver 
em [1]).
         Em vista da predominncia universal nos chistes dessa tcnica peculiar de superao das inibies, podia se considerar que lhes fosse suprflua a utilizao 
da tcnica de deslocamento em casos particulares. Mas, por um lado, certas espcies dessa tcnica permanecem valiosas para os chistes enquanto alvos e fontes do 
prazer - por exemplo, o deslocamento propriamente dito (desvio de pensamentos), que em verdade partilha a natureza do nonsense. Por outro lado, no se deve esquecer 
que o mais elevado estgio dos chistes, os chistes tendenciosos, tem freqentemente que superar duas espcies de inibio - a que se ope ao prprio chiste e a que 
se ope a seu propsito (ver em [1]) -, sendo as aluses e deslocamentos bem qualificados para possibilitar essa ltima tarefa.
         O uso abundante e irrestrito da representao indireta, dos deslocamentos e, especialmente, das aluses, na elaborao onrica, tem um resultado que menciono, 
no por sua prpria importncia, mas porque tornou-se minha razo subjetiva para atacar o problema dos chistes. Se se descreve uma anlise do sonho a uma pessoa 
desinformada ou desacostumada com ela, anlise em que se expem os estranhos processos de aluses e deslocamentos - to antipticos  vida desperta - utilizados 
pela elaborao onrica, o leitor recebe uma impresso desconfortvel e declara que tais interpretaes so 'de algum modo chistosas'. Mas claramente no os considera 
chistes bem-sucedidos, e sim forados, violando de alguma forma as regras dos chistes.  fcil explicar essa impresso. Deriva do fato de que a elaborao onrica 
opera pelos mesmos mtodos que os chistes, mas ao utiliz-los, transgride os limites respeitados pelos chistes. Aqui verificaremos (ver em [1]) que, em conseqncia 
da parte desempenhada pela terceira pessoa, os chistes so ligados a uma certa condio que no se aplica aos sonhos.
         
         Entre as tcnicas comuns aos chistes e aos sonhos, a representao pelo oposto e o uso do nonsense reclamam alguma parte de nosso interesse. A primeira 
 um dos mais efetivos mtodos empregados nos chistes, como se verifica, entre outros, pelos exemplos dos 'chistes de exagerao' (ver em [1]). Incidentalmente, 
a representao pelo oposto no consegue, como a maior parte das outras tcnicas dos chistes, escapar  ateno consciente. Uma presso que tenta fazer operar em 
si a elaborao do chiste to deliberadamente quanto possvel - um gaiato profissional - logo descobre via de regra que o modo mais fcil de replicar a uma assero 
com um chiste  pela assero de seu contrrio, deixando  inspirao do momento o livrar-se da objeo que, provavelmente, sua contradio provocar, fornecendo 
o que se denomina uma nova interpretao. Pode ser que a representao pelo oposto agradea o favor de que desfruta ao fato de constituir o ncleo de uma outra gratificante 
forma de expresso de um pensamento, a qual pode ser entendida sem qualquer necessidade de remisso ao inconsciente. Refiro-me  ironia, muito prxima do chiste 
(ver em [1]) e contada entre as subespcies do cmico. Sua essncia consiste em dizer o contrrio do que se pretende comunicar a outra pessoa, mas poupando a esta 
uma rplica contraditria fazendo-lhe entender - pelo tom de voz, por algum gesto simultneo, ou (onde a escrita est envolvida) por algumas pequenas indicaes 
estilsticas - que se quer dizer o contrrio do que se diz. A ironia s pode ser empregada quando a outra pessoa est preparada para escutar o oposto, de modo que 
no possa deixar de sentir uma inclinao a contradizer. Em conseqncia dessa condio a ironia se expe facilmente ao risco de ser mal-entendida. Proporciona  
pessoa que a utiliza a vantagem de capacitar-se prontamente a evitar as dificuldades da expresso direta, por exemplo, no caso das invectivas. Isso produz prazer 
cmico no ouvinte, provavelmente porque excita nele uma contraditria despesa de energia, reconhecida como desnecessria. Uma comparao como essa, entre os chistes 
e um tipo de comicidade, que lhes  intimamente relacionada, pode confirmar nossa pressuposio de que a caracterstica peculiar dos chistes  sua relao com o 
inconsciente, o que permite talvez distingui-los tambm do cmico.
         Na elaborao onrica, a representao pelo oposto desempenha uma parte ainda maior que nos chistes. Os sonhos no so simplesmente favorveis  representao 
de dois contrrios pela mesma e nica estrutura composta, mas to freqentemente mudam parte dos pensamentos onricos em seus opostos, que isso leva o trabalho de 
interpretao a grandes dificuldades. 'No h maneira de decidir  primeira vista se algum elemento que admite um contrrio est presente nos pensamentos onricos 
como um positivo ou como um negativo.'
         Devo afirmar enfaticamente que esse fato at agora no mereceu reconhecimento. Mas parece apontar para importante caracterstica do pensamento inconsciente 
no qual, com toda probabilidade, no ocorre nenhum processo que se assemelhe ao 'julgamento'. No lugar da rejeio por um julgamento, o que encontramos no inconsciente 
 a 'represso'. Esta pode, sem dvida, ser corretamente descrita como estgio intermedirio entre um reflexo defensivo e um julgamento condenador.
         O nonsense, o absurdo, que aparece com tanta freqncia nos sonhos, condenando-os a desprezo to imerecido, nunca ocorre por acaso atravs da mesclagem 
dos elementos ideacionais, podendo sempre demonstrar sua admisso intencional pela elaborao onrica, cabendo-lhes representar nos pensamentos onricos a crtica 
amargurada e a contradio desdenhosa. Assim o absurdo no contedo dos sonhos assume o lugar do julgamento 'isto  apenas nonsense' nos pensamentos onricos. Dou 
grande nfase  interpretao desse fato em A Interpretao de Sonhos porque considerei que, dessa forma, podia fazer o mais forte dos ataques ao erro de acreditar 
que o sonho no  em absoluto um fenmeno psquico - erro que bloqueia o caminho ao conhecimento do inconsciente. Aprendemos agora, ao analisar certos chistes tendenciosos 
(ver em [1]), que o nonsense nos chistes destina-se a servir aos mesmos objetivos de representao. Sabemos tambm que uma fachada sem sentido se adequa particularmente 
bem a aumentar a despesa psquica do ouvinte, aumentando assim a cota liberada atravs da descarga pelo riso (ver em [1]). Mas alm disso no se deve esquecer que 
o nonsense em um chiste  um fim em si mesmo, j que a inteno de recobrar o antigo prazer no nonsense est entre os motivos da elaborao do chiste. H outros 
modos de recobrar o nonsense e de derivar prazer dele: a caricatura, a exagerao pardica utilizam-no e assim criam o 'nonsense cmico'. Se submetemos tais formas 
de expresso a uma anlise similar quela aplicada aos chistes, constataremos que em nenhum desses casos h alguma ocasio de apresentar processos inconscientes 
(como os definimos), a fim de explic-las. Podemos agora compreender como  que a caracterstica chistosa pode acorrer, em acrscimo extra,  caricatura, exagerao 
ou pardia; o fator que possibilita isto  uma diferena na 'cena psquica da ao'.
         
         Penso que a atribuio da elaborao do chiste ao sistema do inconsciente torna-se muito mais importante para ns agora que permite-nos compreender o fato 
de que as tcnicas a que os chistes, admitidamente, aderem no so, por outro lado, sua propriedade exclusiva. Algumas dvidas, que fomos obrigados a adiar para 
mais tarde em nosso exame original dessas tcnicas, encontram agora uma soluo confortvel. Por essa mesma razo uma outra dvida que agora assoma  merecedora 
de toda a nossa considerao. Isso sugere que a inegvel relao dos chistes com o inconsciente  de fato vlida apenas para certas categorias de chistes tendenciosos 
enquanto ns nos preparamos a estend-la a toda espcie e a todo estgio de desenvolvimento dos chistes. No devemos fugir ao exame dessa objeo.
         Pode-se admitir com certeza que os chistes so formados no inconsciente quando se trata de chistes a servio de propsitos inconscientes ou de propsitos 
reforados pelo inconsciente - isto , a maior parte dos chistes 'cnicos' (ver em [1]). Em tais casos, o propsito inconsciente draga o pensamento pr-consciente 
no inconsciente e lhe d uma forma nova - um processo ao qual o estudo da psicologia das neuroses apontou numerosas analogias. Entretanto, no caso de chistes tendenciosos 
de outro gnero, de chistes inocentes e de gracejos, a fora de dragagem (no inconsciente) parece ausente e, em conseqncia, coloca-se em questo a relao dos 
chistes com o inconsciente.
         Consideremos agora o caso em que um pensamento, por si mesmo valioso, ocorre no curso de um processo intelectual e se exprime como um chiste. A fim de capacitar 
a esse pensamento tornar-se um chiste,  claramente necessrio selecionar, entre as formas de expresso possveis, aquela que h de trazer consigo uma produo de 
prazer verbal. Sabemos, pela auto-observao, que a seleo no  feita pela ateno consciente; certamente a seleo ser ajudada se a catexia do pensamento pr-consciente 
for reduzida a inconsciente, pois, como verificamos na elaborao onrica, os trajetos associativos que partem das palavras so, no inconsciente, tratados do mesmo 
modo que se partissem de coisas. Uma catexia inconsciente oferece condies bem mais favorveis de se selecionar a expresso. Alm do mais, podemos imediatamente 
admitir que a possvel forma de expresso que envolve uma produo de prazer verbal opera idntica dragagem sobre a ainda instvel verbalizao do pensamento pr-consciente, 
tal como o faz com o propsito inconsciente no caso anterior. Para o caso, mais simples, do gracejo, podemos supor que uma inteno, permanentemente vigilante, de 
realizar uma produo de prazer verbal, capta a ocasio, oferecida no pr-consciente, de dragar no inconsciente o processo catxico de acordo com o modelo j conhecido.
         Devia dar-me por satisfeito se conseguisse, por um lado, fornecer uma exposio mais clara deste nico ponto decisivo na minha concepo dos chistes, e, 
por outro, refor-lo com argumentos conclusivos. Mas de fato o que se me depara no  um dplice fracasso mas um nico e mesmo fracasso. No posso fornecer uma 
exposio mais clara porque no tenho ulterior comprovao de meu ponto de vista. Cheguei a ele com base no estudo da tcnica [dos chistes] e da comparao com a 
elaborao onrica, e no a partir de outra base; constatei ento que, em seu todo, adequa-se excelentemente com as caractersticas dos chistes. Assim, a concepo 
foi atingida por inferncia; se, a partir de uma inferncia como esta, sou levado no a uma regio familiar, mas pelo contrrio, a uma que  estranha e nova ao pensamento, 
denomino 'hiptese' a esta inferncia, recusando-me corretamente a considerar a relao da hiptese com o material da qual  inferida, como uma 'prova' deste. Pode-se 
apenas consider-la como 'provada' se  atingvel tambm por outro trajeto, se  demonstrada como ponto nodal de ainda outras conexes. Mas  impossvel uma prova 
desse tipo, quando mal se inicia nosso conhecimento dos processos inconscientes. Certos de que estamos pisando em solo virgem contentamo-nos em manter, a partir 
de nosso ponto de observao, um nico passo, breve e incerto, na direo da regio inexplorada.
         Sobre tal fundamento no  possvel construir muita coisa. Se relacionamos os vrios estgios do chiste aos estados mentais que lhes so favorveis, podemos 
talvez prosseguir como segue. O gracejo deriva de uma disposio eufrica, aparentemente caracterizada por uma inclinao a diminuir a catexia mental. Emprega j 
todas as caractersticas tcnicas dos chistes, cumprindo sua condio fundamental quanto  seleo do material verbal ou das conexes de pensamento, isto , satisfaz 
tanto aos requisitos da produo de prazer quanto queles feitos pela razo crtica. Concluiremos que a descida da catexia do pensamento ao nvel inconsciente, facilitada 
pela disposio eufrica, est presente j nos gracejos. No caso dos chistes inocentes, conectados  expresso de um pensamento valioso, no mais se aplica o encorajante 
efeito da disposio de nimo. Devemos aqui presumir a ocorrncia de uma aptido pessoal especial, manifestada pela facilidade com que a catexia pr-consciente  
abandonada e trocada, por um momento, pela inconsciente. Um propsito, continuamente na mira da renovao da produo original de prazer, opera uma dragagem da, 
ainda inconstante, expresso pr-consciente do pensamento. Sem dvida a maior parte das pessoas  capaz de produzir gracejos, quando em boa disposio; a aptido 
para fazer chistes apresenta-se apenas em algumas pessoas, independente de sua disposio. Finalmente, a elaborao do chiste recebe seu estmulo mais poderoso quando 
esto presentes fortes propsitos em direo ao inconsciente, os quais representam uma especial aptido para a produo de chistes e podem nos explicar por que os 
determinantes subjetivos dos chistes so encontrados com tamanha freqncia em pessoas neurticas. Sob a influncia desses fortes propsitos mesmo aqueles que, de 
outra forma, teriam uma aptido mnima, tornaram-se capazes de fazer chistes.
         Assim, com essa ltima contribuio que explica, ainda que apenas por hiptese, a elaborao do chiste na primeira pessoa, nosso interesse nos chistes, 
estritamente falando, chega ao fim. Resta-nos fazer outra breve comparao entre os chistes e os, mais bem conhecidos, sonhos; podemos esperar que, afora a nica 
conformidade j considerada, essas duas funes mentais dissimilares revelem apenas diferenas. Destas a mais importante consiste em seu comportamento social. Um 
sonho  um produto mental completamente associal; nada h nele a comunicar a ningum; emerge no sujeito como uma soluo de compromisso entre as foras mentais, 
que lutam nele, e permanece ininteligvel ao prprio sujeito, sendo por essa razo totalmente desinteressante s outras pessoas. No apenas no reservam qualquer 
lugar para a inteligibilidade, como devem de fato evitar ser compreendidos, pois seriam desta forma destrudos; s mascarados, podem subsistir. Por esta razo, podem 
sem estorvo utilizar o mecanismo que domina os processos mentais inconscientes at chegar a uma distoro, no mais endireitvel. Um chiste, por outra parte,  a 
mais social de todas as funes mentais que objetivam a produo de prazer. Convoca freqentemente trs pessoas e sua completao requer a participao de algum 
mais no processo mental iniciado. Est, portanto, preso  condio da inteligibilidade; pode utilizar apenas a possvel distoro no inconsciente, atravs da condensao 
e do deslocamento, at o ponto em que possa ser reconstrudo pela compreenso da terceira pessoa. Alm do mais, chistes e sonhos amadurecem em regies bastante diferentes 
da vida mental e devem ser distribudos em pontos, no sistema psicolgico, bastante remotos uns dos outros. Um sonho permanece sendo um desejo, ainda que tornado 
irreconhecvel; um chiste  um jogo desenvolvido. Os sonhos, a despeito de sua nulidade prtica, retm uma conexo com os principais interesses da vida; procuram 
satisfazer necessidades pelo desvio regressivo da alucinao e tm sua ocorrncia permitida pela nica necessidade ativa durante a noite - a necessidade de dormir. 
Os chistes, por outro lado, procuram obter uma pequena produo de prazer da simples atividade de nosso aparato mental, desimpedida de qualquer necessidade. Mais 
tarde, tentam apoderar-se daquele prazer como produto derivado durante a atividade do aparato mental e assim chegam secundariamente a funes, no sem importncia, 
dirigidas ao mundo exterior. Os sonhos servem predominantemente para evitar o desprazer, os chistes, para a consecuo do prazer; mas para estas duas finalidades 
convergem todas as nossas atividades mentais.
         
         VII - OS CHISTES E AS ESPCIES DO CMICO
         
         Aproximamo-nos dos problemas do cmico de modo no usual. Parece-nos que os chistes, ordinariamente considerados como uma subespcie de cmico, oferecem-nos 
bastante peculiaridades para serem atacados diretamente; assim evitamos sua relao com a categoria, mais inclusiva, do cmico, enquanto isso foi possvel, embora 
no tenhamos deixado de colher, en passant, algumas sugestes que podem lanar luz sobre o cmico. No tivemos dificuldade em descobrir que, socialmente, o cmico 
se comporta diferentemente dos chistes (ver em [1]). Pode contentar-se com duas pessoas: a primeira que constata o cmico e a segunda, em quem se constata. A terceira 
pessoa, a quem se conta a coisa cmica, intensifica o processo, mas nada lhe acrescenta. No chiste, esta terceira pessoa  indispensvel para a completao do processo 
de produo de prazer; entretanto, a segunda pessoa pode estar ausente, exceto quando se trata de um chiste tendencioso, agressivo. Um chiste se faz, o cmico se 
constata - antes de tudo, nas pessoas; apenas por uma transferncia subseqente, nas coisas, situaes etc. No que toca aos chistes, sabemos que as fontes do prazer, 
que h de ser fomentado, residem no prprio sujeito e no em pessoas externas. Verificamos tambm que os chistes podem eventualmente reabrir fontes do cmico tornadas 
inacessveis (ver em [2]) e que o cmico freqentemente serve como fachada ao chiste, substituindo o prazer preliminar que, de outro modo, seria produzido pela tcnica 
conhecida (ver em [3]). Nada disso sugere precisamente que sejam muito simples as relaes entre os chistes e o cmico. Mas os problemas do cmico tm-se comprovado 
to complicados, e to infrutferos tm sido os esforos dos filsofos em resolv-los que no podemos abrigar a prospectiva de que poderemos domin-los em uma repentina 
e violenta investida, aproximando-nos deles a partir dos chistes. Alm do mais, para nossa investigao dos chistes, dispnhamos de um instrumento do qual, at aqui, 
ningum mais fez uso - o conhecimento da elaborao onrica. No temos vantagem similar a nosso dispor para nos ajudar a compreender o cmico e devemos, pois, esperar 
que no descobriremos mais sobre a natureza do cmico do que j constatamos nos chistes, na medida em que estes participam do cmico e possuem em sua prpria natureza 
algumas das caractersticas (do cmico) inalteradas ou meramente modificadas.
         
         O tipo de cmico mais prximo dos chistes  o ingnuo. Como o cmico em geral, o (cmico) ingnuo  'constatado' e no 'produzido', como o chiste. De fato, 
o ingnuo no pode absolutamente ser confeccionado, enquanto no interior do cmico puro devemos levar em conta o caso em que alguma coisa  tornada cmica - a evocao 
do cmico. O ingnuo deve se originar, sem que tomemos parte nisso, nos comentrios e atitudes de outras pessoas, que assumem a posio da segunda pessoa no cmico 
ou nos chistes. O ingnuo ocorre quando algum desrespeita completamente uma inibio, inexistente em si mesmo - portanto, quando parece venc-la sem nenhum esforo. 
 uma condio para a produo do efeito do ingnuo que saibamos que a pessoa envolvida no possui tal inibio; de outro modo, ela no seria ingnua mas impudente. 
Rimo-nos dela, mas no nos indignamos. O efeito do ingnuo  irresistvel e parece fcil de compreender. Uma despesa inibitria usualmente efetuada torna-se subitamente 
inutilizvel por ouvirmos o comentrio ingnuo, e a descarregamos ento pelo riso. No  necessrio aqui que a ateno seja distrada (ver em [1]), provavelmente 
porque a suspenso da inibio ocorre diretamente e no atravs da intermediao de uma operao provocada. Neste caso comportamo-nos como a terceira pessoa do chiste, 
que  presenteada com uma economia na inibio sem qualquer esforo de sua parte (ver em [2]).
         Em vista do insight que obtivemos sobre a gnese das inibies ao seguirmos o processo de desenvolvimento dos jogos at os chistes, no nos surpreender 
a constatao de que o ingnuo ocorra, bem mais freqentemente, nas crianas, sendo depois reservado a adultos no instrudos, que podemos considerar infantis no 
que se refere a seu desenvolvimento intelectual. Comentrios ingnuos so, naturalmente, mais adequados a uma comparao com os chistes do que as atitudes ingnuas, 
j que  atravs de comentrios e no de aes que os chistes usualmente se exprimem.  iluminadora a descoberta que comentrios ingnuos, como os feitos pelas crianas, 
podem ser tambm descritos como 'chistes ingnuos'. A conformidade entre os chistes e a ingenuidade, tanto quanto as razes de sua dissimilaridade, podem nos ser 
mais bem esclarecidas em alguns exemplos:
         Uma menina de trs anos e meio avisa a seu irmo: 'Olha, no coma tanto pudim, seno vai ficar doente e tomar um "Bubizin".' "Bubizin"? pergunta a me, 
'O que  isso?' 'Quando fico doente', disse a menina autojustificando-se, 'tenho que tomar Medizin'. A criana pensava que aquilo que o mdico lhe prescrevia chamava-se 
'Mdi-zin' quando era para uma 'Mdi [garotinha]' e conclua que, quando era para um 'Bubi [garotinho]', devia chamar-se 'Bubi-zin'. Esta construo assemelha-se 
 elaborao de um chiste verbal por similaridade fnica e podia, efetivamente, ter ocorrido como um chiste real, caso em que o acolheramos, meio constrangidamente, 
com um sorriso. Como um exemplo de ingenuidade, parece-nos excelente e suscita o riso. O que  que faz a diferena entre um chiste e alguma coisa ingnua? Evidentemente 
no se trata da verbalizao da tcnica, que seria a mesma para ambas as possibilidades, mas de um fator que,  primeira vista, parece mesmo muito remoto a elas 
duas. Trata-se meramente de que admitamos que o locutor pretendeu fazer um chiste ou de que suponhamos que ele - a criana - tenha tentado, de boa-f, sacar uma 
concluso sria  base de sua impune ignorncia. Apenas este ltimo caso  uma ingenuidade. Aqui, pela primeira vez, nossa ateno desloca-se para o caso em que 
a outra pessoa se introduz no processo psquico que ocorre na pessoa que produz o comentrio.
         Esta perspectiva  confirmada ao examinarmos outro exemplo. Dois irmos - uma menina de doze e um menino de onze anos - representavam um drama, composto 
por eles prprios, para um pblico de tios e tias. A cena representava uma cabana na praia. No primeiro ato, os dois autores-atores, um pobre pescador e sua honesta 
esposa, lamentavam-se sobre os duros tempos e seus parcos ganhos. O marido decide-se a cruzar em seu bote os largos mares e procurar fortuna em outra parte; aps 
ternos adeuses entre ambos, o pano cai. O segundo ato passa-se muitos anos depois. O pescador retorna rico com uma grande mala de dinheiro e narra  esposa, que 
o esperava fora da cabana, como a boa fortuna o abenoara em terras estrangeiras. A esposa o interrompe orgulhosamente: 'Tambm eu no fiquei ociosa'. Abre ento 
a porta da cabana e revela aos olhos do marido doze grandes bonecas deitadas no cho, adormecidas... A este ponto da representao, os atores foram interrompidos 
por uma tempestade de risos da platia, que foram incapazes de compreender. Fitavam desconcertados a seus parentes, que tinham at ento se comportado propriamente, 
prestando a mais vida ateno. O riso  explicado pela suposio, admitida pela platia, de que os jovens autores ignoravam inteiramente as condies que governam 
a origem dos bebs, sendo portanto capazes de acreditar que a esposa pudesse se jactar da descendncia obtida durante a longa ausncia do marido e que este pudesse 
se alegrar com ela por isso. O que os autores produziram, com base nesta ignorncia, pode ser descrito como nonsense ou absurdo.
         
         Um terceiro exemplo h de nos apresentar ainda outra tcnica, com que j travamos contato nos chistes e que se engaja agora a servio do ingnuo. Uma 'francesa' 
foi contratada como governanta de uma garotinha, mas no contou com a aprovao pessoal desta. Mal a recm-chegada deixava um cmodo sem que a garotinha clamasse 
em alta voz a sua crtica:'Isto  uma francesa? Ela pode chamar-se assim apenas por ter deitado alguma vez ao lado de um francs!'. Este dito seria um chiste - mesmo, 
razoavelmente bom - (duplo sentido ou aluso com double entendre) se a criana tivesse a mais leve noo da possibilidade do duplo sentido. De fato, ela meramente 
transferiu para a estrangeira, de quem no gostava, uma maneira faceta de caracterizar alguma coisa como falsificada, expresso que j ouvira com freqncia: 'Isto 
 ouro legtimo? S por ter ficado ao lado de ouro!'. Devido  ignorncia da criana, que altera to completamente o processo psquico em seus ouvintes entendidos, 
o comentrio torna-se ingnuo. Em conseqncia dessa condio [que a criana seja realmente ignorante] h a possibilidade de uma ingenuidade enganadora. Podemos 
assumir na criana uma ignorncia que no existe; as crianas freqentemente se representam como ingnuas de modo a poder desfrutar uma liberdade que de outra forma 
no lhes seria permitida.
         Podemos ilustrar com esses exemplos a posio ocupada pelo ingnuo entre os chistes e o cmico. O ingnuo (no discurso) concorda com os chistes no que concerne 
 verbalizao e ao contedo: efetua um uso imprprio das palavras, um nonsense ou um smut. Mas o processo psquico na primeira pessoa, que o produz, processo que 
levantou para ns questes to interessantes e enigmticas a respeito dos chistes, est aqui completamente ausente. Uma pessoa ingnua pensa estar utilizando seus 
meios de expresso e processos de pensamento normal e simplesmente, no tendo qualquer arrire pense em mente; no deriva igualmente o menor prazer em produzir 
algo ingnuo. Todas as caractersticas do ingnuo inexistem a no ser na compreenso da pessoa que o escuta - pessoa que coincide com a terceira pessoa nos chistes. 
Alem disso a pessoa que o produz faz isso sem o menor esforo. A complicada tcnica que nos chistes se destina a paralisar a inibio procedente da crtica racional, 
est ausente nela; no possui igualmente a inibio, de modo que pode produzir nonsense e smut diretamente e sem compromisso. A este respeito, o ingnuo  um caso 
marginal do chiste; emerge quando, na frmula de construo dos chistes, reduzimos o valor da censura a zero.
         
         Enquanto, no chiste, era uma condio de efetividade que ambas as pessoas se submetessem a aproximadamente as mesmas inibies ou resistncias internas 
(ver em [1]), verificar-se- que  condio para o ingnuo que uma pessoa possua as inibies que a outra no possui. A apreenso do ingnuo processa-se na pessoa 
que tem as inibies, obtendo ela sozinha a produo de prazer que o ingnuo deflagra. Aproximamo-nos da suspeita de que o prazer se origina da suspenso de inibies. 
J que o prazer nos chistes tem a mesma origem - um ncleo de prazer verbal e de prazer no nonsense, e uma embalagem de prazer na suspenso das inibies ou no alvio 
da despesa psquica (ver em [2]) - a relao similar com a inibio explica o parentesco interno entre o ingnuo e os chistes. Em ambos, o prazer se origina pela 
suspenso da inibio interna.
         O processo psquico na pessoa receptora, entretanto,  muito mais complicado no caso do ingnuo, tanto quanto  simplificado na pessoa produtora comparativamente 
aos chistes. (No caso do ingnuo, incidentalmente, nosso prprio eu invariavelmente coincide com a pessoa receptora, enquanto no caso dos chistes podemos igualmente 
ocupar a posio de produtores.) Quando a pessoa receptora ouve algo ingnuo, isto deve afet-la por um lado como se fora um chiste - nossos exemplos evidenciam 
precisamente isso - pois, como no caso de um chiste, a suspenso da inibio passa-se nela sem esforo maior que o de escutar. Mas somente parte do prazer criado 
pelo ingnuo pode ser explicado desse modo, e mesmo assim, correndo risco em certos casos - por exemplo, ao ouvir uma ingnua pea de smut. Podamos reagir imediatamente 
a isto com a mesma indignao destinada a um caso de smut real, no fora o fato de que um outro fator poupa-nos essa indignao, oferecendo-nos ao mesmo tempo a 
parte mais importante de nosso prazer no ingnuo. Esse outro fator  a condio j mencionada (ver em [1]) de que, para reconhecer o ingnuo, devemos saber que a 
inibio interna est ausente na pessoa produtora. Apenas quando estamos certos disso  que nos rimos ao invs de indignarmo-nos. Assim tomamos em considerao o 
estado psquico da pessoa produtora, e nos introduzimos nele, tentando compreend-lo por comparao com o nosso prprio. Tais processos de empatia e comparao  
que resultam na economia da despesa, que descarregamos pelo riso.
         Seria possvel preferir uma descrio mais simples - que nossa indignao torna suprflua pelo fato de que a outra pessoa no necessitou vencer uma resistncia; 
em tal caso, o riso ocorreria ao custo da economia da indignao. A fim de desencorajar essa concepo, que  globalmente enganosa, podemos traar uma distino 
mais rigorosa entre os dois casos que englobamos acima. O ingnuo que deparamos pode ser ou aparentado ao chiste, como em nossos exemplos, ou aparentado ao smut 
(ou a outra coisa, geralmente objetvel); esse ltimo caso ocorre de modo especial, expresso no na fala mas na ao. Esta segunda alternativa  realmente enganosa; 
podia-se supor, na medida em que se o concerne, que o prazer deriva da indignao economizada e transformada. Mas a primeira alternativa esclarece melhor as coisas. 
Um comentrio inocente - e.g.'Bubizin' (ver em [1]) - pode atuar ele prprio como um chiste menor no fornecendo qualquer causa  indignao. Esta alternativa , 
decerto, menos freqente, mas  mais pura e bem mais instrutiva. Na medida em que estamos interessados no fato de que a criana tenha acreditado, sem qualquer arrire 
pense, que a slaba 'Medi' em 'Medizin'  idntica a seu prprio nome 'Mdi', nosso prazer recebe uma intensificao que nada mais tem a ver com o prazer em um 
chiste. Podemos encarar o que se disse a partir de dois pontos de vista - na perspectiva do que aconteceu na criana e na perspectiva do que aconteceu em ns; ao 
fazer essa comparao verificamos que a criana achou uma identidade e ultrapassou uma barreira que existia para ns; parece que podemos ir alm e dizer-nos: 'Se 
V. preferir compreender o que escutou, poder economizar a despesa que tem em manter a barreira'. A despesa liberada em comparao a esta barreira  a fonte do prazer 
no ingnuo, sendo descarregada pelo riso; trata-se, incidentalmente, do mesmo prazer que, de outra forma, teramos transformado em indignao, no fosse isso excludo 
por nossa compreenso da pessoa produtora e, nesse caso, tambm pela natureza do que foi dito. Mas se tomamos o exemplo de um chiste ingnuo como modelo para a outra 
alternativa (de algo ingnuo que seja objetvel) veremos que a tambm a economia na inibio pode proceder diretamente da comparao, que no h necessidade de 
que admitamos uma indignao que se inicia e  ento reprimida e que a indignao de fato apenas corresponde  utilizao da despesa liberada de outra forma - contra 
esse fato, no caso dos chistes, h a necessidade de complicadas medidas protetivas (ver em [1]).
         Essa comparao, e a economia na despesa, resultante de nossa identificao com o processo mental da pessoa produtora, s poder reclamar certa importncia 
quanto ao ingnuo, se no  apenas neste que se encontra. Ocorre-nos, de fato, uma suspeita de que tal mecanismo, que  de todo estranho aos chistes, pode ser parte, 
e mesmo parte essencial do processo psquico no cmico. Encarado deste ponto de vista - que , irrefutavelmente, o mais importante aspecto do ingnuo - o ltimo 
apresenta-se como uma espcie do cmico. O elemento extra em nossos exemplos de discursos ingnuos, que  acrescentado ao prazer de um chiste,  o prazer 'cmico'. 
Devamos nos inclinar por admitir bastante geralmente a respeito do cmico que este procede da despesa economizada pela comparao do comentrio de outra pessoa 
com o nosso prprio. Mas desde que isso nos leva a consideraes abrangentes podemos, em primeiro lugar, concluir nossa discusso do ingnuo. O ingnuo seria, ento, 
uma espcie do cmico j que seu prazer nasce da diferena da despesa originria da tentativa de compreender algum mais; aproximar-se-ia do chiste ao sujeitar-se 
 condio de que a despesa economizada deva ser uma despesa inibitria.
         Acrescentemos rapidamente alguns pontos de concordncia e de diferena entre os conceitos que j tnhamos obtido e aqueles com que nos familiarizamos na 
psicologia do cmico. O colocar-se no lugar de outra pessoa e a tentativa de compreender esta claramente nada mais so que o 'emprstimo cmico' que, desde Jean 
Paul, desempenha um papel na anlise do cmico; a 'comparao' dos processos mentais de algum com os prprios corresponde ao 'contraste psicolgico' para o qual 
finalmente, aqui, encontramos um lugar, depois de no lhe encontrar qualquer aplicao nos chistes (ver em [1]). Mas nossa explicao do cmico difere de muitas 
das autoridades que o consideram procedente da oscilao da ateno, para trs e para frente, entre idias contrastantes. Um tal mecanismo de prazer nos pareceria 
incompreensvel; podemos entretanto indicar que, na comparao entre contrastes ocorre uma diferena na despesa que, no sendo usada para algum outro propsito, 
torna-se capaz de descarga e, pois, torna-se uma fonte de prazer.
         
         Somente com apreenso aventuro-me a abordar o problema do prprio cmico. Seria presunoso esperar que meus esforos fossem capazes de fazer qualquer contribuio 
decisiva a sua soluo quando trabalhos de grande nmero de pensadores eminentes fracassaram em produzir uma explicao inteiramente satisfatria. Minha inteno, 
de fato, no  mais que seguir as linhas de pensamentos, que comprovaram-se valiosos para os chistes, em ligeira incurso no domnio do cmico.
         O cmico aparece, em primeira instncia, como involuntria descoberta, derivada das relaes sociais humanas.  constatado nas pessoas - em seus movimentos, 
formas, atitudes e traos de carter, originalmente, com toda probabilidade, apenas em suas caractersticas fsicas mas, depois, tambm nas mentais ou naquilo em 
que estas possam se manifestar. Atravs de um tipo muito comum de personificao, tambm os animais, e as coisas inanimadas, tornam-se cmicos. Ao mesmo tempo, o 
cmico  capaz de ser destacado das pessoas, na medida em que reconheamos as condies sob quais uma pessoa parece cmica. Desta forma manifesta-se o cmico, e 
este reconhecimento propicia a possibilidade de fazer uma pessoa cmica bastando que se a coloque em situaes nas quais suas atitudes estejam sujeitas a condies 
cmicas. A descoberta de que se tem o poder de tornar cmico algum mais abre caminho a insuspeitadas produes de prazer cmico e origina uma tcnica altamente 
desenvolvida.  possvel tornar-se a si prprio cmico to facilmente quanto a outras pessoas. Os mtodos que servem para tornar as pessoas cmicas so: coloc-las 
em uma situao cmica, o disfarce, o desmascaramento, a caricatura, a pardia, o travestismo etc.  bvio que todas estas tcnicas podem ser usadas para servir 
a propsitos hostis e agressivos. Pode-se fazer uma pessoa cmica para torn-la desprezvel, para priv-la de sua reivindicao de dignidade e autoridade. Mas ainda 
que tal inteno seja subjacente a todo esforo de tornar uma pessoa cmica, no  este necessariamente o sentido do cmico espontneo.
         Esse irregular levantamento das ocorrncias do cmico j nos mostrar que um campo de origem muito extenso deve-lhes ser adscrito e que no devemos esperar 
encontrar condies to especializadas como as que constatamos no ingnuo. Para continuar na pista da condio determinante, vlida para o cmico, a coisa mais importante 
 a escolha de um caso introdutrio. Escolheremos o cmico dos movimentos, recordando-nos que o estgio mais primitivo de representao cnica - a pantomina - usa 
tal mtodo para nos fazer rir. A resposta  pergunta por que rimos dos movimentos do palhao  que eles nos parecem extravagantes e inconvenientes. Rimos de uma 
despesa grande demais. Procuremos agora a condio determinante externa ao cmico, que  artificialmente construda - onde possa constatar-se involuntria. Os movimentos 
de uma criana no nos parecem cmicos, embora ela chute e salte sem direo. Por outro lado,  cmico quando uma criana, aprendendo a escrever, acompanha os movimentos 
de sua caneta com a lngua esticada; nesses movimentos associados verificamos uma desnecessria despesa que pouparamos se estivssemos executando a mesma atividade. 
Similarmente, outros movimentos associados, ou movimentos expressivos meramente exagerados, parecem cmicos tambm nos adultos. Exemplos puros dessa espcie de cmico 
so, por exemplo, os movimentos de algum que, jogando boliche, aps soltar a bola, segue seu curso como se ainda continuasse a dirigi-la. Assim tambm so cmicos 
todos os esgares que exageram a expresso normal das emoes, mesmo se produzidos involuntariamente, como  o caso dos pacientes da doena de So Vito (coria). 
Do mesmo modo, os movimentos apaixonados de um maestro moderno parecem cmicos a um leigo em msica, incapaz de compreender sua necessidade. Na verdade  do cmico 
do movimento que deriva o cmico das formas corporais e dos traos faciais, considerados como resultantes de um movimento exagerado ou intil. Olhos arregalados, 
nariz em gancho pendente sobre a boca, orelhas de abano, uma corcunda - todas estas coisas s produzem um efeito cmico na medida em que se imagina os movimentos 
necessrios para realizar esses traos; e aqui o nariz, as orelhas e outras partes do corpo so imaginados com mobilidade maior que a que tm na realidade. No h 
dvida de que seria cmico 'menear as orelhas' e decerto seria ainda mais cmico poder mover o nariz para cima e para baixo. Boa parte do efeito cmico produzido 
em ns pelos animais provm de percebermos neles movimentos que ns prprios no podemos imitar.
         Mas por que  que rimos ao reconhecermos que os movimentos de alguma outra pessoa so exagerados e inconvenientes? Creio que fazendo uma comparao entre 
o movimento que observo em outra pessoa e aquele que eu prprio deveria executar em seu lugar. As duas coisas comparadas devem naturalmente ser julgadas pelo mesmo 
padro, e este padro  minha despesa de enervao, conectada  minha idia do movimento em ambos os casos. Tal assero requer elucidao e expanso.
         O que quero comparar , por um lado, a despesa psquica relacionada a certa idia e, por outro, o contedo desta ltima. Nossa assero diz que a primeira 
no  geral e, teoricamente, no  independente do seu contedo; diz particularmente que a idia de algo grande requer mais despesa que a idia de algo pequeno. 
Na medida em que se trata apenas de idia de movimentos e diferentes tamanhos, no deve haver dificuldades em termos tericos quanto a nossa assero ou mesmo quanto 
 comprovao desta pela observao. Verificaremos que neste caso um atributo da idia efetivamente coincide com um atributo daquilo que a idia representa, embora 
a psicologia nos previna geralmente contra tal confuso.
         Adquiro a idia de um movimento de tamanho particular executando eu prprio este movimento ou imitando-o, e aprendo, atravs desta ao, um padro para 
este movimento em minhas sensaes enervatrias.
         Quando percebemos um movimento de maior ou menor extenso em outra pessoa, o modo mais seguro de compreend-lo (perceb-lo) ser execut-lo por imitao, 
podendo eu ento decidir por comparao em qual dos movimentos minha despesa ser maior. Um impulso  imitao, como esse, est sem dvida presente na percepo 
dos movimentos. Mas em realidade no efetuamos tal imitao, do mesmo modo que no prossigo soletrando aps ter aprendido a ler por soletrao. Em vez de imitar 
o movimento com meus msculos, tenho uma idia dele atravs dos traos mnmicos das despesas com movimentos similares. A ideao ou o 'pensamento' difere da atuao 
ou da execuo principalmente pelo fato de que desloca energias catxicas muito menores, enquanto impede a descarga da despesa principal.
         Mas de que maneira se exprime na idia o fator quantitativo - de maior ou menor dimenso? - E se no pode haver representao da quantidade na idia, que 
 composta de qualidades, como posso distinguir as idias dos movimentos de diferentes dimenses? Como fazer essa comparao de que depende tudo? O caminho  indicado 
pela fisiologia que nos ensina que mesmo durante os processos da ideao partem enervaes em direo aos msculos, embora seja verdade que tais processos correspondem 
a uma despesa muito modesta de energia. Torna-se agora muito plausvel supor que a energia enervatria que acompanha o processo da ideao seja usada para representar 
o fator quantitativo da idia:  maior quanto se refere  idia de um movimento grande que quando se trata de um pequeno. Assim a idia de um movimento maior seria 
nesse caso efetivamente a maior - ou seja, seria a idia acompanhada de maior dispndio de energia.
         A observao direta mostra que os seres humanos tm o hbito de expressar os atributos de largueza e pequenez no contedo de suas idias atravs da variao 
da despesa em uma espcie de mimtica ideacional. Se uma criana, ou um homem do povo, ou um membro de certas raas, narra ou descreve alguma coisa,  fcil verificar 
que no se contenta em esclarecer sua idia ao ouvinte pela escolha de palavras apropriadas, mas representa tambm o assunto principal atravs de movimentos expressivos: 
combina formas mimticas e verbais de representao. Assim, demonstra, em especial, as quantidades e qualidades: 'uma alta montanha' - eleva sua mo sobre a cabea; 
um 'anozinho' - aproxima-a do cho. Quando tenha perdido o hbito de pintar com as mos (aquilo que descreve), utilizar a voz; se exerce autocontrole tambm sobre 
isso, pode-se apostar que arregalar os olhos ao descrever algo grande e os apertar quando referir-se a algo pequeno. O que expressa assim no so seus afetos mas, 
efetivamente, o contedo de sua ideao.
         Devemos supor, ento, que essa necessidade mimtica s  despertada pelos requisitos da comunicao de alguma coisa, a despeito do fato de que boa parte 
deste mtodo de representao escapa inteiramente  ateno do ouvinte? Pelo contrrio, creio que essa mimtica exista, ainda que menos vvida, independentemente 
de toda comunicao, ocorrendo tambm quando o sujeito forma a idia de algo para seu prprio proveito, quando pensa alguma coisa pictorialmente; exprime ento, 
em todos os casos, as idias de 'grande' e 'pequeno' em seu prprio corpo, como em seu discurso, pela mudana na enervao de suas feies e rgos dos sentidos. 
Creio mesmo que a enervao somtica, comensurvel ao contedo que se est ideando, pode ter sido o princpio e a origem da mimtica com propsito comunicativo; 
basta intensific-la e faz-la notvel a outras pessoas para que possa servir a este fim. Se mantenho o ponto de vista de que se deve acrescentar  'expresso das 
emoes', bem conhecida como concomitante fsico dos processos mentais, a 'expresso do contedo ideacional', posso verificar claramente que meus comentrios relativos 
s categorias de grande e pequeno no exaurem o assunto. Podia mesmo acrescentar uma variedade de consideraes antes de chegar aos fenmenos de tenso pelos quais 
uma pessoa indica somaticamente a concentrao de sua ateno e o nvel de abstrao que, em certo momento, seu pensamento alcana. Considero esse assunto como realmente 
importante e creio que se se prossegue o estudo da mimtica ideacional, esta pode vir a ser til em outros campos da esttica, tanto quanto o  para a compreenso 
do cmico.
         Retornemos ao cmico no movimento. Quando, repito, um movimento particular  percebido, d-se impulso  formao da idia do mesmo, atravs de certa despesa 
de energia. Portanto, ao 'tentar perceber', ao aprender esse movimento, fao certa despesa, e nessa poro do trabalho mental comporto-me exatamente como se me estivesse 
pondo no lugar da pessoa que observo. Mas, provavelmente, ao mesmo tempo tenho em mente o objetivo desse movimento e minha experincia anterior capacita-me a estimar 
a escala de despesa requerida para alcanar este objetivo. Ao faz-lo, desconsidero a pessoa que estou observando e comporto-me como se eu prprio quisesse alcanar 
o objetivo do movimento. Essas duas possibilidades em minha imaginao redundam em uma comparao entre o movimento observado e o meu prprio. Se o movimento da 
outra pessoa  exagerado e no apropriado, meu acrscimo de despesa para compreend-lo  inibido in statu nascendi, como que no prprio ato de sua mobilizao (ver 
em [1]);  declarado suprfluo e livre para utilizar em alguma outra parte, para ser talvez descarregado pelo riso. Essa seria, desde que outras circunstncias fossem 
favorveis, a gnese do prazer no movimento cmico - uma despesa enervatria que se torna um excesso inutilizvel quando  feita a comparao com o prprio movimento.
         Verificar-se- que nossa investigao deve operar em duas direes diferentes: primeiro, estabelecer as condies que controlam a descarga do excesso, e 
segundo, examinar se outros casos do cmico podem ser encarados da mesma forma que o cmico no movimento.
         Examinaremos primeiro a segunda questo, passando do cmico no movimento e na ao ao cmico constatado nas funes intelectuais e nos traos de carter 
de outras pessoas.
         Como um exemplo dessa classe posso escolher o nonsense cmico, como o produzido por candidatos ignorantes em um exame; sem dvida,  mais difcil apresentar 
um exemplo mais simples quanto aos traos de carter. No devemos ser confundidos pelo fato de constatarmos que o nonsense e a estupidez que to freqentemente produzem 
um efeito cmico, no so, apesar disso, sentidos como cmicos em todos os casos; do mesmo modo, os mesmos caracteres, que em certa ocasio, podem ser risveis, 
como cmicos, em outra ocasio podem nos parecer desprezveis e odiosos. Esse fato, que no devemos deixar de ter em vista, indica simplesmente que, alm da comparao 
que j conhecemos, outros fatores esto envolvidos na produo do efeito cmico - fatores que poderemos descobrir em alguma outra conexo. (Ver em [1].)
         O cmico encontrado nas caractersticas intelectuais e mentais de outra pessoa  tambm, evidentemente, o resultado de uma comparao entre essa pessoa 
e meu prprio eu, embora, bastante curiosamente, essa comparao produza, via de regra, um resultado oposto quele no caso de um movimento ou ao cmica. Nesse 
ltimo caso, era cmico que outra pessoa fizesse uma despesa de energia maior do que a que eu julgava necessria. No caso de uma funo mental, pelo contrrio, esta 
torna-se cmica se a outra pessoa efetua uma poupana da despesa que eu prprio reputo indispensvel (pois o nonsense e a estupidez so deficincias da funo). 
No primeiro caso rimo-nos pela excessiva complicao, no ltimo rimo-nos da facilitao em excesso. O efeito cmico aparentemente depende, portanto, da diferena 
entre as duas despesas catxicas - a prpria e a da pessoa, estimada por empatia - e no daquilo que, nas duas, favorea a diferena. Mas essa peculiaridade, que 
 primeira vista confunde nosso juzo, se desvanece quando pensamos que a restrio de nosso trabalho muscular e o aumento de nosso trabalho intelectual se adequam 
com o curso de nosso desenvolvimento pessoal em direo a um nvel de civilizao mais alto. Elevando nossa despesa intelectual podemos obter o mesmo resultado que 
com a diminuio da despesa em nossos movimentos. A evidncia desse xito cultural  fornecida por nossas mquinas.
         Assim uma explicao uniforme  fornecida pelo fato de que uma pessoa nos parece cmica, em comparao com ns mesmos, se gasta energia demais em suas funes 
corporais e energia de menos em suas funes mentais; no se pode negar que em ambos os casos nosso riso exprime uma gratificante sensao de superioridade com relao 
 pessoa (que achamos cmica). Se a relao nos dois casos  revertida - se a despesa fsica da pessoa  considerada menor que a nossa ou se sua despesa mental  
maior - no mais rimos e sim, somos possudos de assombro e admirao.
         A origem do prazer cmico aqui discutida - sua derivao da comparao de outra pessoa com ns prprios, da diferena entre nossa prpria despesa psquica 
e a de uma outra pessoa, estimada por empatia -  provavelmente a mais importante geneticamente.  certo entretanto que no tenha persistido sendo a nica. J aprendemos 
em um momento ou outro a desconsiderar essa comparao entre uma pessoa e ns prprios, derivando a diferena gratificante de um nico lado, seja da empatia, seja 
do processo em ns mesmos - o que comprova que o sentimento de superioridade no mantm qualquer relao essencial com o prazer cmico. Uma comparao  [apesar 
disso] indispensvel para a gnese desse prazer. Constatamos que se passa entre duas despesas catxicas que ocorrem em rpida sucesso e que envolvem a mesma funo, 
sendo essas despesas operadas atravs de nossa empatia com algum mais, ou, quando no haja tal relao, so descobertas em nossos prprios processos mentais.
         O primeiro desses casos - no qual a outra pessoa ainda desempenha um papel, embora no mais em comparao com nosso prprio eu - origina-se quando a diferena 
gratificante  manifestada pelas influncias externas, que podemos sumariar como uma 'situao'. Por essa razo, essa espcie de cmico  tambm conhecida como 'cmico 
da situao'. Neste caso, as caractersticas da pessoa que proporciona o efeito cmico no desempenham uma parte essencial: rimos ainda que tenhamos de confessar 
que ns teramos feito o mesmo em uma situao igual. Estamos aqui extraindo o cmico da relao dos seres humanos com o freqentemente todo-poderoso mundo externo; 
na medida em que processos mentais de um ser humano esto envolvidos, esse mundo externo compreende tambm as convenes e necessidades sociais e mesmo nossas prprias 
necessidades corporais. Um caso tpico dessa ltima espcie  fornecido quando, em meio de uma atividade que faz exigncias s faculdades mentais de uma pessoa, 
esta  interrompida por uma dor ou por uma necessidade de defecao. O contraste que, atravs da empatia, oferece-nos a diferena cmica  aquele entre o alto grau 
de interesse assumido pela pessoa antes da interrupo e o mnimo interesse que lhe resta pela sua atividade mental quando ocorre a interrupo. A pessoa que nos 
oferece a diferena torna-se cmica para ns, uma vez mais, por sua inferioridade; mas ela  inferior apenas em comparao anterior consigo mesma e no em comparao 
conosco, pois sabemos que em idnticas circunstncias no nos teramos comportado diferentemente.  digno de nota entretanto que apenas constatamos a inferioridade 
cmica em que algum se pe, quando h empatia - isto , quando outra pessoa est envolvida: quando ns prprios nos achamos em apuros semelhantes, somos cnscios 
apenas de sentimentos aflitivos. Apenas o afastamento de tais sentimentos de ns prprios capacita-nos a fluir prazer da diferena originria da comparao entre 
essas catexias variveis.
         A outra fonte do cmico, que constatamos na transformao de nossa prpria catexia, consiste em nossas relaes com o futuro, que costumamos antecipar com 
nossas idias expectantes. Assumo que uma despesa, quantitativamente definida, subjaz a cada uma de nossas idias - uma despesa que, no caso de um desapontamento, 
 diminuda por uma diferena definida. Posso novamente recordar comentrios feitos anteriormente (ver em [1]) sobre a 'mimtica ideacional'. Parece-me fcil comprovar 
uma mobilizao real de energia catxica no caso de expectativa.  bem obviamente verdadeiro, quanto a inmeros casos, que preparaes motoras formam a expresso 
da expectativa - principalmente em todos os casos onde se requisita minha motilidade - e que essas preparaes podem ser determinadas quantitativamente. Se espero 
agarrar uma bola que me  atirada introduzo em meu corpo tenses que me capacitem a receber o impacto da bola; se a bola para cujo impacto me preparei revela-se 
leve demais, meus movimentos suprfluos tornam-me cmico aos espectadores. Fascinado por minha expectativa, deixei-me levar a uma despesa exagerada de movimento. 
Ocorrer o mesmo quando, por exemplo, tiro de uma cesta uma fruta, que supusera pesada, e que, para meu desapontamento, revela-se falsificada, oca e feita de cera. 
Minha mo, retirada apressadamente, trai o fato que me preparara para uma enervao grande demais - e eu me rio disso. H pelo menos um caso em que a despesa da 
expectativa pode ser diretamente demonstrada mensurvel, atravs de experimentos fisiolgicos em animais. Nos experimentos de Pavlov sobre a secreo salivar, vrios 
tipos de comida so postos diante de ces, nos quais se abriu uma fstula salivar; as quantidades de saliva secretada variam se as condies experimentais confirmam 
ou desapontam as expectativa dos ces de ser alimentados com a comida posta a sua frente.
         Mesmo quando a expectativa requisita meus rgos dos sentidos, e no a minha motilidade, posso assumir que a expectativa se exprime por certa despesa motora, 
tornando os sentidos tensos e reprimindo outras impresses, no esperadas; em geral, posso considerar a atitude da ateno como sendo uma funo motora equivalente 
a certa despesa. Posso adiantar como uma premissa que a atividade preparatria da expectao no ser independente da magnitude da impresso esperada, mas representar 
mimeticamente sua grandeza ou sua pequenez atravs de uma despesa preparatria maior ou menor, como no caso de uma comunicao ou de um pensamento desacompanhado 
de expectativa. A despesa com a expectativa procede, entretanto, de vrios fatores e, no caso de meu desapontamento, tambm vrios fatores estaro envolvidos - no 
apenas se o que acontece  perceptivelmente maior ou menor do que o que eu esperava, mas tambm se  digno do interesse que dispendera na expectativa. Desse modo, 
serei talvez levado a tomar em considerao, alm da despesa com a representao do que  grande ou pequeno (a mimtica ideacional), a despesa com o retesamento 
da ateno (a despesa com a expectativa) e alm disso, em outros casos, a despesa com a abstrao. Mas essas outras espcies de despesa podem ser facilmente referidas 
 despesa com o que  grande ou pequeno, j que ser mais interessante, mais sublime e mesmo mais abstrato, so apenas casos especiais, com qualidades particulares, 
do que  maior. Se alm disso consideramos, de acordo com Lipps e outros escritores, que o contraste quantitativo (no o qualitativo) deve ser considerado primariamente 
com fonte do prazer cmico, deveremos sentir-nos inteiramente felizes por termos escolhido o cmico no movimento como ponto de partida de nossa investigao.
         Lipps, no volume to freqentemente citado nestas pginas, tentou, ampliando a assero de Kant de que o cmico  'uma expectativa frustrada', derivar o 
prazer cmico, em geral, da expectativa. [Lipps, 1898, 5s.]. Entretanto, apesar das descobertas muito instrutivas e valiosas que essa tentativa tem trazido  luz, 
gostaria de apoiar a crtica feita por outras autoridades, de que Lipps teria estreitado demasiadamente o campo de origem do cmico, obrigando-se grande violncia 
para sujeitar os fenmenos no escopo de sua frmula.
         
         
         A humanidade no se contentou em desfrutar o cmico onde ele se deparava a sua experincia; procurou tambm produzi-lo intencionalmente e podemos aprender 
muito sobre a natureza do cmico estudando os meios que servem para fazer cmicas as coisas. Antes de tudo,  possvel produzirmos o cmico em relao a ns prprios 
a fim de divertir outras pessoas - por exemplo, fazendo-nos de desajeitados ou estpidos. Dessa forma, produzimos o efeito cmico tal como se essas coisas fossem 
reais, cumprindo a condio da comparao que leva  diferena na despesa. Mas desse modo no nos tornamos ridculos ou desprezveis podendo mesmo merecer, em algumas 
circunstncias, admirao. O sentimento de superioridade no surge na outra pessoa quando esta sabe que estamos fingindo; isto fornece nova evidncia da fundamental 
independncia do cmico com relao ao sentimento de superioridade (ver em [1]).
         No que concerne a tornar outras pessoas cmicas, o principal meio  coloc-las em situaes em que a pessoa se torna cmica em conseqncia da dependncia 
humana a eventos externos, particularmente fatores sociais, sem respeitar as caractersticas pessoais do indivduo envolvido - isto , empregando o cmico da situao. 
A situao cmica em que se coloca algum pode ser uma situao real (um practical joke) - por exemplo, esticar a perna de modo a que algum escorregue, como se 
fora desajeitado, fazer algum de bobo, explorando-lhe a credulidade, tentar convencer algum de algo absurdo etc. - ou pode ser simulada pelas palavras ou pelo 
jogo. A agressividade, a servio de que freqentemente se engaja o ato de tornar uma pessoa cmica,  muito ajudada pelo fato de que o prazer cmico seja independente 
da realidade da situao cmica, de modo que todo mundo est exposto, sem qualquer defesa, a tornar-se cmico.
         Mas h ainda outros meios de tornar as coisas cmicas, meios que merecem considerao especial e indicam novas fontes do prazer cmico. Entre estes, por 
exemplo, est a mmica que proporciona extraordinrio prazer ao ouvinte e torna cmico seu objeto, mesmo quando se mantm muitssimo afastada da exagerao da caricatura. 
 muito mais fcil explicar o efeito cmico da caricatura que o da simples mmica. A caricatura, a pardia e o travestismo (assim como sua contraparte prtica, o 
desmascaramento) dirigem-se contra pessoas e objetos que reivindicam autoridade e respeito, que so, em algum sentido, 'sublime'. So procedimentos de Herabsetzung, 
conforme a adequada expresso alem para eles. O que  sublime  grande no sentido figurativo, psquico; eu deveria sugerir, ou, antes, repetir minha sugesto (cf. 
p.285) de que  representado por uma despesa aumentada, tal como o que  somaticamente grande. No requer muita observao estabelecer que, quando refiro-me a algo 
sublime, enervo meu discurso de modo diferente, modifico as expresses faciais e tento harmonizar minha atitude global com a dignidade do que estou ideando. Imponho-me 
um controle solene - no muito diferente do que eu adotaria para introduzir-me  presena de uma personalidade eminente, um monarca ou um prncipe da cincia. Dificilmente 
estarei equivocado ao assumir que essa enervao diferente corresponde em minha mimtica ideacional a um acrscimo da despesa. O terceiro caso de semelhante acrscimo 
da despesa ser sem dvida constatado quando procedo a cursos de pensamentos abstratos, ao invs dos habituais, concretos e plsticos. Quando, portanto, os procedimentos 
que discuti para a degradao do sublime permitem-me ter uma idia dele como se fora algo trivial, em cuja presena no preciso alinhar-me, antes, utilizando a frmula 
militar, posso 'pr-me  vontade', sou poupado do acrscimo de despesa devido  postura solene; e a comparao entre este novo mtodo ideacional (instigado pela 
empatia) e o previamente habitual, que tenta, simultaneamente, estabelecer-se - esta comparao, uma vez mais, cria a diferena na despesa que pode ser descarregada 
pelo riso.
         A caricatura, como se sabe, leva a cabo a degradao ao enfatizar, na impresso geral fornecida pelo objeto eminente, um nico trao que , em si mesmo, 
cmico, embora passe despercebido quando considerado apenas no quadro geral. Isolando-o, entretanto, pode-se obter um efeito cmico que, em nossa lembrana, estende-se 
a todo o objeto. Esse efeito sujeita-se  condio de que no nos mantenhamos em atitude reverente na presena real do objeto eminente. Se um trao cmico como esse, 
que fora desconsiderado, inexiste na realidade, a caricatura no hesita em cri-lo, exagerando algo que no  cmico em si mesmo; o fato de que o efeito da caricatura 
no seja essencialmente diminudo por esta falsificao da realidade indica, uma vez mais, a origem do prazer cmico (ver em [1]).
         A pardia e o travestismo realizam de outra forma a degradao de algo eminente: destroem a unidade existente entre o carter de uma pessoa, tal como o 
conhecemos, e seus discursos e atitudes, substituindo as figuras eminentes ou suas enunciaes por outras, inferiores. Distinguem-se neste ponto da caricatura, mas 
no quanto ao mecanismo de produo de prazer cmico. O mesmo mecanismo  tambm usado para o desmascaramento que somente se aplica onde algum se apropriou de dignidade 
e autoridade atravs de uma trapaa, sendo ento despojado destas. J encontramos alguns exemplos do efeito cmico do desmascaramento nos chistes - por exemplo, 
na estria da aristocrtica dama que exclamava 'Ah! mon Dieu!' no incio de seus trabalhos de parto, mas a quem o mdico s atendeu quando gritou 'Ai, ai, ai!' (ver 
em [1]). Tendo chegado a conhecer as caractersticas do cmico, no  mais possvel contestar que essa anedota seja efetivamente um exemplo de desmascaramento cmico, 
no havendo reivindicao justificvel para cham-la um chiste. Evoca os chistes por seu contexto e pelo mtodo tcnico de 'representao por algo muito pequeno' 
[loc. cit.] - nesse caso, o grito da paciente, que  considerado suficiente para estabelecer a indicao do tratamento. Permanece no obstante verdadeiro que nosso 
senso lingstico, se convocado para uma deciso, no levantaria nenhuma objeo quanto a denominarmos de chiste uma histria como esta. Podemos explicar esse fato 
refletindo que o uso lingstico no se baseia no insight cientfico sobre a natureza dos chistes, ao qual ns chegamos no curso de laboriosa investigao. J que 
uma das funes dos chistes  tornar novamente acessveis fontes de prazer cmico ocultadas (ver em [1]), qualquer artifcio que traga  luz alguma coisa no manifestamente 
cmica pode, por uma frouxa analogia, ser chamado de chiste. Isso, entretanto, aplica-se principalmente ao desmascaramento e tambm a outros mtodos de tornar cmica 
uma pessoa.
         Sob o rtulo de 'desmascaramento' podemos incluir tambm um procedimento de tornar as coisas cmicas, com o qual j entramos em contato (ver em [1]) - o 
mtodo de degradar a dignidade dos indivduos, dirigindo a ateno para as fragilidades que partilha com toda a humanidade, em particular a dependncia de suas funes 
mentais de suas necessidades corporais. O desmascaramento equivaler aqui a uma advertncia: tal e tal pessoa, que  admirado como um semideus,  afinal de contas 
um ser humano como voc e eu. Aqui tambm incluem-se os esforos de desnudar o montono automatismo psquico subjacente  riqueza e aparente liberdade das funes 
psquicas. Encontramos exemplos de 'desmascaramento' desse tipo nos chistes dos agentes matrimoniais, e quela altura duvidvamos se teramos o direito de considerar 
como chistes aquelas anedotas (ver em [2]). Podemos agora decidir-nos com maior certeza sobre a anedota do eco (ver em [3]) que reforava todas as asseres do agente 
matrimonial, confirmando finalmente sua admisso de que a noiva tinha uma corcunda com a exclamao 'E que corcunda!' - essa anedota  essencialmente uma histria 
cmica, um exemplo de desmascaramento de um automatismo psquico. Aqui, no entanto, a histria cmica serve apenas de fachada. Pois quem quer que atente para o significado 
oculto das anedotas de agentes matrimoniais, verificar que, no todo, persiste sendo um chiste admiravelmente representado (ver em [4]); aqueles que no penetraram 
to longe sero deixados com a histria cmica. O mesmo se aplica a outro chiste, sobre o agente matrimonial que, para responder a uma objeo, termina por confessar 
a verdade, bradando 'Mas eu lhe pergunto, e quem emprestaria qualquer coisa a essa gente?' (ver em [1]). Aqui, novamente, temos um desmascaramento cmico como fachada 
para um chiste, embora neste caso a caracterstica chistosa seja muito mais inequvoca, j que o comentrio do agente matrimonial , ao mesmo tempo, uma representao 
pelo oposto. Ao tentar provar que tais pessoas eram ricas, prova ao mesmo tempo que no so ricas, mas muito pobres. Aqui, o chiste e o cmico se combinam ensinando-nos 
que o mesmo comentrio pode ser ambas as coisas simultaneamente.
         Estamos felizes em captar a oportunidade de voltar aos chistes a partir do cmico no desmascaramento, j que nosso verdadeiro problema no  determinar 
a natureza do cmico mas lanar luz sobre a relao entre os chistes e o cmico. Discutimos a descoberta do automatismo psquico em um caso onde o sentimento de 
distino entre o cmico e o chiste nos deixou em apuros. Acrescentaremos agora outro caso em que h confuso similar entre os chistes e o cmico - o caso dos chistes 
absurdos. Mas nossa investigao demonstrar ao final que, no que concerne a esse segundo caso, a convergncia entre o chiste e o cmico pode ser teoricamente explicada. 
(ver em [1])
         Ao discutir as tcnicas dos chistes, descobrimos que um mtodo tcnico adotado em muitos chistes  o de dar trnsito livre a modos de pensamentos, usuais 
no inconsciente, mas que podem ser julgados apenas como exemplos de 'raciocnios falhos' no consciente; sobre estes, novamente, sentimos dvida quanto a possurem 
um verdadeiro carter de chistes, de modo que nos inclinamos simplesmente a classific-los como histrias cmicas (ver em [1]). Fomos incapazes de dirimir nossas 
dvidas porque quela altura ignorvamos a caracterstica essencial dos chistes. Subseqentemente, levados por uma analogia com a elaborao onrica, descobrimos 
que consiste em um compromisso efetuado pela elaborao do chiste entre as solicitaes da crtica racional e o impulso a no renunciar ao antigo prazer nas palavras 
e no nonsense (ver em [2]). O que se revela desse modo como compromisso, quando o deflagrar pr-consciente do pensamento  abandonado por um momento  reviso inconsciente, 
satisfazia a ambos os requisitos em todos os casos, mas apresentava-se  crtica de vrias formas e tinha que suportar vrios juzos, a seu arbtrio. Algumas vezes 
o chiste conseguiria esgueirar-se sob a aparncia de uma assero insignificante, embora permissvel; de outras vezes, contrabandearia a si mesmo como expresso 
de um pensamento valioso. Mas num caso marginal da efetuao do compromisso, desistiria de tentar satisfazer  crtica. Jactando-se das fontes de prazer a seu dispor, 
apareceria diante da crtica como puro nonsense, sem temor de provocar-lhe a contradio; pois o chiste poderia calcular que o ouvinte retificasse o desfiguramento 
na forma de sua expresso pela reviso inconsciente, restabelecendo assim o seu sentido.
         Em que casos, ento, o chiste apareceria ante a crtica como nonsense? Particularmente, quando utiliza os modos de pensamento usuais no inconsciente mas 
proscritos pelo pensamento consciente - efetivamente, o raciocnio falho. Pois certos modos de pensamento prprios ao inconsciente so tambm retidos pelo consciente 
- por exemplo, algumas espcies de representao indireta, aluso etc. - mesmo se seu emprego consciente est sujeito a considerveis restries. Quando um chiste 
utiliza essas tcnicas, suscitar pouca ou nenhuma objeo por parte da crtica; as objees ocorrero apenas se utilizarem tambm como tcnica sua mtodos com os 
quais o pensamento consciente nada tiver a ver. Um chiste pode ainda evitar a objeo se oculta o raciocnio defeituoso utilizado e o disfara sob uma demonstrao 
lgica, como ocorreu nos casos do bolo e do licor (ver em [1]), da maionese de salmo (ver em [2]) e similares. Mas se o raciocnio falho  produzido sem disfarces, 
ento as objees da crtica se seguiro com certeza.
         Em tais casos o chiste tem um outro recurso. O raciocnio falho, que utiliza como sua tcnica um dos modos de pensamento do inconsciente impressiona a crtica 
- embora no invariavelmente - como sendo cmico. Proporcionar conscientemente livre trnsito a modos inconscientes do pensamento (que foram rejeitados como defeituosos) 
 um meio de produzir prazer cmico;  fcil compreender isso j que requer decerto um dispndio maior de energia estabelecer uma catexia pr-consciente do que dar 
livre trnsito a uma inconsciente. Quando, ao ouvir um pensamento que soa como se formado no inconsciente, ns o comparamos com sua correo, emerge em ns uma diferena 
na despesa da qual procede o prazer cmico. Um chiste que utiliza o raciocnio falho como sua tcnica, parecendo portanto absurdo, pode desse modo produzir simultaneamente 
um efeito cmico. Se deixamos de detectar o chiste, somos novamente deixados com a histria cmica ou engraada.
         A histria do caldeiro emprestado que foi devolvido com um furo (ver em [1]),  um excelente exemplo de efeito puramente cmico, derivado ao conceder-se 
trnsito livre ao modo inconsciente do pensamento. Deve-se lembrar que o sujeito que tomou o emprstimo, interrogado, respondeu primeiramente que no tinha em absoluto 
tomado o caldeiro emprestado, em segundo lugar que este j tinha um furo quando o tomara emprestado, e finalmente que o devolvera perfeito e sem o furo. Este mtuo 
cancelamento pelos vrios pensamentos, cada um dos quais  vlido em si mesmo,  precisamente o que no ocorre no inconsciente. Nos sonhos, em que os modos de pensamento 
do inconsciente so de fato manifestos, no h conseqentemente nada como um 'ou-ou', apenas uma justaposio simultnea. No exemplo de um sonho que, apesar de sua 
complicao, escolhi em meu A Interpretao de Sonhos como espcimen do trabalho de interpretao, tentei livrar-me eu prprio da reprovao de ter fracassado em 
aliviar uma paciente de suas dores, atravs do tratamento psquico. Minhas razes foram: (1) que ela prpria era responsvel por sua doena j que no aceitaria 
minha soluo; (2) que suas dores tinham origem orgnica e, pois, no me interessavam; (3) que suas dores conectavam-se com sua viuvez, pela qual evidentemente eu 
no era responsvel e (4) suas dores eram devidas  injeo tomada em uma seringa infectada, que algum mais lhe aplicara. Todos estas razes postavam-se lado a 
lado, como se no fossem mutuamente exclusivas. Fui obrigado a substituir o 'e' do sonho por um 'ou-ou' para escapar  carga de nonsense.
         H uma histria cmica similar de uma vila hngara onde o ferreiro fora condenado  pena capital. O burgomestre resolveu, entretanto, que um alfaiate e 
no o ferreiro devia ser enforcado, pois havia dois alfaiates na cidade mas no havia um segundo ferreiro e o crime devia ser expiado. Um deslocamento como esse 
da figura da pessoa culpada contraria naturalmente todas as leis da lgica consciente, mas, em absoluto, o modo de pensamento do inconsciente. No hesito em chamar 
cmica a essa histria, embora tenha includo a do caldeiro entre os chistes. Admitirei agora que essa ltima histria  muito mais bem descrita como 'cmica' que 
como um chiste. Mas agora compreendo como  que meu sentimento usualmente to seguro, pde deixar-me em dvida quanto a essa histria ser cmica ou um chiste. Eis 
um caso em que no posso chegar a uma deciso com base em meu sentimento - ou seja, quando se trata de um caso em que o cmico se origina da descoberta de um modo 
de pensamento que  adequado exclusivamente ao inconsciente. Tal histria pode ser ao mesmo tempo cmica e chistosa; ela me dar a impresso de ser um chiste, mesmo 
que seja meramente cmica, porque o uso do raciocnio falho do inconsciente evoca-me os chistes, tal como o fazem as manobras para a descoberta do que no  manifestamente 
cmico (ver em [1]).
         
         Dediquei muito esforo a essa questo, maximamente delicada, em meus argumentos - a relao entre os chistes e o cmico; suplementarei o que j disse com 
algumas asseres negativas. Devo inicialmente chamar a ateno para o fato de que o exemplo de convergncia entre os chistes e o cmico, que estou tratando, no 
 idntico ao primeiro (ver em [1]).  verdade que a distino  bastante sutil, mas posso faz-las com certeza. No caso anterior, o cmico originou-se da descoberta 
do automatismo psquico. Isto no , entretanto, em absoluto, peculiar apenas ao inconsciente, nem desempenha qualquer papel marcante na tcnica dos chistes. S 
acidentalmente, o desmascaramento se relaciona aos chistes, servindo a alguma outra tcnica de chiste, tal como a representao pelo oposto. Mas no caso de dar livre 
trnsito aos modos inconscientes do pensamento, a convergncia dos chistes e do cmico  necessria, j que o mesmo mtodo, usado aqui pela primeira pessoa do chiste 
como tcnica de liberao do prazer deve produzir, por sua prpria natureza, prazer cmico na terceira pessoa.
         Podia-se ser tentado a generalizar a partir desse ltimo caso e procurar a relao dos chistes com o cmico na noo de que o efeito dos chistes sobre a 
terceira pessoa ocorre de acordo com o mecanismo do prazer cmico. Mas no se trata disso. O contato com o cmico no h absolutamente de ser constatado em todos 
os chistes ou mesmo na maioria deles; na maioria dos casos, pelo contrrio, traa-se uma ntida distino entre os chistes e o cmico. Quando quer que um chiste 
consiga escapar ao aparecimento do nonsense - isto , na maioria dos chistes acompanhados de duplo sentido e aluso - no h vestgio de qualquer efeito semelhante 
ao cmico a ser encontrado no ouvinte. Isso pode ser testado por exemplos que dei anteriormente, ou em alguns casos novos que posso apresentar:
         Telegrama de felicitaes a um jogador que est completando setenta anos: 'Trente et quarente'. (Diviso (ver em [1] e [2]) com aluso.)
         Hevesi, em alguma parte, descreve o processo de manufatura de tabaco: 'As folhas amarelo-brilhantes... eram imersas em uma calda (dipped in a sauce) e temperadas 
nesse molho (sauced in this dip).' (Uso mltiplo do mesmo material.)
         Madame de Maintenon era conhecida como 'Madame de Maintenant'. (Modificao de um nome.)
         O professor Kastner (ver em [1]) disse ao Prncipe que se postava defronte a um telescpio, durante uma demonstrao: 'Alteza, bem sei que sois "durchluchtig 
(ilustre)", mas no sois "durchsichtig (transparente)".'
         
         O Conde Andrssy era conhecido como 'Ministro do Belo Exterior'.
         Podia-se tambm pensar que, de qualquer modo, todos os chistes com uma fachada de nonsense paream cmicos, devendo produzir um efeito cmico. Mas devo 
lembrar que chistes desse tipo muito freqentemente afetam o ouvinte de outra forma e provocam desconcerto e uma tendncia ao repdio (ver em [1]). Isso evidentemente 
depende de que o nonsense de um chiste parea cmico ou como mero nonsense ordinrio - no investigamos ainda o fator determinante. Limitamos portanto nossa concluso 
 assero de que os chistes so, por sua natureza, distintos do cmico e apenas convergiro com este, por um lado, em certos casos especiais, e por outro, no seu 
objetivo de obter prazer de fontes intelectuais.
         Durante essas investigaes das relaes entre os chistes e o cmico, revelou-se para ns uma distino que devemos enfatizar como de mxima importncia, 
apontando, ao mesmo tempo, para uma principal caracterstica do cmico. Achamo-nos obrigados a localizar no inconsciente o prazer dos chistes; no h razo semelhante 
para fazer a mesma localizao no caso do cmico. Pelo contrrio, todas as anlises que fizemos at aqui indicam que a fonte do prazer cmico  a comparao entre 
duas despesas, que atribumos, ambas, ao pr-consciente. Os chistes e o cmico distinguem-se principalmente em sua localizao psquica; pode-se dizer que o chiste 
 a contribuio feita ao cmico pelo domnio do inconsciente.
         
         
         No h necessidade de lamentar essa digresso j que a relao dos chistes com o cmico foi a razo pela qual fomos forados a uma investigao do cmico. 
Mas  certamente tempo de voltar a nosso tpico anterior - a discusso do mtodo que serve para tornar cmicas as coisas. Consideramos primeiro a caricatura e o 
desmascaramento, porque derivamos destes algumas indicaes para a anlise do cmico na mmica. Em regra, inquestionavelmente, a mmica  permeada pela caricatura 
- a exagerao de traos que no seriam de outro modo marcantes (ver em [1]) -, e envolve tambm a caracterstica da degradao. Mas isso no exaure sua natureza. 
No posso negar que ela seja, por si, uma extraordinria fonte de prazer cmico, pois rimos particularmente da fidelidade de alguma imitao. No  fcil fornecer 
uma explicao satisfatria disso a no ser que se esteja preparado para adotar a concepo mantida por Bergson (1900) que aproxima o cmico na mmica ao cmico 
devido  descoberta do automatismo psquico. A opinio de Bergson  que tudo, em uma pessoa viva, que faa pensar em um mecanismo inanimado, tem efeito cmico. Sua 
frmula quanto a isso exprime-se como 'mcanisation de la vie'. Explica o cmico na mmica a partir de um problema levantado por Pascal em seu Penses: por que  
que se ri quando so comparadas duas faces similares nenhuma das quais  cmica em si mesma? 'O que  vivo, segundo nossa expectativa, nunca h de ser repetido exatamente 
idntico. Quando constatamos tal repetio, sempre suspeitamos de um mecanismo subjacente  coisa viva.' [Bergson, 1900, 35.] Quando so vistas duas faces, que se 
assemelham uma  outra intimamente, pensamos em duas impresses de um mesmo molde ou de algum processo mecnico similar. Em suma, a causa do riso seria, em tais 
casos, a divergncia do vivo com o inanimado, ou, como se diria, a degradao do vivo no inanimado (ibid., 35). Se, ademais, aceitamos estas plausveis sugestes 
de Bergson, no acharemos difcil incluir sua concepo sob nossa prpria frmula. A experincia tem ensinado que toda coisa viva difere de tudo o mais e requer 
uma espcie de despesa para nossa compreenso; desapontamo-nos se, em conseqncia de uma completa conformidade ou de uma mmica enganadora, no necessitamos fazer 
nenhuma nova despesa. Desapontamo-nos no sentido de um alvio, sendo descarregada pelo riso a despesa com a expectativa que se tornou suprflua. A mesma frmula 
cobriria todos os casos que Bergson considera de rigidez cmica ('raideur') - costumes profissionais, idias fixas e torneios de expresso repetidos em toda ocasio 
possvel. Todos estes casos se reduziriam  comparao entre a despesa com a expectativa e a despesa efetivamente requisitada para a compreenso de algo que persiste 
sendo idntico; a maior quantidade necessitada pela expectativa basear-se-ia na observao da multiplicidade e plasticidade das coisas viventes. No caso da mmica, 
conseqentemente, a fonte do prazer cmico no seria o cmico da situao mas o da expectativa (ver em [1]).
         J que derivamos, em geral, o prazer cmico da comparao, obrigamo-nos a examinar o prprio cmico da comparao; este, de fato, serve como um mtodo de 
tornar cmicas as coisas. Nosso interesse nessa questo h de aumentar quando lembrarmos que tambm no caso das analogias, freqentemente constatvamos que nosso 
'sentimento' nos deixava em apuros quanto a decidir se alguma coisa devia ser considerada como um chiste ou simplesmente cmica (ver em [1]).
         O assunto, deve-se admitir, merece tratamento mais cuidadoso que o que nossos interesses aqui possam devotar-lhe. O principal atributo que procuramos em 
uma analogia  sua adequao - isto , se convoca a ateno para uma conformidade realmente presente em duas coisas diferentes. O prazer original na redescoberta 
da mesma coisa (Gross, 1899, 153 [e anteriormente, em [1]]) no  o nico motivo que favorece o uso das analogias; h o fato ulterior de que as analogias sejam capazes 
de uma utilizao que acarreta um alvio do trabalho intelectual - isto , se seguimos a prtica usual de comparar o que  menos conhecido com o que  mais conhecido, 
ou o abstrato com o concreto, elucidando pela comparao o que  mais estranho ou mais difcil. Toda comparao como essa, especialmente de algo abstrato com algo 
concreto, envolve certa degradao e certa economia na despesa com a abstrao (no sentido da mimtica ideacional) (ver em [1]) mas, naturalmente, no  suficiente 
para permitir que a caracterstica do cmico seja claramente posta em proeminncia. No emerge repentina, mas gradualmente, do prazer do alvio acarretado pela comparao. 
H uma abundncia de casos que simplesmente margeiam o cmico e a respeito dos quais podia-se duvidar quanto a apresentarem a caracterstica do cmico. A comparao 
torna-se indiscutivelmente cmica se ocorrer uma elevao no nvel da diferena na despesa com a abstrao em duas coisas a serem comparadas, se algo srio e estranho, 
especialmente de natureza moral ou intelectual,  comparado com algo trivial e inferior. O prvio prazer do alvio e a contribuio dos determinantes da mimtica 
ideacional podem talvez explicar a gradual transio, condicionada por fatores quantitativos, do prazer geral ao prazer cmico, durante a comparao. Sem dvida 
evitarei incompreenses se acentuar o fato de que no atribuo o prazer cmico nas analogias ao contraste entre as duas coisas comparadas mas  diferena entre as 
duas despesas com a abstrao. Quando uma coisa no familiar, difcil de ser apreendida, algo que  abstrato e efetivamente sublime em uma acepo intelectual,  
declarada corresponde a algo familiar e inferior, cuja imaginao implica completa ausncia de despesa da abstrao, ento a coisa abstrata , ela prpria, desmascarada 
como algo igualmente inferior. O cmico da comparao  assim reduzido a um caso de degradao.
         Uma comparao pode, entretanto, como j vimos, ter um carter de chiste, sem vestgio de mesclagem cmica - precisamente, quando evita a degradao. A 
comparao da verdade com uma tocha que no pode ser levada atravs de uma multido sem queimar as barbas de algum (ver em [1]) tem um puro carter de chiste, pois 
restitui um torneio expressivo esvaziado (a 'tocha da verdade') a seu valor pleno, e no  cmica porque a tocha  um objeto que, embora concreto, no carece de 
certa dignidade. Mas uma comparao pode facilmente ser cmica e chistosa, independentemente uma coisa da outra, desde que a comparao pode vir em socorro de certas 
tcnicas do chiste, tal como a unificao ou a aluso. Dessa forma a comparao, por Nestroy, da memria a um 'armazm' (ver em [1])  a um tempo cmica e chistosa 
- cmica devido  extraordinria degradao que o conceito psicolgico suporta ao ser comparado a um 'armazm' e chistosa porque a pessoa que utiliza a comparao 
 um caixeiro, que estabelece assim, pela comparao, uma bastante inesperada unificao entre a psicologia e sua profisso. A expresso de Heine 'at que finalmente 
rebentaram todos os botes dos cales da minha pacincia' (ver em [1]) parece  primeira vista no mais que um notvel exemplo de uma comparao comicamente degradante; 
mas  considerao ulterior lhe so permitidas tambm as caractersticas de chiste, j que a comparao, a servio da aluso, viola a regio do obsceno, conseguindo 
pois liberar o prazer no obsceno. O mesmo material, por uma coincidncia que admitidamente no  aleatria, fornece-nos uma produo de prazer que tem o carter 
de chiste e  simultaneamente cmica. Se as condies de um favorecem a gnese do outro, sua unio tem um efeito perturbador sobre o 'sentimento' que se supe informar 
se deparamos com um chiste ou com algo cmico, s se podendo chegar a uma deciso atravs da investigao atenta, que se tenha libertado de qualquer predisposio 
para uma espcie de prazer particular.
         Conquanto possa ser atraente acompanhar os determinantes mais ntimos da produo de prazer cmico, o autor deve ter em mente que nem sua formao nem sua 
ocupao diria justificam a extenso de sua investigao alm da esfera dos chistes; ele deve confessar que o tpico das comparaes cmicas o faz particularmente 
ciente de sua inabilidade.
         Portanto prontamente recordamos que muitas autoridades no reconhecem a ntida distino conceptual e material entre os chistes e o cmico, a cujo estabelecimento 
descobrimo-nos levados, considerando os chistes simplesmente como o 'cmico do discurso' ou 'das palavras'. Comentamos anteriormente que nos acreditvamos capazes 
de distinguir um dito cmico de um chiste:
         'Com um forcado e muito esforo
         sua me pescou-o do ensopado.' (ver em [1])
         
          meramente cmico; o comentrio de Heine sobre as quatro castas entre os habitantes de Gttingen - 'professores, estudantes, filisteus e asnos' (ver em 
[2])  par excellence um chiste.
         
         Para algo intencionalmente cmico tomarei como modelo o 'Wippchen' de Stettenheim. As pessoas chamam a Stettenheim 'espirituoso' porque ele possui em alto 
grau o dom de evocar o cmico. Esta capacidade, de fato, determina adequadamente o 'esprito' que algum 'tem' em contraste com o 'chiste' que 'faz'. No se poder 
negar que as cartas de Wippchen, o correspondente de Bernau, so tambm 'espirituosas' na medida em que esto salpicadas de chistes de toda classe, entre os quais 
alguns autenticamente bem-sucedidos (e.g. de uma exposio de selvagens: 'em uniforme de gala'). Mas o que d a estas produes seu carter peculiar no so tais 
chistes separados, mas o quase excessivo cmico do discurso que flui atravs deles. O 'Wippchen' foi, sem dvida, originalmente pretendido como uma figura satrica, 
uma modificao do 'Schmock' de Gustav Freytag, um desses indivduos incultos que usam mal e dilapidam a reserva cultural de uma nao; mas a satisfao, que o autor 
desfrutava nos efeitos cmicos realizados na pintura dessa personagem, evidentemente foi relegando pouco a pouco o propsito satrico a segundo plano. As produes 
de Wippchen so, em sua maior parte, nonsense cmico. O autor utilizou a disposio agradvel obtida pela acumulao desses xitos para introduzir (justificavelmente, 
deve-se dizer), junto com material perfeitamente permissvel, toda classe de sensaborias que, por si prprias, no seriam tolerveis. O nonsense de Wippchen produz 
um efeito especfico devido a uma tcnica peculiar. Se se considera mais detalhadamente a esses 'chistes', fica-se especialmente impressionado por alguns tipos que 
fornecem seu carter a toda a produo. Wippchen utiliza predominantemente combinaes (amalgamaes), modificaes de rodeios habituais de expresso - citaes 
e substituies de alguns elementos comuns neles por formas de expresso mais pretensiosas e pesadas. Esta caracterstica, incidentalmente, aproxima-se das tcnicas 
dos chistes.
         Eis, por exemplo, algumas amalgamaes (extradas do prefcio e da primeira pgina de toda a srie):
         'A Turquia tem dinheiro wie Heu am Meere [como feno pelo mar]'. Composto de duas expresses 'Dinheiro wie Heu [como feno]' e 'Dinheiro wie Sand am Meere 
[como areia pelo mar]'.
         
         Ou, 'No sou mais que uma coluna despojada de suas folhas, que d testemunho da glria finda' - condensado de 'uma rvore despojada de suas folhas' e 'uma 
coluna que... etc.'.
         Ou, 'Onde est o fio de Ariadne que me afastar da Cila deste estbulo de Augias?', para o qual trs lendas gregas contriburam com um elemento.
         As modificaes e as substituies podem ser sumarizadas sem muita dificuldade. Sua natureza pode ser verificada nos seguintes exemplos, caractersticos 
de Wippchen e por trs dos quais corre o lampejo de uma outra expresso verbal, mais corrente e usualmente mais vulgar, reduzida, pois, a clich:
         'Mir Papier und Tinte hher zu hngen [pendurar o papel e a tinta muito alto para mim].' Usamos a expresso 'einen den Brotkorb hher hngen [pendurar muito 
alto a cesta de po - pr algum em meia-rao]' metaforicamente para 'pr algum em circunstncias mais difceis'. Portanto por que no estender a metfora a outro 
material?
         'Batalhas em que, algumas vezes, os russos puxam menos [i. e. partem em segundo lugar] e outras vezes, puxam mais.' Apenas a primeira dessas expresses 
[den Krzeren ziehen' 'puxar menos']  de uso comum; mas, em vista de sua derivao, no  um absurdo pr em circulao tambm a segunda.
         'Quando eu era ainda jovem, o Pgaso acordava dentro de mim.' Se introduzssemos 'o poeta' ao invs de 'Pgaso', encontraramos um clich autobiogrfico, 
desgastado pelo uso freqente.  verdade que 'Pgaso' no  um substitutivo adequado para 'poeta', mas h uma relao conceptual entre ambas, sendo 'Pgaso' uma 
palavra altissonante.
         'Assim vivi eu os espinhosos sapatos da infncia.' Um smile em vez de simples declarao. 'Dei Kinderschuhe austreten' ['gastar os sapatos da infncia', 
'deixar a nursery para trs']  uma das imagens conectadas com o conceito de infncia.
         Da profuso de outras produes de Wippchen, algumas podem ser acentuadas como puros exemplos do cmico. Por exemplo, um desapontamento cmico: 'Por horas 
a luta flutuou, at que finalmente permaneceu indecisa'. Ou um desmascaramento cmico (da ignorncia): 'Clio, a Medusa da Histria'. Ou citaes tais como: 'Habent 
sua fata morgana'. Mas nosso interesse  suscitado principalmente pelas amalgamaes e modificaes porque estas repetem familiares tcnicas do chiste. Podemos, 
por exemplo, comparar com as modificaes chistes tais como 'ele tem um grande futuro aps si' (ver em [1]), ou 'er hat ein Ideal vor dem Kopf' (ver em [2]) ou o 
chiste de modificaes de Lichtenberg 'novos balnerios curam bem' (ver em [3]) etc. Devero as produes de Wippchen que usam a mesma tcnica ser chamadas chistes? 
Ou em que diferiro destes?
         No  difcil responder. Recordemos que os chistes apresentam uma dupla face a seu ouvinte, forando-o a adotar dois pontos de vista diferentes a seu respeito. 
Em um chiste de nonsense, como os ltimos mencionados, uma concepo, a que leva em conta a expresso verbal, considera-o como nonsense; a outra, que acompanha as 
insinuaes fornecidas, passa pelo inconsciente do ouvinte e descobre-lhe um excelente sentido. Nas produes de Wippchen, semelhantes a chistes, uma das faces est 
em branco, como se fora rudimentar: uma cabea de Janus, com apenas uma das faces desenvolvidas. Se permitimos  tcnica nos enganar, levando-nos ao inconsciente, 
l nada encontramos. As amalgamaes no nos conduzem a nenhum caso em que as duas coisas amalgamadas produzem um novo significado; se tentamos uma anlise, elas 
separam-se completamente. As modificaes e substituies conduzem, como fazem os chistes, a uma verbalizao usual e familiar, mas a prpria modificao ou substituio 
nada nos diz de novo e, via de regra, efetivamente, nada nos diz de possvel ou utilizvel. Portanto, sobra apenas uma das perspectivas de tais 'chistes' - a de 
serem nonsense. Resta-nos simplesmente decidir se escolheremos chamar tais produes, que se livraram de uma das essenciais caractersticas dos chistes, de 'maus' 
chistes, ou se nem mesmo as consideraremos chistes.
         Chistes rudimentares como esses sem dvida produzem um efeito cmico, que podemos explicar de mais de uma maneira. Ou o cmico procede da descoberta de 
modos de pensamento do inconsciente, como nos casos considerados anteriormente (ver em [1]), ou o prazer deriva da comparao com um chiste completo. Nada nos impede 
de supor que ambas as maneiras de gerar prazer cmico convergem aqui. No  impossvel que, aqui, a inadequao do apoio solicitado aos chistes seja precisamente 
o que converte o nonsense em nonsense cmico.
         Pois h outros casos, facilmente inteligveis, em que uma inadequao dessa espcie, quando comparada ao que devia ser efetuado, torna o nonsense irresistivelmente 
cmico. A contraparte dos chistes - os enigmas (ver em [1]) - pode talvez nos oferecer melhores exemplos disso que os prprios chistes. Por exemplo, eis uma 'adivinhao 
faceta' (ver em [2]) 'O que  que se pendura na parede e onde algum pode secar suas mos?' Teramos um enigma idiota se a resposta fosse 'uma toalha de mo'. Mas 
tal resposta  rejeitada. - 'No, um arenque.' - 'Mas, pelo amor de Deus', comea o enfurecido protesto, 'um arenque ningum pendura na parede'. 'Voc pode pendur-lo 
l.' - 'Mas quem  que, no mundo, vai enxugar suas mos em um arenque?' - 'Bem',  a confortante resposta, 'voc de fato no tem que fazer isso.' Esta explicao, 
dada atravs de dois tpicos deslocamentos, mostra quo longe esta adivinhao se acha de um autntico enigma; devido a sua absoluta inadequao parece-nos ser - 
em vez de ser apenas absurdamente idiota - irresistivelmente cmica. Deste modo, fracassando em cumprir condies essenciais, os chistes, os enigmas e outras coisas, 
que no produzem prazer cmico por si, tornam-se fontes do prazer cmico.
         H menos dificuldades em compreender o caso do cmico involuntrio no discurso, que encontramos realizado, to freqentemente quanto estes nos agradam, 
por exemplo, nos poemas de Friederike Kempner (1891):
         
         Contra a viviseco
         
         Ein unbekanntes Band der Seelen kettet
         Den Menschen an das arme Tier.
         Das Tier hat einem Willen - ergo Seele -
         Wenn auch' ne kleinere als wir.
         
         Ou a conversao de um casal de amantes:
         
         O contraste
         
         'Wie glcklish bin ich', ruft sie leise,
          'Auch ich', sagt lauter ihr Gemahl
          'Es macht mich deine Art und Weise
         Sehr stolz auf meine gute Wah!'
         
         Nada aqui nos faz pensar em chistes. Mas sem dvida h uma inadequao nesses 'poemas' que os torna cmicos - a extraordinria deselegncia de sua expresso, 
sua conexo com os mais corriqueiros e jornalsticos torneios expressivos, a simplria limitao de seu pensamento, a ausncia de qualquer vestgio de matria ou 
forma potica. A despeito disso tudo, entretanto, no  bvio porque consideramos cmicos os poemas de Kempner. Consideramos muitos produtos similares nada mais 
que chocantemente ruins; no nos fazem rir mas irritam-nos. Porm  precisamente a grandeza da distncia que os separa do que esperamos de um poema que impe a ns 
a perspectiva cmica; se tal diferena nos parecesse menor, inclinar-nos-amos antes a criticar que a rir. Alm disso, o efeito cmico dos poemas de Kempner  assegurado 
por uma circunstncia subsidiria - as inequivocamente boas intenes do autor e a peculiar sinceridade de sentimento, que desarma nosso escrnio ou nossa irritao, 
e que sentimos subjacente a suas expresses incompetentes.
         Aqui recordamos um problema cuja considerao tnhamos adiado. A diferena na despesa , sem dvida, a condio bsica determinante do prazer cmico; mas 
a observao revela que essa diferena no leva invariavelmente  gerao do prazer. Que outras condies devero estar presentes ou que perturbaes ho de ser 
coibidas para que o prazer cmico possa efetivamente se originar da diferena na despesa? Antes de nos voltarmos para a resposta dessa questo concluiremos essa 
discusso com uma clara assero de que o cmico no discurso no coincide com os chistes, e que os chistes devem portanto ser algo diferente do cmico no discurso. 
(ver em [1])
         
         
         Agora que estamos a ponto de nos aproximar de uma resposta  ltima questo, quanto s condies necessrias para a gnese do prazer cmico a partir da 
diferena na despesa, podemos nos permitir um alvio que no deixar de nos proporcionar prazer. Uma rplica acurada a essa questo seria idntica a uma descrio 
exaustiva da natureza do cmico, para a qual no reivindicamos nem capacidade nem autoridade. Deveremos nos contentar novamente em lanar luz sobre o problema do 
cmico apenas na medida em que este contrasta claramente com o problema dos chistes.
         Toda teoria do cmico sofre objeo por parte de seus crticos quanto ao escopo dela; sua definio desconsidera o que  essencial ao cmico: 'O cmico 
baseia-se no contraste entre as idias'. 'Sim, na medida em que esse contraste produza um efeito cmico, e no de outra qualquer natureza.' 'O sentimento do cmico 
origina-se do desapontamento de uma expectativa.' 'Sim, a no ser que o desapontamento seja de fato doloroso.' Sem dvida, as objees so justificveis, mas deveremos 
superestim-las apenas se concluirmos que o trao essencial do cmico escapou at aqui  deteco. O que prejudica a validade universal dessas definies so as 
condies indispensveis para a gerao do prazer cmico; mas no necessitamos pesquisar nelas a essncia do cmico. De qualquer modo, s ser fcil descartarmos 
as objees e esclarecermos as contradies nas definies desde que suponhamos que a origem do prazer cmico est na comparao da diferena entre duas despesas. 
O prazer cmico e o efeito pelo qual  conhecido - o riso - s se manifestam se essa diferena no  utilizvel e, pois, capaz de descarga. No obtemos qualquer 
efeito gratificante, mas no mximo um transitrio sentimento de prazer no qual no emerge a caracterstica do cmico, se a diferena  transferida para outro uso, 
to logo seja reconhecida. Assim como artifcios especiais tm que ser adotados no caso dos chistes para impedir a utilizao em outra parte da despesa, reconhecida 
como suprflua (ver em [1]), tambm o prazer cmico s aparecer em circunstncias que garantam essa mesma condio. Por esta razo, sendo extraordinariamente numerosas 
as ocasies em nossa vida ideacional onde ocorrem tais diferenas na despesa, so, relativamente, bastante raras as ocasies em que o cmico emerge dessas diferenas.
         Duas observaes impem-se a quem quer que estude, mesmo superficialmente, as condies da gerao do cmico a partir da diferena na despesa. Primeiro, 
h casos em que o cmico aparece habitualmente e como que por fora da necessidade, e, inversamente, h outros casos em que parece inteiramente dependente das circunstncias 
e do ponto de vista do observador. Mas, em segundo lugar, diferenas extraordinariamente grandes com freqncia conseguem vencer as condies desfavorveis, de modo 
que o cmico emerge apesar delas. Em conexo com a primeira dessas observaes, seria possvel estabelecer duas classes - a inevitavelmente cmica e a ocasionalmente 
cmica - embora devamos estar preparados para, desde o incio, renunciar  esperana de descobrir a inevitabilidade do cmico da primeira classe, livre de excees. 
Seria tentador investigar as condies determinantes das duas classes.
         As condies, algumas das quais reunimos como o 'isolamento' da situao cmica, aplicam-se essencialmente  segunda classe. Uma anlise mais detida revela 
os seguintes fatos:
         (a) A condio mais favorvel para a produo do prazer cmico  geralmente uma disposio eufrica, em que se est 'inclinado a rir'. Em uma euforia produzida 
toxicamente quase tudo parece cmico, provavelmente pela comparao com a despesa no estado normal. De fato, o cmico, e todos os mtodos similares de obteno de 
prazer da atividade mental no so mais que maneiras de restabelecer disposio prazenteira - euforia a partir de um nico ponto de abordagem, quando ela no se 
apresenta como disposio geral da psique.
         (b) Um efeito similarmente favorvel  produzido por uma expectativa do cmico, ao se estar em harmonia com o prazer cmico. Por essa razo, se a inteno 
de tornar algo cmico  comunicada a algum, so suficientes diferenas de grau to baixo que nem seriam notadas se ocorressem involuntariamente na experincia dessa 
pessoa. Quem quer que se disponha a ler um livro cmico ou v ao teatro assistir a uma comdia deve a esta inteno sua capacidade de rir de coisas que dificilmente 
lhe pareceriam cmicas em sua vida normal. Em ltimo recurso, est a recordao de ter rido e a expectativa de rir, de modo que rimos ao ver o ator cmico chegar 
ao palco, antes que esse ltimo possa ter envidado algum esforo por fazer-nos rir. Por esta razo, sentimo-nos envergonhados de ter rido de tal pea, depois que 
ela acaba.
         (c) As condies desfavorveis para o cmico procedem do tipo de atividade mental em que uma pessoa particular se ocupa no momento. O trabalho imaginativo 
ou intelectual, demandando a srios objetivos, interfere com a capacidade de catexia para a descarga - catexia que a elaborao requer para seu deslocamento - de 
modo que apenas diferenas inesperadamente grandes na despesa so capazes de fazer irromper o prazer cmico. Especialmente desfavorveis para o cmico so todos 
os tipos de processos intelectuais, suficientemente remotos do que  perceptual, para fazer chegar a um fim a mimtica ideacional. No h lugar deixado para o cmico 
na reflexo abstrata, exceto quando esse modo de pensamento  repentinamente interrompido.
         (d) A oportunidade de liberao do prazer cmico desaparece tambm se a ateno focalizar precisamente a comparao da qual o cmico pode emergir. Em tais 
circunstncias o que teria, de outra forma, sido o mais seguro dos efeitos cmicos perde sua fora. Um movimento ou funo no pode ser cmico para uma pessoa cujo 
interesse se dirija para a comparao dele com um padro que se tem anteriormente em mente. Assim o examinador no acha cmico o nonsense que o candidato produziu 
em sua ignorncia; isso o irrita, enquanto os colegas do candidato, mais interessados na sorte que ele h de ter do que no quanto ele saiba, divertem-se francamente 
com o mesmo nonsense. Um instrutor de ginstica ou dana dificilmente atenta para o cmico nos movimentos de seu alunos; e um sacerdote desconsidera inteiramente 
o cmico nas fraquezas humanas enquanto um escritor de comdias poder traz-las  luz com grande efetividade. O processo cmico no suporta ser hipercatexizado 
pela ateno; deve poder tomar seu curso, passando inadvertido - a este respeito, incidentalmente, comporta-se como os chistes (ver em [1]). Seria, entretanto, contraditrio 
com a nomenclatura de 'processos da conscincia' que utilizei, com boas razes, em  A Interpretao de Sonhos, se procurasse considerar o processo cmico como necessariamente 
inconsciente. Antes, faz parte do pr-consciente; e tais processos, que se desenvolvem no pr-consciente mas carecem da catexia da ateno  qual est conectada 
a conscincia, podem adequadamente receber o nome de 'automticos'. O processo de comparar despesas deve continuar sendo automtico se lhe cabe produzir prazer cmico.
         (e) O cmico sofre interferncia se a situao, da qual deve se desenvolver, origina, ao mesmo tempo, a liberao de um forte afeto. Em tal caso, uma descarga 
da diferena operativa , via de regra, fora de questo. Os afetos, disposio e atitude do indivduo em cada caso particular, fazem compreensvel que o cmico surja 
e se esvaia de acordo com o ponto de vista de cada pessoa particular, s havendo, em caso excepcionais, um cmico absoluto. A contingncia ou a relatividade do cmico 
, portanto, muito maior que a do chiste, que nunca ocorre em funo da prpria concordncia mas  invariavelmente feito, e no qual as condies, sob as quais pode 
encontrar aceitao, so observveis no momento em que  construdo. A gerao do afeto  a mais intensa de todas as condies que interferem no cmico e sua importncia 
a este respeito tem sido universalmente reconhecida. Por esta razo tem-se dito que o sentimento cmico nasce com mais facilidade em casos mais ou menos indiferentes, 
onde no estejam envolvidos fortemente sentimentos e interesses. Mas precisamente nos casos onde h uma liberao de afeto pode-se observar uma diferena particularmente 
forte na despesa, produzida pelo automatismo da liberao. Quando o Coronel Butler responde s advertncias de Octavio, exclamando 'com um riso amargurado': 'Agradecimentos 
da Casa da ustria!', sua amargura no o impede de rir. O riso aplica-se  lembrana do desapontamento que acredita ter sofrido; por outro lado, a magnitude desse 
desapontamento no pode ser retratada de modo mais impressionante por um dramaturgo que pela demonstrao de sua capacidade de impor a si mesmo um riso em meio  
tempestade dos sentimentos liberados. Inclino-me a pensar que essa explicao  aplicvel a todos os casos onde o riso ocorre em circunstncias no gratificantes, 
acompanhado de emoes intensamente dolorosas ou tensas.
         (f) Se acrescento agora que a gerao do prazer cmico pode ser encorajada por algumas outras circunstncias agradveis acompanhantes, como se por uma espcie 
de efeito de contgio (operado da mesma forma que o princpio do prazer preliminar nos chistes tendenciosos), teremos mencionado condies, que governam o prazer 
cmico, bastantes para nossos propsitos, embora no tenhamos decerto arrolado todas elas. Podemos ento constatar que essas condies, tanto quanto a inconstncia 
e a contingncia do efeito cmico, no podem ser explicadas to facilmente por qualquer outra hiptese diferente da derivao do efeito cmico da descarga de uma 
diferena que, sob as mais variveis circunstncias, poderia ser utilizada de outras formas.
         
         
         O cmico da sexualidade e da obscenidade mereceriam considerao mais detalhada, mas podemos apenas aflor-lo aqui com alguns comentrios. O ponto de partida 
seria, uma vez mais [como no caso dos chistes obscenos, em [1]], o desnudamento. Um desnudamento eventual tem em ns um efeito cmico porque comparamos a facilidade 
com que desfrutamos essa viso com a grande despesa, que de outro modo nos seria solicitada para atingir esse fim. Assim, o caso se aproxima do inocentemente cmico, 
mas  mais simples. Todo desnudamento de uma terceira pessoa nos faz espectadores (ou audincia no caso do smut) e equivale a tornar cmica a pessoa desnudada. Verificamos 
que  tarefa dos chistes tomar o lugar do smut, abrindo, novamente, o acesso a uma fonte perdida de prazer cmico. Oposto a isso, o presenciamento de um desnudamento 
no  um caso de cmico para a testemunha, porque seu prprio esforo em fazer isso veda-lhe a condio determinante do prazer cmico: nada resta alm do prazer 
sexual do que  visto. Se a testemunha o descreve a algum, a pessoa que foi testemunhada torna-se cmica outra vez, porque predomina o sentido de que a ltima omitiu 
a despesa necessria para ocultar sua intimidade. Fora isto, as esferas da sexualidade e da obscenidade oferecem a maior ocasio para a obteno do prazer cmico 
juntamente com uma agradvel excitao sexual; pois elas podem mostrar os seres humanos em sua dependncia das funes corporais (degradao) ou podem revelar os 
requisitos fsicos subjacentes  proclamao do amor mental (desmascaramento).
         
         
         Bastante surpreendentemente, encontramos no encantador e sugestivo volume de Bergson, Le rire, um convite a que procuremos uma compreenso do cmico em 
sua psicognese. J entramos em contato (ver em [1]) com as frmulas de Bergson para captar as caractersticas do cmico: 'mecanisation de la vie', 'substitution 
quelconque de l'artificiel au naturel'. Percorre ele um curso plausvel de pensamentos desde o automatismo at o autmato, e tenta atribuir inmeros efeitos cmicos 
a esmaecidas recordaes de um brinquedo infantil. Nesta conexo, chega em certo momento a um ponto de vista que,  verdade, ele logo abandona: esfora-se por explicar 
o cmico como um efeito posterior das alegrias da infncia. 'Peut-tre mme devrions-nous pousser la simplification plus loin encore, remonter  nos souvenirs les 
plus anciens, chercher dans les jeux qui amusrent l'enfant la premire bauche des combinaisons qui font rire l'homme... Trop souvent surtout nous mconnaissons 
ce qu'il y a d'encore enfantin, pour ainsi dire,dans la plupart de nos motions joyeuses.' (Bergson, 1900, 68 s.). J que referimos os chistes aos jogos infantis 
com palavras e pensamentos, que tenham sido frustrados pela crtica racional (ver em [1]), no podemos deixar de nos sentir tentados a investigar as razes infantis 
das quais Bergson suspeita tambm no caso do cmico.
         Efetivamente, se examinamos a relao do cmico com a criana encontramos inmeras conexes que parecem promissoras. As prprias crianas nunca nos parecem 
cmicas de qualquer modo, embora sua natureza satisfaa todas as condies que, comparadas a nossa prpria natureza, produzem uma diferena cmica: a despesa excessiva 
no movimento tanto quanto a pequena despesa intelectual, o domnio das funes mentais pelas corporais, e outras caractersticas. Uma criana s produz um efeito 
cmico em ns quando se conduz no como uma criana mas como um adulto srio, produzindo ento o mesmo efeito que outras pessoas que se disfarassem. Mas na medida 
em que permanece fiel  sua natureza infantil, sua percepo fornece-nos um prazer puro, que talvez nos evoque levemente o cmico. Ns a chamamos ingnua, na medida 
em que demonstra faltar-lhe inibio, e descrevemos como ingenuamente cmicas suas enunciaes que, em outra pessoa, deveriam ser julgadas obscenidades ou chistes.
         Por outro lado, as crianas carecem do sentimento do cmico. A assero parece simplesmente dizer que tal sentimento, como muitas outras coisas, s se inicia 
em certo ponto do curso de desenvolvimento mental; isso no seria absolutamente surpreendente, em especial quando se tem que admitir que tal sentimento j segue 
claramente em uma idade que devemos considerar como infantil. No obstante, pode demonstrar que a assero de que falta s crianas o sentimento do cmico contm 
mais que elementos auto-evidentes. Em primeiro lugar,  fcil verificar que no poderia ser de outra forma se est correta nossa concepo que deriva o sentimento 
cmico de uma diferena na despesa, originria do processo de compreenso de uma outra pessoa. Tomemos novamente o cmico no movimento como exemplo. A comparao 
que fornece a diferena exprime-se (estabelecida em frmulas conscientes): 'Assim o faz ele' 'Assim devo faz-lo, assim o fao'. Mas uma criana no dispe do padro 
contido na segunda sentena; compreende simplesmente por imitao: ele o faz exatamente da mesma maneira. A educao da criana apresenta-lhe um padro; 'assim se 
deve fazer'. Se agora ele utiliza o padro ao fazer a comparao, concluir facilmente: 'ele no o faz certo' e 'eu posso faz-lo melhor.' Neste caso, ri-se de outra 
pessoa, no sentimento de sua prpria superioridade. Nada nos impede de derivar esse riso tambm de uma diferena na despesa; mas analogamente aos casos em que rimos 
de pessoas que encontramos, podemos inferir que o sentimento cmico no est presente no riso de superioridade da criana. Esse  um riso de puro prazer. Em nosso 
prprio caso, quando fazemos um juzo ntido de nossa prpria superioridade, simplesmente sorrimos em vez de rir, ou, se rimos, podemos apesar disso, distinguir 
a conscientizao de nossa superioridade da comicidade que nos faz rir (ver em [1] e [2]).
          provavelmente correto dizer que as crianas riem de puro prazer em uma variedade de circunstncias que sentimos 'cmicas' e das quais no podemos achar 
o motivo, enquanto que os motivos da criana so claros e podem ser formulados. Por exemplo, se algum escorrega na rua e cai, rimo-nos porque a impresso - no 
sabemos por que -  cmica. Uma criana ri no mesmo caso devido a um sentimento de superioridade ou Schadenfreud: 'Voc caiu, eu no'. Certos motivos de prazer das 
crianas parecem perdidos para ns, adultos, e ao contrrio, na mesma circunstncia, temos um sentimento 'cmico' em substituio ao perdido.
         Se se pudesse generalizar, seria muito atraente colocar a caracterstica especfica do cmico, que estamos procurando, em um despertar da infncia - considerar 
o cmico como o 'ltimo riso da infncia' restabelecido. Podia-se ento dizer: 'Rio-me da diferena da despesa entre uma outra pessoa e eu prprio cada vez que redescubro 
a criana nela'. Ou, posto mais exatamente, a completa comparao que leva ao cmico seria: 'Assim ele o faz - Eu o fao de outro modo -, ele o faz como eu costumava 
faz-lo em criana'.
         Assim o riso se aplicaria  comparao entre o ego do adulto e o ego da criana. Mesmo a falta de uniformidade na diferena cmica - o fato que me parece 
cmico  uma despesa ora maior, ora menor (ver em [1]) - se adequaria ao determinante infantil; de fato o que  cmico, o  invariavelmente do lado do infantil.
         Isso no  contraditado pelo fato de que, quando as prprias crianas so objeto da comparao, elas no me do uma impresso cmica, mas puramente agradvel; 
nem  contraditado porque a comparao com o infantil apenas produz um efeito cmico quando qualquer outro uso da diferena  evitado. Pois essas so matrias referentes 
s condies que controlam a descarga. O que quer que coloque um processo psquico em conexo com outros opera contra a descarga da catexia excessiva e a pe a servio 
de outro uso; o que quer que isole um ato psquico encoraja a descarga (ver em [1]). Uma atitude consciente para com as crianas como objetos da comparao impossibilita 
portanto a descarga necessria ao prazer cmico. Somente quando a catexia  pr-consciente (ver em [2]) h uma aproximao com o isolamento tal que, incidentalmente, 
podemos atribu-la aos processos mentais tambm nas crianas. O acrscimo  comparao ('Assim o fiz tambm quando criana'), da qual deriva o efeito cmico, s 
entraria assim em considerao na medida em que estivessem envolvidas diferenas de magnitude mdias, e nenhum outro nexo pudesse se apoderar do excesso liberado.
         Se prosseguimos com nossas tentativa de descobrir a essncia do cmico em uma conexo pr-consciente com o infantil, devemos dar um passo alm de Bergson 
e admitir que a comparao no necessita, para produzir o cmico, despertar os antigos prazeres e o jogo infantil; bastar para isso tocar na natureza infantil em 
geral e talvez, mesmo, no sofrimento infantil. Aqui nos afastamos de Bergson mas permanecemos em concordncia com ns prprios, ao conectarmos o prazer cmico no 
a um prazer recordado, mas, novamente, a uma comparao. Pode ser que os casos da primeira espcie [conectados ao prazer recordado] coincidam com o irresistvel 
e invariavelmente cmico (ver em [1]).
         Recordemos neste ponto o esquema em que detalhvamos anteriormente (ver em [2]) as vrias possibilidades cmicas. Dizamos que a diferena cmica era encontrada 
alternativamente!
         (a) por uma comparao entre uma outra pessoa e eu,
         (b) por uma comparao inteiramente no interior da outra pessoa,
         (c) por uma comparao inteiramente no interior do eu.
         No primeiro destes casos a outra pessoa me apareceria como uma criana; no segundo ela se reduziria  criana; no terceiro eu descobriria a criana em mim.
         [a] O primeiro caso incluiria o cmico do movimento e da forma, do funcionamento mental e do carter. Os fatores infantis correspondentes seriam o impulso 
ao movimento e o desenvolvimento moral e mental inferior da criana. Assim, por exemplo, uma pessoa estpida seria cmica para mim, na medida em que me lembrasse 
uma criana preguiosa, e seria uma m pessoa se me lembrasse uma criana mal comportada. S se poderia falar de um prazer infantil perdido para o adulto no caso 
em que a prpria alegria da criana no movimento fosse envolvida.
         [b] O segundo caso, em que o cmico depende inteiramente da 'empatia', inclui as mais numerosas possibilidades - o cmico da situao, da exagerao (caricatura), 
da mmica, da degradao e do desmascaramento. Este  o caso em que se comprova mais til o ponto de vista infantil. Pois o cmico da situao  maximamente baseado 
no embarao, no qual redescobrimos o desamparo infantil. O pior do embarao, a interferncia de peremptrias solicitaes das necessidades naturais em outras funes, 
corresponde ao incompleto controle pela criana de suas funes corporais. Onde o cmico da situao opera por meio da repetio, baseia-se no peculiar prazer da 
criana na repetio constante (de pergunta, histrias) que a tornam um aborrecimento para o adulto (ver em [1]) A exagerao, que ainda proporciona prazer aos adultos 
na medida em que a capacidade crtica lhe possa achar uma justificao,  conectada  falta de senso de proporo, peculiar  criana, tanto quanto sua ignorncia 
de todas as relaes quantitativas, que vem a conhecer depois das qualitativas. O uso da moderao e do controle, mesmo no caso de impulsos permitidos,  um tardio 
fruto da educao, adquirido pela mtua inibio das atividades mentais reunidas em uma combinao. Onde tais combinaes so enfraquecidas, como no inconsciente 
dos sonhos ou no monotesmo das psiconeuroses, a falta de moderao infantil ressurge.
         Constatamos dificuldades relativamente grandes na compreenso do cmico na mmica enquanto deixamos o fator infantil fora da descrio. Mas a mmica  a 
melhor das artes infantis e o motivo diretor da maior parte de seus jogos. A ambio da criana  bem menos se exaltar entre seus iguais do que a imitao dos adultos. 
A relao das crianas com os adultos  tambm a base do cmico da degradao, que corresponde  condescendncia mostrada pelos adultos em sua atitude relativa  
vida das crianas. Pouca coisa d  criana maior prazer que o fato de um adulto rebaixar-se a seu nvel, renunciando  opressiva superioridade e brincando com ela 
como um seu igual. Esse alvio, que d  criana um puro prazer, torna-se nos adultos, sob a forma da degradao, um meio de tornar as coisas cmicas e uma fonte 
do prazer cmico. No que se refere ao desmascaramento, sabemos que remete  degradao.
         [c] Encontramos maiores dificuldades em descobrir a base infantil do terceiro caso, o cmico da expectativa, o que inegavelmente explica por que as autoridades 
que consideraram primeiro este caso em sua discusso do cmico, no encontraram nenhuma ocasio de levar em conta o fator infantil no cmico. O cmico da expectativa 
 sem dvida o mais remoto nas crianas; a capacidade de capt-lo  a ltima a aparecer. Na maior parte dos casos que parecem cmicos a um adulto, uma criana sentiria 
apenas desapontamento. Podamos entretanto tomar a faculdade de expectativa ansiosa da criana e sua credulidade como base para compreendermos o fato de parecermos 
a ns mesmos cmicos 'como uma criana' quando deparamos com um desapontamento cmico.
         O que dissemos pareceria sugerir uma certa probabilidade de traduo do sentimento cmico assim formulada: 'As coisas cmicas so aquelas imprprias para 
um adulto'. No me sinto apesar disso audaz o bastante para, em virtude de minha atitude global com relao ao problema do cmico, defender esta ltima assero 
com tanta seriedade quanto as anteriores. Sou incapaz de decidir se a degradao  infncia  apenas um caso especial de degradao cmica, ou se tudo que  cmico 
baseia-se fundamentalmente na degradao  infncia.
         
         
         Uma inquisio do cmico, ainda que superficial, seria gravemente incompleta se no achasse lugar para, no mnimo, alguns comentrios sobre o humor. O parentesco 
essencial entre os dois  to pouco aberto  dvida que uma tentativa de explicar o cmico est ligada a fazer pelo menos alguma contribuio  compreenso do humor. 
Embora muito de pertinente e impressionante j tenha sido apresentado na apreciao do humor (que, sendo ele prprio uma das mais altas manifestaes psquicas, 
desfruta do particular favor dos pensadores) no podemos evitar uma tentativa de abordar sua natureza a partir de nossas frmulas para os chistes e para o cmico.
         J vimos (ver em [1]) que a liberao de afetos aflitivos  o maior obstculo  emergncia do cmico. To logo o movimento intil produza um dano, ou a 
estupidez leve  maldade, ou o desapontamento cause dor, a possibilidade de um efeito cmico chega ao fim. Isto  verdade, em todos os casos, para algum que no 
pode evitar tal desprazer, que  propriamente sua vtima ou obrigado a compartilh-lo; enquanto isso uma pessoa no envolvida mostra, por sua conduta, que a situao 
em questo contm tudo o que se requer para um efeito cmico. Ora, o humor  um meio de obter prazer apesar dos afetos dolorosos que interferem com ele; atua como 
um substitutivo para a gerao destes afetos, coloca-se no lugar deles. As condies para seu aparecimento so fornecidas se existe uma situao na qual, de acordo 
com nossos hbitos usuais, devamos ser tentados a liberar um afeto penoso e ento operam sobre este motivos que o suprimem in statu nascendi. Nos casos ora mencionados 
a pessoa que  vtima da ofensa, dor etc. pode obter um prazer humorstico, enquanto a pessoa no envolvida ri sentindo um prazer cmico. O prazer do humor, se existe, 
revela-se - no podemos dizer de outra forma - ao custo de uma liberao de afeto que no ocorre: procede de uma economia na despesa de afeto.
         O humor, entre as espcies do cmico,  a mais facilmente satisfeita. Completa seu curso dentro de uma nica pessoa; a participao de alguma outra nada 
lhe acrescenta. Posso guardar a fruio do prazer humorstico que em mim se originou sem sentir obrigao de comunic-lo. No  fcil dizer o que acontece em uma 
pessoa quando o prazer humorstico  gerado; podemos entretanto obter algum insight se examinamos os casos em que o humor  comunicado ou compartilhado, casos em 
que, pela compreenso da pessoa humorstica, chegamos ao mesmo prazer que o seu. O mais tosco dos casos de humor - aquele conhecido como Galgenhumor (literalmente, 
'humor particular') - pode ser instrutivo nesta conexo. Um vagabundo que estava sendo levado  execuo em uma segunda-feira, comentou: ', a semana est comeando 
otimamente'. Este  efetivamente um chiste, j que o comentrio  bem adequado em si mesmo, mas por outro lado est deslocado de uma maneira absurda, j que para 
o prprio sujeito no haveria eventos ulteriores naquela semana. Mas o humor est envolvido na confeco de tal chiste - isto , ao desrespeitar o que distingue 
o incio dessa semana de todas as outras, ao negar a distino que podia originar-se, motiva emoes bastante especiais. O mesmo caso ocorre quando o vagabundo em 
seu caminho para o execuo pede um leno para cobrir a garganta de modo a no pegar um resfriado - precauo em outras circunstncias louvvel mas que, em vista 
do que to brevemente se reserva a seu pescoo, torna-se notavelmente suprflua e desimportante. Deve-se confessar que h nessa blague algo como que magnanimidade 
na tenacidade com que o homem se agarra a seu habitual, recusando tudo que possa destruir esse eu e lev-lo ao desespero. Essa espcie de grandeza do humor aparece 
inequivocamente em casos onde nossa admirao no  inibida pelas circunstncias da pessoa humorstica.
         No Hernani de Victor Hugo, o bandido que se envolvera em uma conspirao contra seu rei, Carlos I da Espanha (o Imperador Carlos V), caiu em mos de seu 
poderoso inimigo. Ru de alta traio, prev que seu destino  perder a cabea. Mas esse conhecimento prvio no o impede de dar-se a conhecer como um Grande Herdeiro 
da Espanha, declarando que no tem a inteno de renunciar a qualquer dos privilgios que lhe so devidos. Um Grande da Espanha tinha o direito de manter-se coberto 
perante seu senhor real. Muito bem, pois:
         
         '...Nos ttes ont le droit'
         De tomber couvertes devant de toi.'
         
         Isto  humor em grande escala e se, quando o ouvimos, no nos rimos  porque nossa admirao sobrepuja o prazer humorstico. No caso do vagabundo que recusa 
resfriar-se no trajeto para a execuo rimos francamente. A situao que devia levar o criminoso ao desespero poderia suscitar intensa compaixo em ns; mas tal 
compaixo  inibida porque compreendemos que o diretamente interessado no se preocupa com a situao. Em conseqncia dessa compreenso, a despesa com a compaixo, 
j preparada, torna-se inutilizvel e podemos descarreg-la, rindo. Estamos como que contagiados pela indiferena do vagabundo - embora notemos que isso lhe custa 
um grande dispndio de trabalho psquico.
         A economia da compaixo  uma das mais freqentes fontes do prazer humorstico. O humor de Mark Twain geralmente opera com esse mecanismo. Descrevendo a 
vida de seu irmo, por exemplo, ele nos conta que, em certa poca, este trabalhara em uma grande empresa de construo de estradas. A exploso prematura de uma mina 
lanou-o ao ar, indo cair em local muito distante de onde estivera trabalhando. Somos levados a sentir simpatia pela vtima do acidente e gostaramos de saber se 
acaso fora ferido. Mas quando, a histria continuando, somos informados de que seu irmo fora descontado em meio dia de servio, em seu salrio, por 'estar ausente 
do lugar de servio', somos distrados de nossa compaixo e tornamo-nos quase to duros de corao como o capataz, quase to indiferentes ao possvel dano  sade 
do irmo. Em outra ocasio, Mark Twain apresenta-nos sua rvore genealgica, que remonta at a um dos companheiros de viagem de Colombo. Descreve ento o carter 
deste ancestral e como sua bagagem consistia de vrias peas de roupa para lavar, cada uma das quais com uma marca de lavanderia diferente - aqui no podemos evitar 
de rir  custa da economia dos sentimentos de piedade com que nos preparramos para o incio dessa histria de famlia. O mecanismo do prazer humorstico no sofre 
interferncia do fato de que saibamos que este pedigree  fictcio e que tal fico serve ao propsito satrico de desnudar os embelezamentos de semelhantes descries 
por outras pessoas:  to independente dessa condio que deve ser real no caso de tornar as coisas cmicas (ver em [1]). Em ainda outra histria, Mark Twain narra 
que seu irmo construiu um abrigo subterrneo coberto por um grande pedao de vela de navio com um furo no meio, para a qual levou uma cama, uma mesa e uma lmpada. 
 noite, entretanto, terminada a cabana, uma vaca que estava sendo recolhida caiu pela abertura do teto sobre a mesa e apagou a lmpada. Seu irmo, pacientemente, 
ajudou o animal a sair e restabeleceu a instalao novamente. Na noite seguinte a mesma interrupo ocorreu e seu irmo comportou-se como na vspera. E assim sucedeu 
cada noite. A repetio torna a histria cmica, mas Mark Twain termina narrando que na quadragsima sexta noite, quando a vaca caiu outra vez, seu irmo finalmente 
comentou: 'A coisa est comeando a tornar-se montona'. A este ponto, o prazer humorstico no pode ser bloqueado pois o que espervamos, h muito, era ouvir que 
este obstinado conjunto de desgraas tornaria o seu irmo zangado. Efetivamente as pequenas contribuies de humor que produzimos ns prprios so, em regra, efetuadas 
 custa da raiva - em vez de nos zangarmos.
         As espcies de humor so extraordinariamente variadas de acordo com a natureza da emoo economizada em favor do humor: compaixo, raiva, dor, ternura etc. 
Este nmero parece restar incompleto porque o reino do humor  constantemente alargado quando um artista ou escritor consegue submeter emoes at ento inconquistadas 
ao controle do humor, tornando-as, atravs dos dispositivos que comparecem em nossos exemplos, fontes do prazer humorstico. Os artistas em Simplicissimus, por exemplo, 
obtm resultados espantosos ao fazer humor  custa do horror ou do repulsivo. As formas em que o humor se manifesta, so ademais, determinadas por duas peculiaridades 
conectadas com as condies sob as quais  gerado. O humor pode, em primeiro lugar, aparecer misturado a um chiste ou a alguma espcie do cmico; neste caso, sua 
tarefa  livrar-se de uma possibilidade implcita na situao: que possa ser gerado um afeto que interfira com o resultado gratificante. Em segundo lugar, pode deter 
a gerao desse afeto inteiramente ou apenas parcialmente; esse ltimo  o caso mais comum j que  o mais fcil de levar a cabo, produzindo as vrias formas de 
humor 'interrompido' - o humor do sorriso entre lgrimas. Retira parte de sua energia do afeto e em troca lhe d um toque de humor.
         O prazer humorstico derivado de simpatia origina-se, como se pode verificar nos exemplos acima, de uma tcnica peculiar comparvel ao deslocamento, atravs 
da qual a liberao de afeto, para o qual j nos preparvamos,  desapontada, desviando-se a catexia para algo mais, freqentemente para algo de importncia secundria. 
Mas isso no nos ajuda a compreender o processo pelo qual o deslocamento da gerao de afeto ocorre na prpria pessoa humorstica. Podemos constatar que o receptor 
imita o criador do humor em seus processos mentais, mas isso nada nos diz sobre as foras que possibilitam o processo no ltimo.
         Podemos dizer apenas que se, por exemplo, algum obtm xito em descartar um afeto doloroso ao refletir sobre a grandeza dos interesses do universo, comparados 
 sua prpria pequenez, no consideramos isso como uma produo de humor mas de pensamento filosfico e, se nos introduzimos nesse curso de pensamento, no obtemos 
nenhum prazer. O deslocamento humorstico s  possvel quando  ofuscada a ateno consciente, tal como no caso da comparao cmica (ver em [1]); como essa ltima, 
est preso  condio de permanecer pr-consciente ou automtico.
         
         Obteremos alguma informao sobre o deslocamento humorstico se o encaramos  luz de um processo defensivo. Os processos defensivos so os correlativos 
psquicos de um reflexo de fuga e realizam a tarefa de impedir a gerao do desprazer a partir de fontes internas. Ao cumprir esta tarefa servem aos eventos mentais 
como uma espcie de regulao automtica, que no fim, incidentalmente, torna-se prejudicial e tem que ser sujeitada ao pensamento consciente. Indiquei uma forma 
particular dessa defesa, a represso fracassada, como o mecanismo operativo do desenvolvimento das psiconeuroses. O humor pode ser considerado como o mais alto desses 
processos defensivos. Ele desdenha retirar da ateno consciente o contedo ideacional que porta o afeto doloroso, tal como o faz a represso, e assim domina o automatismo 
da defesa. Realiza isto descobrindo os meios de retirar energia da liberao de desprazer, j em preparao, transformando-o pela descarga em prazer.  mesmo concebvel 
que isso possa estar novamente em conexo com o infantil, que lhe coloca  disposio os meios para execut-lo. Apenas na infncia existem dolorosos afetos dos quais 
o adulto hoje se ri - tal como o humorista ri de seus afetos dolorosos atuais. A exaltao do ego, que o deslocamento humorstico testemunha, e cuja traduo inegavelmente 
seria 'sou grande demais (ou bom demais) para ser atingido por essas coisas', pode se derivar da comparao do ego atual com o infantil. Tal concepo , at certo 
ponto, apoiada pela parte desempenhada pelo infantil nos processos neurticos de represso.
         No todo, o humor se aproxima mais do cmico que dos chistes. Partilha com o primeiro sua localizao psquica no pr-consciente, enquanto os chistes, conforme 
supnhamos, so formados como um compromisso entre o inconsciente e o pr-consciente. Por outro lado, o humor no participa de uma caracterstica comum aos chistes 
e ao cmico, que talvez no tenhamos enfatizado bastante.  condio necessria para a gerao do cmico que nos obriguemos, simultaneamente ou em rpida sucesso, 
a aplicar ao nico e mesmo ato de ideao dois diferentes mtodos ideacionais, entre os quais se faz a comparao e a diferena cmica emerge (ver em [1]). Diferenas 
na despesa desse tipo originam-se entre o que pertence ao outro e ao eu, entre o que  usual e o que foi mudado, entre o que  esperado e o que acontece. No caso 
dos chistes, a diferena entre dois mtodos simultneos de conceber as coisas, que operam com despesa diferente, aplica-se ao processo que ocorre no ouvinte do chiste. 
Uma dessas concepes, acompanhando as sugestes contidas no chiste, passa pelo trajeto do pensamento atravs do inconsciente; a outra permanece na superfcie e 
encara o chiste como qualquer outra verbalizao que tenha emergido do pr-consciente e se tornado consciente (ver em [1]). Talvez estivssemos justificados em representar 
o prazer de um chiste que escutamos como sendo derivado da diferena entre esses dois mtodos de conceb-lo. Dissemos aqui que os chistes podiam ser descritos (ver 
em [2]) como possuindo uma cabea de Janus, enquanto a relao entre os chistes e o cmico devia ser ainda esclarecida.
         No caso do humor, a caracterstica que apresentamos  cancelada. Assim como  verdade que sentimos prazer humorstico quando  evitada uma emoo que usualmente 
acompanha a situao e at esse ponto, o humor tambm se inclui sob o conceito ampliado do cmico da expectativa. Mas no caso do humor no se trata mais de dois 
mtodos diferentes de conceber o mesmo assunto. O fato de que a situao seja dominada pela emoo de carter desagradvel que deve ser evitada, coloca um fim na 
possibilidade de compar-la com as caractersticas do cmico e dos chistes. O deslocamento humorstico , efetivamente, um caso de despesa liberada para ser usada 
em outra parte - um caso que, como se demonstrou,  perigoso para efeito cmico [p. 120].
         Chegamos agora ao fim de nossa tarefa, tendo reproduzido o mecanismo do humor a uma frmula anloga quelas referentes ao prazer cmico e aos chistes. O 
prazer nos chistes pareceu-nos proceder de uma economia na despesa com a inibio, o prazer no cmico de uma economia na despesa com a ideao (catexia) e o prazer 
no humor de uma economia na despesa com o sentimento. Em todos os trs modos de trabalho do nosso aparato mental o prazer derivava de uma economia. Todos os trs 
concordavam em representarem mtodos de restabelecimento, a partir da atividade mental, de um prazer que se perdera no desenvolvimento daquela atividade. Pois a 
euforia que nos esforamos por atingir atravs desses meios nada mais  que um estado de nimo comum em uma poca de nossa vida quando costumvamos operar nosso 
trabalho psquico em geral com pequena despesa de energia - o estado de nimo de nossa infncia, quando ignorvamos o cmico, ramos incapazes de chistes e no necessitvamos 
do humor para sentir-nos felizes em nossas vidas.
       
       
       APNDICE: ENIGMAS DE FRANZ BRENTANO
         
         
         A descrio dos enigmas de Franz Brentano fornecida por Freud em [1]  to obscura que se faz necessria uma ulterior explicao. Em 1819 Brentano (sob 
o pseudnimo de 'Aenigmatias') publicou um livreto de duzentas pginas com o ttulo Neue Rthsel (Novos Enigmas). Inclua espcimens de vrios tipos diferentes de 
enigmas, o ltimo dos quais era descrito como, 'Fllrthsel' - 'enigmas de completar'. Descreve estes em uma introduo ao livreto. De acordo com ele, esse tipo 
de enigma era um passatempo favorito na regio de Main na Alemanha, mas s recentemente atingira Viena. O livreto inclui trinta exemplos de 'enigmas de completar', 
entre os quais os dois citados, no acuradamente, por Freud. Uma traduo completa deles ser a maneira mais simples de tornar clara sua construo:
         'XXIV.
         'Como nosso amigo  atormentado por sua crena em premonies! Outro dia, quando sua me adoeceu, encontrei-o sentado sob uma rvore alta. O vento soprava 
atravs de seus ramos, de modo que algumas das folhas maiores caam, e uma delas aconteceu de cair em seu colo. Nisso, ele caiu em pranto. Sua me, lamentava-se, 
ia morrer: das lasse ihn das herabgefallene [literalmente: isto ele foi levado pela queda] daldaldaldaldaldal.'
         Resposta: 'Platanenblatt ahnen' [da folha de pltano a pensar].
         'XXVIII.
         Um homem do Indosto adoeceu. Seu mdico estava a escrever-lhe uma receita quando foi subitamente chamado por uma mensagem urgente. Terminou de escrever 
a prescrio to rpido quanto pde e partiu para atender a outra chamada. Logo depois, chegou-lhe a notcia que o asitico, mal tomara o remdio preparado para 
ele, morrera em convulses. "Pobre infeliz!" exclamou o mdico, horrorizado. "O que voc fez?  possvel que indem du den Trank dem [literalmente: quando voc a 
poo para o] daldaldaldaldaldal - daldaldaldaldaldal?".'
         Resposta: 'Inder hast verschrieben, in der Hast verschrieben' [Indiano receitou, em sua pressa cometeu um erro de grafia].
         Um espcimen ingls tornar as coisas ainda mais claras:
         
         'Ladres arrombaram uma grande peleteria. Foram interrompidos e fugiram sem levar nada mas deixando o salo de exposio em grande desordem. Quando o gerente 
chegou na manh seguinte, instruiu a seus auxiliares. 'No importam as mercadorias mais baratas. 'The urgent thing is to get the [literalmente: o urgente  achar 
as] daldal - daldal.'
         Resposta: 'first-rate fur straight [peles de primeira direitas]'.
         
         
         
         



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  Os chistes e sua relao com o inconsciente -  Sigmund Freud
